15.2.15

amar até correr

Hoje você vai conhecer o homem da sua vida. Durante o passeio, é provável que haverá pelo menos um homem colocado em condição de excelência para ser designado com o pronome “meu”. Freud descreveu isso tão bem ao referir-se a figura paterna enquanto instituinte das noções de lei e amor. A verdade é que as pessoas deixam marcas conforme atravessam o caminho da gente, e antes que a conversa se destine aos insucessos desses encontros, eis a oportunidade de apresentar um filme sobre esses temas escrito e dirigido por uma mulher. É a fia Zabou Breitman que traz a perspectiva do que é um relacionamento conjugal numa época em que esta em moda o “vamos tentar e ver se dá certo” com a crença de que “tem que durar pra sempre”. É numa atmosfera campestre que ocorreram as filmagens de L’homme de sa vie (2006). Devo alertar a todos que “tem um desfile de fantasmas aí embaixo. Cuidado, estão armados!”.

Inicialmente, é como se uma reunião familiar fosse ocasião para se falar de quaisquer assuntos, quase uma associação-livre grupal. Por uma temporada, o casal Frédérique (ela) | Léa Drucker | e Frédéric (ele) | Bernard Campan | abriram as portas aos familiares mais próximos. É curioso notar que os mesmos chegaram numa hora imprópria, pois Frédéric estava disposto, ou melhor, ereto e apto para o amor na condição de “fazê-lo”, mas foi completamente dissuadido com os dizeres: “não agora, meu amor. Convide menos pessoas da próxima vez, ai teremos mais tempo para fazer besteiras”. Vou declarar desde então que os convidados mudariam o ritmo das coisas. O significante tupiniquim ‘besteira’ alude ao sexo como divertimento, e esta se tornaria uma prática gradualmente extinta. Falaremos disso. 


Uma das primeiras situações do filme é um jantar, mas o objeto principal a nos ser servido nada mais é do que aquilo que as pessoas falam enquanto comem. Ora, um novo vizinho, Hugo | Charles Berling | fora convidado pelo anfitrião para tomar parte naquele evento. Numa primeira impressão, não há como não se lembrar de momentos em que fomos convidados a participar de conversas casuais entre pessoas desconhecidas sentindo-se sem pés nem mãos quão menos originalidade para abordar temas corriqueiros. Só que Hugo saiu-se bem. Apenas dois tópicos se sobressaíram em meio ao blá blá blá: o garoto dizendo que vê pessoas nadando nuas e Hugo que anuncia ser homossexual. Ele participou, inclusive, de um clássico número de mágica em que uma carta de baralho desaparece. Em que vai se transformar o rei de espadas? Sobre a experiência, revelou em seguida para Frédéric: “é o que gosto das mágicas, acontecem quando menos se espera e quando não se esta olhando”.


O principal eixo da conversa era a questão da falta. Tanto ao se falar em solidão, ao agregar um "sozinho" ao grupo quanto na tentativa de compreender o fenômeno da paixão, no qual as pessoas escolhem se apartar de alguns de seus interesses egoicos para dividirem suas vidas com outro supostamente investido de amor. Esse movimento, em termos psicanalíticos, nada mais é que a iniciativa de oferecer uma parte da falta ao outro. A esse respeito, é válido apresentar o testemunho da “matriarca” presente | sem conta no IMDB | que revela a Hugo acerca de sua relação com o amor: “não gosto de estar sozinha. Perdi o homem da minha vida há 15 anos atrás. É isso, desde então não posso”. E parou aí. Se essa última afirmação sugere que ela não poderia mais amar como um dia amou, na verdade, não sabemos. Os diálogos em torno desta questão retratam o mesmo assunto por pessoas que tiveram experiências diferenciadas. Ademais, algo realmente precioso nos é ofertado como material para reflexão quando as pessoas se dispõem a falar sobre o que viveram com alguém amante ou amado.


