19.3.12

A boneca não existe

A análise de hoje é especialmente destinada àqueles que apesar dos infortúnios do planeta, acreditam que sapos podem virar príncipes. Existe esperança para os que sonham, apesar de tudo. Desta vez, o desafio foi tentar coisas que ninguém antes tentou, um projeto mirabolante e de pouca coerência lógica aos mais entendidos. Esta demanda foi assumida pelo diretor Michael Gottlieb a fim de que sentimentos infantis pudessem ser redescobertos frente ao perigo que envolve a relação com o impossível. A estrela principal será um ser inanimado, o qual somente os sonhadores poderão enxergá-lo. Nesta circunstância será permitido que os artistas se apaixonem por suas criações, que poderão ter as mais variadas formas, de monumentos egípcios à bonecas articuladas, seres excêntricos, portanto, que serão incutidos na linguagem humana expressa em Manequim | Mannequin – 1987 |.  


Se por um lado os anos de juventude são tidos como a época de maior liberdade da vida, são neles que experenciamos infortúnios de naturezas mais distintas. É o momento de descobrir as possibilidades do mundo, de arriscá-las e fazer comédia frente aos maiores cataclismos já imaginados. Para o jovem Jonathan Switcher | Andrew McCarthy | não havia trabalho ruim, o terrível era, por outro lado, subsistir em algum deles. Ele queria ser criativo quando o que de fato importava aos empregadores era a produção como reflexo da crua realidade time is money. Quando nada parece dar certo... quando as desventuras são maiores que as satisfações o jeito é conversar com seres inanimados. Foi esta a iniciativa de Jonathan após ser admitido como auxiliar em uma loja centenária fadada ao fracasso. “Gosto de coisas criativas” – mas o que ele não poderia supor é que a sua elevada capacidade para devaneios o colocaria frente ao inimaginável. 


Ao observar atentamente uma manequim, ele sentia-se encantado com a beleza e perfeição daquele objeto, a este respeito dizia-lhe que “todo artista se apaixona por sua criação, mas você parece tão especial”. E no princípio era a linguagem, e dela se fez todas as coisas: ao falar a obra materializou-se em realidade, a manequim recebeu vida, ganhando a forma de uma voluptuosa mulher. A desrazão foi a primordial causa que o próprio artista atribuiu aquilo que seus olhos podiam ver. A incongruência relacionava-se, assim, ao encontro com o impossível, com aquilo que não poderia ser racionalmente explicado. Contudo, o maior estranhamento de Jonathan se deu ao constatar que a “boneca” falava, sua articulação não se limitava aos movimentos corpóreos e atingia o nível da excelência discursiva. 


Os devaneios do jovem Jonathan, a partir de então, eram insuficientes para dar conta de explicar quem era esta mulher. Ela mesma, por seu próprio dom, esforçou-se em apresentar-se: “Veja, eu nasci em 2514 A. C. em Edfu, Egito. Farei 4.501 anos no próximo Abril” – de uma vida em um sarcófago para a uma vitrine luminosa, na qual o olhar do outro daria a confirmação de que aquela obra era original. Enquanto uma múmia é representada em sua ausência de movimentos, por uma vida previsível e sem elaboração psíquica, esta boneca real possuía maior articulação motora e discursiva, apta para transmitir ao outro o seu encanto e seduzi-lo. Emmy | Kim Kattrall | seria aquela que propiciaria a Jonathan a oportunidade de sentir-se agente de criação, em uma atmosfera cotidiana em que absolutas convicções tornariam-se passíveis de questionamentos.


O encontro com aquilo que era racionalmente intraduzível em palavras foi a ocasião para a descoberta de um mundo imaginativo existente nas dependências daquela centenária loja. Emmy e Jonathan encarregaram-se de transformar a vitrine num espetáculo e fazer com que a realidade das cores, das roupas e do brilho tocassem os olhos e as emoções daqueles que não seriam indiferentes à esta criação. O resultado era nitidamente visto no olhar de todos que deslumbravam-se com esta nova atração, provocando a admiração de alguns e a desrazão de outros: à alguns funcionários da loja parecia descabido conceber que um tão jovem rapaz era o criador daquelas vitrines, que diariamente eram atualizadas. Se à eles fosse dito que Jonathan a elaborava conjuntamente à sua criação tão pouco adiantaria. As vitrines foram elogiadas com grande admiração pela quase centenária proprietária da loja, Ms. Claire Timkin | Estelle Getty | que destinou à Jonathan a função de criador visual, dizendo-lhe: “não duvide de você mesmo. Apenas crie”. A vitrine era montada diariamente pelas madrugadas tornando-se a grande atração das manhãs entre aqueles que aproximavam-se ansiosos para deslumbrar o encanto das manequins.