O consumo de vinho norteia (ou desnorteia) as conversas entre Frédéric e Hugo, o qual ao ser questionado se tinha ou não um marido, respondeu: “Um marido? Não. As relações estão mortas”. Como num banquete de Platão, inclusive por haver goró envolvido, o anfitrião foi convidado a responder a intrépida questão “o que é o amor?”, e disse o seguinte: “é pensar na outra pessoa, não sei. Querer ver o outro o tempo todo, sonhar os sonhos dele... Dividir a sua vida, estar apaixonado...”. O companheiro interpretou essa fala com base numa ideia de dependência, veja: “estar obsecado pela outra pessoa? Não poder viver sem ela? Precisar ser tocado o tempo todo? Sentir a falta quando não esta contigo? Se arrasar quando não for amado... Com amor ou sem? Estar receoso por perdê-lo... Dependente, triste, ansioso? Não, obrigado! Nunca me apaixonarei”. A primeira fala representa uma suposição de Frédéric e faz referência à formação de um laço afetivo, enquanto a segunda se baseia na ideia de uma inevitável obsessão junto àquele que se ama. Não parecem ideias paradoxais? É possível amar com a aceitação de que se esta envolvido em algo nocivo que lhe fará vivenciar um cárcere junto ao outro eleito? Obsessão e dependência: seria o outro lado da paixão? Ou uma variável inevitável da mesma?

Há uma observação de Frédéric que acredito ser bastante elucidativa: “o amor nos faz sentir mais vivos”. Seria esta uma opinião irrefutável? Não é. Porém suponho ser bastante verdadeira, uma vez que o amor traz por si mesmo um movimento, e baseia-se numa relação afetiva e libidinal tanto autoerótica quanto com o corpo do outro. “Estar vivo” também é uma noção presente no filme em imagens de batimentos cardíacos que aparecem durante as corridas matinais de Frédéric. São comuns os comentários de que a prática de caminhadas e corridas faz bem para o coração, bem como o estar amando o faz. Aludimos assim ao coração físico e ao afetivo ao mesmo tempo, de modo que amar e correr são efeitos da pulsão de vida, assim como a estagnação, a solidão e o silêncio podem ser pensados como um contato mais próximo com a pulsão de morte. Ou você nunca pensou que leitores ávidos e escritores antissociais e malucos correm risco de vida? Humor canastrão à parte, não esta em pauta aqui apenas a oposição entre viver ou “encaixotar”, mas sim a experiência de pulsionar, de encontrar objetos para satisfação de impulsos primitivos, tais como o amor e a fome. Frédéric parecia dar provas de estar, de fato, sentindo-se mais vivo, uma vez que são frequentes as cenas em que ele esta correndo e amando, ou seja, promovendo situações para elevar os batimentos do coração. Nesses momentos, ele demandava a presença de Hugo, convidando-o para correrem juntos bem como para jantares e festas locais. Eram estes convites recebidos com entusiasmo.


Serei obrigado, em nome do bom senso e do valor da pena de Freud desde 1896 a usar uma expressão detestável, só que relevante ao que pretendo expor: “o peixe morre pela boca”. Tudo isso para anunciar que Frédéric estava realmente “mais vivo” no sentido de movimento, pois além de correr e comer, havia espaço para a imersão nas questões do amor. E não do amor pela esposa, mas sim por Hugo. Mas se amor não for a palavra que melhor descreva, qual será? Interesse? Curiosidade? Em termos mais explicativos, é disso que se trata: a presença desse novo amigo era significativa de tal modo que sua ausência era sentida como a dor de um vazio. Desejava-se, constantemente, repetir a experiência de encontro. Para além de corridas e jantares, o que eles faziam? Conversavam. É conversando que a gente se desentende.

A linguagem não produz outra coisa senão suposições de entendimento. Mas se detendo aos moços em questão, aqueles desejados encontros de conversações produziam um moderado mal-estar em Frédéric porque lhe despertavam impulsos de ordem contrária a promessa de matrimônio. O desfile de fantasmas armados já estava em andamento na psique deste homem corredor! Talvez o inquérito a ser feito possa ser formulado assim: você corre de que? Pra que? Ou para quem? Ele, que era muito mais ouvinte do que falante em suas sessões noturnas com Hugo, finalmente, deu sua contribuição efetiva sobre o que é o amor: “a perfeição é a vida, e a perfeição é a morte. Estou pensando que o amor, estar apaixonado... É frágil, duvidoso e doloroso... É um estado de imperfeição que nos faz sentir mais vivos”. Podemos inferir que esta era realmente uma fala autêntica, não apenas uma suposição, porque ao que tudo indica-nos, era proveniente de alguém que estava realmente envolvido nas questões do amor, do desejo e da falta.

Após sua contribuição, Frédéric, ainda que não tenha sido dissuadido de seu testemunho sobre o amor, ouviu mais uma vez um discurso que parecia prestar menos louvor a Eros do que a Tanatos. Hugo comentou: “relacionamentos são uma armadilha que capturam, destroem. A destruição suprema é compartilhar a sua vida”. É curioso observar que era justamente essa escolha supostamente nociva que o anfitrião fizera ao casar-se com Frédérique. Ademais, estava numa extensão dessa vibe, uma vez que sua vida, aos poucos, se tornava também compartilhada com Hugo, numa oposição “distância-aproximada”.