É esperado que o brincar com uma boneca real não trouxera ao jovem apenas resultados satisfatórios. Sua promoção foi seguida de catastróficas confusões envolvendo aqueles que disputavam a concorrência com a centenária loja. Havia um enigma em questão que fizera um comércio outrora desabitado tornar-se economicamente bem sucedido. Se por um lado a criação de Jonathan revelava uma mulher inimaginável ao saber humano e científico, por outro ela precisaria permanecer oculta aos olhos de qualquer outra pessoa, portanto aos demais, ela adquirira a forma de “múmia”, transformando-se quantas vezes fossem precisas em uma manequim de pouca articulação, como um retorno à seu lugar-comum. 


Foi necessário tão somente que Jonathan falasse com ela para que Emmy tornasse real, transformando a veracidade das luzes, do som e das roupas em uma materialização do impossível. Neste contexto, qual a diferença fundamental e nítida entre a boneca real e a boneca inventada? A capacidade de produção discursiva. E se pode falar, pode nomear coisas, tornando-se assim ser falante e, consequentemente, desejante. Temos portanto, a complexificação do que seria um conto de fadas protagonizado por um agente masculino. Emmy foi criada via discurso do outro, materializou-se, passando a ocupar o lugar de resposta a demanda de um jovem. Contudo, um ingênuo menino, que não tinha ciência de que ao brincar de boneca assumindo uma posição propriamente masculina ele seria incutido nos mistérios que envolvem a relação com um outro feminino da linguagem.


Ao julgar tudo saber sobre sua criação, Jonathan buscaria, evidentemente, controlá-la, bloqueando aos demais o acesso ao entendimento desta relação. Entretanto, a condição de tudo-saber sobre ela era puramente imaginária. Jonathan criou a boneca, fez discurso e ela falou, entretanto ao conhecer a resplandescência de uma mulher, ele nada sabia quanto ao mutismo relativo à descoberta do sexo feminino. É certo que ele admirava sua criação. Seus afetos para com Emmy revelavam uma condição de exaltação, reverência e magnificiência. Contudo, a mulher reverenciada era igualmente temida: Jonathan não tinha acesso ao campo do desejo deste outro falante. O desconhecimento era evocativo de um temor. Primeiramente, o medo daquilo que era da ordem do Real, ou seja, do que não falava, não possuía simbolização para, posteriormente, temer aquilo de que nada sabia. O medo deste outro ser que situava-se num campo outro que não o masculino pode ser pensado a partir do enigma evocativo quanto ao que é o sexo feminino, o qual, em alusão as elaborações de Lacan, não possui um significante que dê conta de representá-lo no Inconsciente.


A negação do horror e temor frente à ausência de representação do sexo feminino era expressa mediante a elaboração de uma “boneca perfeita”, e assim vê-la brilhar seria uma saída temporariamente satisfatória ao medo de encontrar-se com o real do sexo do outro, com o silêncio e a angústia subjacente ao real da castração. Sabe-se que enquanto às mulheres é destinado o desafio da descoberta de si mesmas por um processo de criação, ao homem prevalece a incógnita quanto ao entendimento do que é o sexo feminino e, consequentemente, à maneira como se estrutura o desejo de uma mulher.

À alguns pode parecer que Jonathan e Emmy complementavam-se, que eram sentido do desejo do outro, uma criação à semelhança de seu artista. Há indícios, entretanto, que levá-nos à compreensão de que não há complementariedade. O desejo torna-se real porque uma falta foi inscrita no sujeito em relação ao outro. A manutenção do desejo entre duas pessoas pressupõe a permanência da falta, em outros termos, a falta não pode faltar.

À Jonathan certamente permaneceria o desafio de fazer com que a boneca se mantivesse falante, e que ao falar, dissesse-lhe mais, dando-lhe indicativos quanto a em quê lugar ou objeto situava-se o seu desejo. Nesta dinâmica, o brincar de casinha seria transfigurado para um jogo de labirinto, e contar com a sorte nos dados não seria suficiente. Vemos, portanto, que nos anos de juventude brincar com bonecas reais pode ser uma tarefa altamente desafiadora. Na certeza de ser aquele que institui lugares e as regras do jogo é possível o encontro com o engano, e absolutamente, com a falicidade. É provável que à isto alguns comentariam: tudo porque ela começou a falar. São estes, portanto, perigos cotidianos, a respeito dos quais até mesmo os mais prevenidos e seguros de si podem deixar-se levar.

Renato Hemesath

15.2.12

A Bela Seduzida

O cinema é tido por algumas pessoas como a arte de criar. Existem aqueles que acreditam, inclusive, numa certa correspondência entre criador e criação. Se por um lado conhecemos uma infinita série de personagens caridosos que mostraram a todos o seu dom de fazerem do mundo um lugar melhor, é certo que eles não subsistiriam se não houvesse o seu inverso. Por décadas os vilões foram aqueles que evocaram os mais tórridos sentimentos de repulsa e admiração, dando lugar, assim, para que um ser do bem pudesse reinar. Hoje uma mulher com um dever para com os vivos irá reinar, colocando aqueles que ao mal entregam-se à uma segunda posição. Assim será? As contradições e reversibilidades podem ser admitidas porque trata-se do cinema de Luis Buñuel, o palco em que o sádico e o sagrado podem desvelar-se conjuntamente. Se o dever para a presente ocasião consiste na arte de interpretar é válido que adentremos na história de Viridiana | Viridiana – 1961 | uma afetuosa mulher que além do dever para com os vivos terá que lidar com a suportabilidade de uma missão para com os mortos. 


Imaginem vocês que após épocas de uma estável tranquilidade em um convento, uma notícia desvirtuou o rumo daquela serena sucessão de dias: Viridiana | Silvia Pinal | foi designada por uma das madres superiores a ir visitar um tio distante, como cumprimento de uma missão que implica o dever de acolhimento àqueles que estão prestes a encarar a passagem desta vida à outra. A poesia que envolve este dever não foi satisfatória para que a jovem se motivasse a deixar um lugar comum para apresentar-se ao desconhecido, pois ao fazê-lo poderia estar sujeita a toda sorte de concupiscências. Os argumentos da madre foram, contudo, mais relevantes, pois o tio ao qual Viridiana deveria visitar a ajudara em seus estudos, oferecendo, conforme lhe foi relembrado, um dote para que aqueles anos de total dedicação religiosa fossem possíveis. Assim, ela admitiu passar dois ou três dias em “um sitio muito tranquilo, como um convento”. Saberemos tão logo que a realidade não seria exatamente esta.


Ao chegar à residência de seu tio, Viridiana assumia junto à todos que ali encontravam-se uma representação estética de perfeição, um ideal de pureza apreendido por meio de seu olhar terno e suas ações honestas para com os outros. Ela foi cordialmente recebida por seu tio Don Jaime | Fernado Rey |, ciente de que o seu dever para com ele e para com as autoridades eclesiásticas – representantes de Deus na Terra – seria consumado em questão de dias. A sucessão de fatos, entretanto, foi distinta ao esperado. Na véspera do retorno da jovem ao convento aquele perspicaz homem em parceria com Ramona | Margarita Lozano |, sua empregada, executaram um maléfico plano com o intento de que Viridiana ali permanecesse por mais algum tempo. Primeiramente, Don Jaime solicitou afetuosamente que ela se vestisse com a roupa que sua falecida esposa usara na noite de núpcias, quando faleceu. Após contestar a incongruência deste pedido, ela consentiu, dizendo “não posso te negar nada” e ao caminhar pela casa com a fantasia da antiga mulher, Viridiana afirmou sentir-se feliz “por lhe ter feito a vontade porque, ao contrário do que cheguei a pensar, acho que o tio é uma boa pessoa”. Se a solicitação não tinha maiores pretensões em primeira instância, bastou apenas que a jovem recusasse enfaticamente o real pedido de casamento de seu tio para que outras medidas fossem executadas. 