Até então, a presença da esposa, Frédérique, foi pouco mencionada aqui, uma vez que ela parecia estar realmente excluída das principais motivações do marido. Devo ressaltar que aos poucos começa a aparecer o sintoma dele: o álcool. O elevado consumo de bebidas não era nada muito além do que uma saída de compromisso que justificava a impotência, isto é, a não potência de Frédéric para enfrentar um desejo incompatível. E incompatível com o que? É possível que esta aparente incongruência acontecesse nos termos “desejar a esposa e outro homem ao mesmo tempo”, ou, mais precisamente, “encontrar no amigo algo da ordem do desejo que à esposa era suposto faltar”. A decisão por compartilhar a vida com ela fazia com que este recém-inaugurado desejo por Hugo tivesse que ser destruído, ou o próprio casamento seria desfeito. A ideia do amor-livre, para além dos votos matrimoniais, de liberar o cônjuge para “um passeio” desde que ele volte na hora marcada não é compatível aqui, uma vez que se entende o compromisso de alianças no altar como a resolução para a questão da falta. Fala-se em “não ter olhos para mais ninguém” quando se ama. Frédéric, contudo, tinha não apenas olhos, como a escuta atenta e um pênis que junto a Frédérique não funcionava.


O sintoma que será descrito a seguir era uma forma de anunciar publicamente que ele não tinha mais para onde correr. Numa manhã, enquanto descia as escadas sem intenção de fazer barulho, Frédéric torceu o pé direito. Após ter sido acudido pela esposa, ele decidiu-se por ir correr com o amigo ainda que tivesse que sustentar-se numa só perna. Torcer o pé foi o terceiro sintoma emergente, antecedido pela impotência sexual com a esposa e o alcoolismo. Todos eles eram o anúncio de que o exercício do hábito "correr dele e com ele" ou “correr do amigo-desejo e com desejo” já não estava mais apropriado. A inadequação estava colocada em cena. Se aquelas corridas faziam parte de um processo maior de sublimação do anseio por prazer sexual, era como se esse recurso não mais lhe servisse. “Para onde correr com o pé torcido?” pode ser uma metáfora da sentença “o que fazer com um desejo-limite que alcançou a consciência?” Agora ele estava certo de que não adiantava mais correr, ele precisava ser carregado, necessitava da sustentação do outro com vistas a depositar o que sentia no objeto-causa desse desejo.

Ser carregado pelo amigo alude à ideia de que o desejo lhe era insustentável, mas o objeto causa do mesmo poderia ser forte o bastante para prestar-lhe a função temporária de suporte. O sintoma da torção veio apenas anunciar pela via do corpo essa realidade interpretada. Com o pé machucado, Frédéric também estava parcialmente inapto para a atividade sexual com Frédérique, logo, justificava sua ausência nos "deveres de marido". No entanto, o sexo, quando pensado na dimensão do desejo, da fantasia e do êxtase, nada tem de dever, nem mesmo de saciedade, mas sim de um encontro sempre faltante.


Fica-nos portanto a imagem de Frédéric sendo transportado por Hugo em retorno a sua casa, aos olhares dos familiares e de todos aqueles que testemunhavam sua temporária limitação para caminhar. Não há como inferir que se trate de uma história sobre a autodescoberta que perduraria por toda uma nova vida. É mais exato o entendimento de que algo foi experienciado nas questões do amor, e que, absolutamente, com intrepidez e medo, se ousou vivê-lo. Próximo à piscina na casa de Hugo estava escrito: “é o melhor tempo para iluminar as estrelas” e penso que, honestamente, essa frase também nos autoriza a lançar luz sobre partes desconhecidas da mente presente nos filmes. O título é “O homem da minha vida”, mas da vida de quem? O rei de copas apareceu, e seria ele esse homem? Como num jogo de cartas, temos Frédéric, Frédérique e Hugo, dois dentre três será o homem da vida, mas à quem se destina recebê-lo é o que não sabemos. Tão somente nos é permitido supor que um homem emerge como um fantasma armado para promover prazer e causar algum formigamento para aqueles que não gostam de estar sozinhos.