O desejo não correspondido de Don Jaime era expresso nestas palavras: “quero que não saia desta casa”, justificando-se “não me julgue mal, só o faço para tê-la mais perto de mim”. Impedida de retornar ao convento e à sua devoção, a afetuosa aprendiz fora transformada em Bela Adormecida após a ingestão de soníferos, medida esta de grande utilidade para que ela se tornasse um instrumento manipulável nas mãos de um outro. Em estado de plena inconsciência, ela foi entregue ao bem ou mal-querer daquele homem que mesmo após tê-la tido consigo mantinha-se em estado de angústia por temer que Viridiana se fosse.


A estratégia elaborada pelo tio teve sua eficácia apenas temporariamente, pois na manhã seguinte Viridiana apartou-se daquele mundo, levando junto a si a vergonha e o sentimento de culpa por ter sido feita objeto ao querer de um outro. A princípio, ela não teria condições de supor que voltaria em breve àquela residência absolvida de qualquer intento pérfido de seu tio. Logo lhe foi informado que Don Jaime ao suicidar, confiou-lhe o direito de usufruir de todos os seus bens. O impacto desta eventualidade foi a ocasião oportuna para que a jovem encontrasse uma solução cabível à seus valores morais, assim, Viridiana admitiu ser a proprietária daqueles bens, mas não exclusivamente: ela optou por abrir as portas da mansão para que pessoas humildes pudessem gozar de uma vida digna – “a minha intenção é criar um albergue (...) onde os pobrezinhos, de passagem, encontrem teto, comida e um pouco de calor humano”. Se pensarmos em uma equivalência entre dinheiro e poder – conforme Freud evidenciou na análise do homem dos ratos (1909) – o fazer pelo outro foi a solução encontrada por Viridiana para o seu sentimento de ter sido afortunada pelo falo do tio, benefício ao qual ela mostrou-se relutante em aquiescer. A aceitação foi admitida apenas em termos de uma renúncia na qual a personagem resolveu-se por dividir os bens e o próprio espaço da residência com aqueles que se encontravam em uma condição desfavorecida.


Por meio desta obra, Buñuel faz incisivas críticas ao império da Igreja Católica e denuncia uma renúncia à satisfação narcisista, concepção esta que encontra-se em concordância com apontamentos feitos por Freud em 1925 sobre a sexualidade feminina. Desta maneira, observa-se que Viridiana preferia ser o amante e não o amado, ou seja, ela estava identificada com o lugar daquele que transmite o seu favor ao outro por meio de ações sem esperar recebê-lo de volta. Se jogarmos com a homofonia entre estas duas palavras, podemos substituir o adjetivo amante por beneficiário, deste modo, a personagem mostrara predileção em ser o beneficiante, e não o beneficiado


A recusa pela satisfação narcisista para Buñuel (1982) está relacionada com o preceito bíblico que impõe a necessidade de expressão do amor ao próximo; para Freud, de outro modo, esta renúncia observada na conduta moral de mulheres pode ser entendida a partir do abandono de um prazer primitivo. A menina elabora a sua condição de não ser completa ao constatar a ausência de um suporte fálico em si mesma, de algo que na dimensão do corpo seja capaz de representá-la, e neste aspecto, unicamente, ela reconhece que não poderá competir com meninos. A decisão de Viridiana, portanto, pode ser analisada mediante a posição de não-ter ou não-ser-toda assumida por ela. O desmerecimento é compreendido, portanto, como uma admissão provavelmente associada à sua capacidade para reconhecer que o objeto narcísico não lhe era propriedade, de modo que sua única possível saída seria atribuí-lo a um outro em detrimento de si própria. A atitude de renúncia enquanto saída para sua condição de afortunada, contudo, não eximiu Viridiana de maiores complicações, a qual inevitavelmente teve que deparar-se, portanto, com os enganos e insuficiências de suas próprias saídas. Ficá-nos, portanto, a ressonância daquela intrépida questão: será possível, ao mesmo tempo, comer o doce e guardá-lo?

Abraços fraternais,

Renato Hemesath

24.1.12

feminino ou masculino: quem pode entrar?

A sessão terror de hoje novamente dispensa monstros, vampiros e animais que falam. Uma equipe especializada encarregou-se de encontrar algo que realmente fosse capaz de causar assombro em qualquer população. Se por um lado alguns animais e criações fictícias foram feitos para entreter, por outro sabemos que este material encontrado a princípio não produz entusiasmo, podendo conduzir algumas pessoas a um momentâneo abatimento em suas devidas almas. Na cerimônia que aqui será descrita moralistas não são bem vindos porque o horror talk show nada mais é que linguagem e o material encontrado é conhecido por aquilo que existe em algum lugar da mente, mas que por razões que em breve serão esclarecidas não deve ser dito. A título de esclarecimento destaco que o não-dito pode ser representável, exatamente aí que entra a mente do diretor Joseph Losey que nos conduz aos amores e horrores agridoces em Cerimônia Secreta | Secret Ceremony – 1968 |.


O cinema pode ser entendido como uma das tentativas mais nobres de desvelar o secreto humanamente impossível de ser expresso por vias diretas, como a fala. A confusão, o insano e a inversão fazem parte da proposta. Assim, é possível termos filhas e mães trocadas que repentinamente descobrem-se enquanto sentido do desejo da outra. Em uma acepção semelhante a esta ocorreu o encontro entre Cenci | Mia Farrow | e Leonora | Elisabeth Taylor | como uma obra do acaso. Ao vê-la, Cenci aproximou-se edificada pela constatação de que aquela era sua mãe que há meses havia saído de casa. Trata-se de um engano aparente, pois Leonora não era a mãe de Cenci. No entanto, a semelhança entre as duas mulheres era notável, o que não inviabiliza a suposição de que Cenci delirava. A jovem não era psicótica, mas esquizofrenogística, por quê não? O delírio da filha será aos poucos mostrado, o qual é de ordem primitiva pautado na idéia imaginária de que a mãe pode dar à uma filha aquilo que ela não tem.


Cenci seguira Leonora até uma igreja na qual uma cerimônia de batismo era realizada. O ambiente em questão era representativo de uma Ordem Sagrada simbolizando por meio do batizado a possibilidade de remissão de quaisquer impurezas, para uma vida sem culpas. Ao observar a cena e a expressão estarrecida de Cenci, Leonora remeteu-se à cerimônia de enterro de sua filha Judith Frances Grabowski que faleceu aos 10 anos de idade deixando-lhe a missão de algo a fazer com o sentimento de culpa por não ter sido uma boa mãe. Para lidar com este sentimento, ela transportou-se do Sagrado ao profano indo para a arrojada residência de Cenci enquanto a persona da boa mãe que um dia retorna ao lar.


A filha dá à mulher o lugar de mãe, tendo em vista que somos aquilo que o outro nos autoriza ser. Para desvendar o enigma delirante de Cenci e, principalmente, a fim de lidar com o seu próprio sentimento de culpa, Leonora assentiu a estadia naquela casa. Neste papel, uma de suas primeiras ações foi fazer o outro falar: Leonora tudo queria saber sobre o mistério que envolvia a família de Cenci, e uma das primordiais questões envolvia a compreensão quanto ao lugar que o pai ocupava naquela família. Ela ficou surpresa ao constatar que não havia um pai em questão, o marido encontrava-se riscado na fotografia de casamento, demarcando a exclusão imaginária do lugar paterno. Simbolicamente, por outro lado, ele existia fazendo-se presente no discurso de Cenci como aquele que fora colocado para fora de casa pela própria mãe, a qual em resposta ao ciúme sentido não admitia que o esposo tocasse o corpo da filha. Posteriormente, a mãe de Cenci havia estabelecido um segundo relacionamento.


Os devaneios e relatos de Cenci eram observados por Leonora que, ao assumir a posição de espiã, sentia-se entorpecida com as cenas que a jovem representava solitariamente. Cenci buscava uma significação para sua própria falta-a-ser no mundo. Ela atuava em uma cena de envolvimento sexual entre pai e filha, mostrando-se ao mesmo tempo envolta e consumada. Sua demanda a este outro era paradoxal: você pode ter-me, e não pode. À esta representação seguiram-se outras atitudes provocativas de Cenci com o intento de testar os limites da irritabilidade de Leonora. A ambivalência presente na dimensão fantasiosa também se mostrava na relação da jovem com a mãe, a qual era amada e retaliada, ao mesmo tempo. Com o passar dos dias, contudo, Leonora identificou-se mais ainda com o lugar de mãe assumido, considerando-se capacitada para proteger a filha dos perigos que envolviam a incursão de um masculino real.