Que o inverno não tarde,

Renato Oliveira

10.1.15

beethoven e a mulher

Qual a melodia tem a dor? E o horror, se conjuga com o que? Dor e horror não apenas são significantes que rimam como também podem ser dois fios de barbante a se entrelaçarem com um terceiro, o amor. Tudo isso seria muito lindo de se pensar se não fosse a sensação de desgosto com louvor que o filme de hoje me provocou. Nas primeiras resenhas escritas aqui, eu comentava mais dos meus sentimentos contratransferenciais para com os trabalhos escolhidos para interpretação. Com o tempo, contudo, não sei por que abandonei essa prática, talvez por querer alcançar a impessoalidade dos “acadêmicos de cadimia”, ou porque aspirava uma cadeira no jardim de Cannes ou um chá no Planalto. O fato, ainda assim, é que mesmo após os anos em Psicologia somados às experiências de estrada eu não tenho nada muito mais profundo do que iniciar-me dizendo que “somos todos doentes”.

Ah sim, sobre o filme de hoje, “A professora de piano” (2001), devo já declarar que é uma obra psicanalítica por natureza, ou melhor, vou mais além, é o suprassumo analítico, pois todos os principais temas de causa freudiana estão ali: desejo de morte, o masoquismo, a fusão e desfusão das pulsões, a relação entre mãe e filha entre outros. E como disse o cidadão Sisek, “filmes nos ensinam a desejar”, logo, não é por menos que fui assaltado por um anseio e necessidade de me voltar a todos os artigos de Freud um dia lidos e amados. Em especial: “O problema econômico do masoquismo” (1924) e “O fetichismo” (1927).

Assim, quero dizer que Michael Haneke desvelou-me nessa singular experiência a recordação de que o Inconsciente funciona. E não digo funcionar no sentido de "dar certo", na verdade, ele causa mesmo é um embaraço de fios, formando nós, refiro-me, portanto, a seu funcionamento, ao movimento contínuo de seus conteúdos que querem alcançar a consciência. Há pessoas que vão ao analista e pedem a ele que as auxilie nesse processo, há aquelas que, não obstante a isso, também assistem a determinados filmes e o resultado não é nada mais poético do que um “salve-se quem puder!”.


Sobre a personagem em questão, Erika Kohut | Isabelle Huppert | pode ser considerada por alguns uma deusa, uma louca e uma feiticeira, mas prefiro deter-me ao fato de que ela era uma pianista de prestígio, cujo reconhecimento a tornava objeto do interesse de pais que almejavam um futuro de “filho pianista” a um de sua prole. Vemos, inicialmente, fragmentos de algumas aulas seguidos por um retorno ao lar. Ela vivia com sua mãe sem nome | Annie Girardot |, de modo que lhe atribuiremos apenas o significante “mãe”, a qual nos é apresentada como aquela que demanda um saber pleno acerca do que a filha havia feito nas últimas três horas. O atraso era sentido como uma afronta, de maneira que Erika era convidada a dar provas de que não utilizara esse tempo inutilmente.

A aparência da situação nada mais é que um retrato de “preocupação de mãe” só que exacerbado e sentido com certo desgosto uma vez que estamos diante de filha já crescida. Atribuímos à maturidade o poder de se pensar por si próprio, e na literatura psicanalítica, mais detidamente, à capacidade de responsabilização por aquilo que se deseja. No entanto, na vida e nos filmes encontramos pessoas e situações contra as regras. Ora, tudo isso para fazer menção à briga entre Erika e sua mãe, o embate corporal como consequência de uma inviabilidade de se entender via fala. Sim, dessas em que se pega pelos cabelos, de maneira que ao término, entre prantos, sua mãe lhe diz: "fiquei com um buraco aqui e outro aqui". A reconciliação entre ambas foi seguida de declarações de amor e remete a experiências de querer “ficar de bem” daquela estimada amiga após uma discussão sem importância.

Além da considerável semelhança física, outros fatos ajudam-nos a formar a imagem de uma fusão entre mãe e filha: os olhares perscrutadores de ambas; a presença delas nos mesmos ambientes e a própria simetria corporal. Elas pareciam constituir unidade.


Essa ideia acima se dialoga com o momento em que se dirigiam a um concerto e ao tomar um elevador são seguidas por um jovem que tenta entrar, iniciativa esta sentida como uma penetração forçada, uma vez que elas não inviabilizam o fechamento das portas, como a dizer-lhe: “perdeu, campeão”. Só que ele sobe as escadas com agilidade, dando provas de ser capaz de chegar primeiro para apresentar-se a elas quando as portas do elevador se abrissem. Walter Klemmer | Benoît Magimel | se faz conhecido por se tratar de um aspirante ao sucesso na carreira de pianista, ávido por demonstrar sua admiração pelo trabalho de Erika. No evento, após a apresentação da veterana mestra, ele não se inibe ao mostrar-lhe todo o seu reconhecimento em palavras que, se não levadas ao vento, foram tão somente recebidas com um “obrigado”.


O jovem, entretanto, não se sentiu coagido em sua exibição posterior ao deslumbrante desempenho de Erika. Sua humildade fora expressa aos ouvintes seguida de uma articulação de dedos notável e inspiradora. Enquanto o ouvia, é como se nos fosse dada a oportunidade de ler o rosto da professora, que se encontrava “sonhando com aquilo que não tem, enchendo-se do pior e do melhor”. Penso que enquanto o som do piano ecoava, ela estava em contato com suas fantasias, de modo a conduzir Walter a elas, dando-lhe um lugar. Essa figura do masculino, renegada a ter um espaço no elevador, foi de outro modo, admitida na vida mental, e seria articulada ao desejo, a voracidade e ao inconfessável.


Walter militou por um lugar junto à veterana e foi aprovado por uma comissão selecionadora dos principais talentos. O reconhecimento de que ele portava um verdadeiro dom era praticamente unânime, se não fosse o discurso de Erika que o acusava de ser velho para a carreira profissional. Ainda assim, ele foi aceito “por maioria de votos” e passou a ter aulas regulares com ela. A sua rigidez corpórea, constância nas expressões faciais e indumentária em cores pasteis são elementos que ajudam-nos a criar a imagem de uma mulher sem apreço pelas questões amorosas, bem como traz uma alusão a imagem de frigidez. A correspondência ocular entre Erika e Walter, bem como a atmosfera gélida produzida pela falta de humor para com os elogios ofertados por ele são fatores nos levam a supor a existência de uma tensão no encontro entre ambos. Em consequência, pode-se pensar que o êxtase a se obter pela atividade sexual poderia aplacar esse distanciamento, quando, na realidade, é de outra coisa que se trata. 

Nem frigidez, nem “vamos fazer do jeito normal”, mas sim o retrato de uma não complementaridade entre os sexos. Voltamos aqui a uma das “coisas freudianas” abordadas por Lacan para nos referirmos à noção de que o masculino não vem para suplantar a ausência de sexo na mulher. Ou seja, a demanda de Erika não era por um amor, uma casa, um pênis, um filho e um todo. Não se percebe a existência de uma mulher tomada pela ilusão de poder ser completa e suficientemente toda. É uma indiferença quanto ao outro sexo como suplente da falta que esta presente desde o início. Ela se declarava para Walter com as palavras: "eu não tenho sentimentos, melhor se convencer disso". Só que essa indiferença não anula um interesse, ainda que isso pareça contraditório. Penso que a relação com o sexo se mostra, primeiramente, numa curiosidade por observá-lo, por imaginar o que acontece no encontro de um casal.

Não é por menos que a pornografia lhe era útil. Assim, basta observar a forma como Erika assistia a cenas de sexo para notar que não parecia se tratar de uma experiência de incorporação, ou seja, ela não extraía prazer físico, nem mesmo se estimulava diante das cenas. Tudo se passava e, a princípio, se resumia, na contemplação do masculino, seja por meio dos vídeos pornôs, seja pela sensação olfativa decorrente de lenços usados para absorver esperma, os quais foram deixados por homens que estiveram naquela cabine. É como se em relação ao conceito de prazer sexual extraído do corpo, a predileção da professora fosse o distanciamento e ceticismo próprios de um pesquisador científico impossibilitado de envolvimento com sua amostra. Erika em relação a Walter bem como sua mãe junto a um senhor que a abordava no concerto retratam a existência de um desdém para com as iniciativas de aproximação masculinas. O contato com homens era-lhes admissível apenas com uma distância estabelecida. Vale mencionar que a impessoalidade com que o aluno foi tratado por Erika remete a rejeição que a consciência faz ao desejo inconsciente. Este, por sua vez, subverte a condição racional do homem, traz certo abalo, leva-o a "não querer saber disso". A neurose é um constante "não querer-saber", um movimento de desistência, de desligamento, de desencorajamento. No filme, isso é notável, como um desinteresse ao exercício da sexualidade genital.