Nesta casa habitada exclusivamente por mulheres os maiores temores e horrores poderiam ganhar estatuto de realizados. Os relatos e fantasias de Cenci sobre as investidas de seu padrasto causaram em Leonora um horror tamanho que suas ações denotavam um interesse em proteger a filha deste “agente nocivo”. De convidada de honra ela passou a ser a amedrontada vigia encarregada de resguardar o mais puro bem da família: a virgindade de Cenci. Neste contexto, a principal herança familiar não diz respeito ao dinheiro, mas à pureza sexual. Os propósitos de manter este bem intacto seriam vulnerabilizados pela chegada de Albert | Robert Mitchum |, o padrasto, aquele que como uma serpente provocadora circulava em torno da casa para captar sua presa. Assim, o temor de Leonora pode ser traduzido na seguinte consideração: “o masculino não pode entrar”. Como uma usurpadora e ao mesmo tempo mulher de boa fé caberia à ela impedir a incursão deste outro que poderia causar-lhes as maiores devastações, desmascarando, inclusive, o seu lugar de mãe. 


Percebam uma correlação entre as expressões utilizadas: “casa habitada por mulheres”, “agente nocivo”, “pureza sexual” e “o masculino não pode entrar”. A questão latente de Leonora ia além da identificação com o lugar de protetora. Ao temer o masculino que não podia entrar ela na realidade sentia-se apavorada com a possibilidade de que aquele que representa o masculino no inconsciente – o pênis ereto – entrasse, causando-lhe os mais diversos dissabores: a perda da virgindade da jovem, gravidez e um prazer absolutamente mais elevado àquele que ela encontrara com outros homens. Sua atitude de amor para com Cenci não excluía um sentimento de inveja frente à possibilidade de realização sexual da “filha”, e tendo em vista o desprazer consequente deste sentimento, ele se revelava na consciência como um desejo de proteger, cuidar e promover abrigo. Cenci foi colocada como substituta à filha perdida de Leonora, a qual tornou-se aos poucos repudiada, tendo em vista que era aquela que bloqueava o acesso ao pai, e consequentemente, ao desejo de Cenci.


Nesta cerimônia aqui comentada introduziu-se o verdadeiro horror que infligia a alma abatida de Leonora, a saber, o seu desejo pelo outro masculino, por paradoxalmente entregar-se à ele e defender-se deste mal. A figura do Sagrado representada pelo ritual na igreja e pelas confissões de Leonora refletem uma possível saída para uma vida sem culpa, tentativa desenfreadamente buscada por ela à sua culpa de não ter sido uma boa e satisfatória mãe. Para encarar a realidade deste fato, contudo, ela teve que lidar com a inversão do sagrado, o profano, revelado por meio de sua introdução àquela casa exclusivamente habitada por mulheres, em que a morte, a culpa e o desejo sexual eram iminentes.

Cordialmente,

Renato Hemesath

31.12.11

"No soy prisionero": Feliz año nuevo!

Se à você também parece que o ano começou ontem, não se censure! pois as folhas do calendário tomaram seu rumo mais agilmente do que nunca. Entretanto, acabou. Encerra-se este ciclo para o começo de um outro ao qual já nos arriscamos predizê-lo. Será lindo. "Alegrias, saúde e sucesso": é provável que você também esteja absorto com esses mesmos discursos, pois bem, agora receba as minhas felicitações na esperança de que o próximo ano seja marcado pela sucessão de sonhos e aprendizados.

Para mim ficarão as idílicas lembranças de um ano de incontáveis dias que valeram a pena ser vividos. Nestas épocas, encontrei-me com filmes que marcaram a minha vida, debrucei-me sobre livros que trouxeram resplandescência aos meus dias e conheci pessoas incríveis. Aprendi a acreditar em duendes e terroristas e, absolutamente, a reconhecer que somos responsáveis pela nossa felicidade e pela oportuna ocasião de estarmos no mundo. E à este festerê que lhes foi anunciado - www.cinefreud.com - pude levá-lo para frente, com zêlo, disposição e autenticidade. Certo de que somos aquilo que o outro nos autoriza ser, eu agradeço àqueles que significativamente trouxeram sentido à este trabalho, permitindo-me aqui transformar a realidade dos meus sonhos e insanidades em arte-falada.

Vou adiante.
No estoy curado, portanto, aqui voltarei. Até mais ver! Um super feliz 2012 a vocês, queridos.

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Cordialmente, 
Renato Hemesath

AS FIAS CAUSARAM