Só que na perspectiva analítica que aqui tratamos, rejeição não significa abandono. A sexualidade da personagem não era inexistente, de modo que notamos um duplo movimento, em que Walter enquanto objeto é tratado com descaso e ao mesmo tempo é perseguido, em outras palavras: “não se aproxime, mas eu quero te ver”. Ela segue o aluno e mostra-se afoita por saber dele. Se por um lado, não nos parece haver desejo sexual genital, após conhecê-lo Erika revela interesse pelo desejo de incorporação. Ver é uma forma de incorporar, uma vez que as imagens podem ser introjetadas e ganhar “lugar” na vida psíquica. Ademais, essa predisposição a tomar parte do masculino para si foi reforçada pelo interesse de Walter em mostrar-se como oferta disponível, acessível ao “interesse de pesquisa” de Erika. Quando ele a segue até o banheiro e a agarra, temos a impressão de que se seguirá uma relação sexual nos padrões conhecidos, ainda que em setting não convencional: estimulação, penetração, clímax e orgasmo são palavras que formam, em sequência, a ideia que nos surge. Erika, contudo, o recebe e o rejeita ao mesmo tempo para logo delimitar a regra de que seria dada continuidade àquela atividade somente se Walter se mantivesse apto para ofertar-lhe o pênis às suas mãos e lábios apenas, nada além disso. Ela almejava o pleno controle da situação. Nessa circunstância, anuncia que ele devia manter seu pênis ereto para que pudesse contemplá-lo e num determinado momento, se recusa-se a prosseguir com a estimulação, a fim de que ele não ejaculasse. Em outros termos, para mantê-lo em falta.

Qual tipo de homem toparia um jogo assim? “A sua atitude é completamente perversa” ele lhe disse. A ordem dela "quero que fique assim" (ereto) pode ser interpretada como uma condição para que o objeto fosse visto e incorporado. Ela buscava se ancorar em alguma coisa ao mesmo tempo em que rejeitava ser penetrada e entregar-lhe, assim, parte do domínio da situação. A atitude perversa era uma conduta dupla, que consistia em deixar o outro "na vontade" para manutenção da falta e ao mesmo tempo oferecer-se como provocadora de prazer, para seus interesses egoicos de introjeção. Ela faz advir o pênis ereto, para em seguida desmerecê-lo. Este é um protótipo da relação do neurótico com o desejo, em que se aproxima do objeto para em seguida negá-lo com sentimentos de rejeição e desprezo.

Essa ambiguidade é reforçada por uma carta direcionada a Walter em que ela oficializa as regras do jogo, demandando-lhe que a coloque como objeto, que a agrida, que a impeça de reagir ao ato, submetendo-a a uma condição de serva. Caberia a ele fazer-se ou não resposta a esse pedido. Não há como não se referir a noção de uma repulsa a primazia genital de que Freud falava, de modo que, a penetração é rejeitada enquanto prática para obtenção de prazer. A noção de sexo quando introjetada como algo imoral pode reforçar, ou apenas ser complementar à fantasia da mãe pura, que consentiu à atividade sexual uma única vez para fins de gravidez.

Ademais, Freud deixou-nos o legado em torno do masoquismo a partir do esclarecimento de funções da dor na vida mental. Assim, as fantasias de humilhação podem ser uma via para se aplacar um sentimento de culpa pelo exercício da sexualidade. A dor física era sentida por Erika como experiência de alívio. É como se ela se culpabilizasse por seus desejos eróticos e o ato masoquista fosse a solução para este problema; como se vivesse como “a filha ideal” para amenizar sua culpa para com a mãe pelos desejos sexuais fantasiados. Ao mesmo tempo, queria se ver livre desta mãe onisciente, castigá-la, portanto, infligir dor a essa outra parte dela mesma, e Walter seria utilizado para este propósito. Seria uma tentativa de Erika para livrar-se de si mesma e escapar a sua condenação? Quem a acusaria? Quem se levanta contra o neurótico para acusá-lo em atos de dominação e fazê-lo, portanto, cativo a um “não se sabe o que”? 


Haneke concede-nos a oportunidade de pensar quanto a que tipo de exercício sexual se instaura a noção de horror, e o porquê disso. O prazer na dor e a dor no prazer são jogos de palavras que não se esgotam por eles mesmos. Extrair um sentido a partir deles é uma tarefa que convoca o nosso masoquismo a entrar a jogo, de modo a suportarmos a aflição de se entender um caso, enquanto um fatídico não-saber continua a ser produzido. E o piano é o de menos.

Renato Oliveira