15.6.15

pitiful não é

Tenho vontade de jogar um filtro nesse texto para transformá-lo em uma experiência estética. Essa intencionalidade parece exacerbada já numa primeira impressão, como a se querer demais, sugere presunção e uma ideia elevada de si mesmo. Nada disso e tudo isso não é, uma vez que todo encontro com um filme e com a linguagem a ser desdobrada a partir dele pode ser concebido como experiência estética. E se estas serão bonitas ou não, será uma conclusão posterior de acordo com a realidade psíquica de cada um. A verdade é que tenho algo a comentar sobre a beleza de tempos difíceis. O nome do filme é Biutiful (2010), assim escrito propositalmente. Os créditos pelo roteiro e direção são de Alejandro González Iñárritu, e segundo o IMDB, as fias Nícolás Giacobone e Armando Bo também estiveram na parada de adaptação para as telas.

Há um tempo comentei que raramente mencionava sobre sentimentos contratransferenciais sentidos conforme revia os filmes para escrever as análises. Não é preciso empregar o termo “contratransferenciais”, uma vez que, diferente de uma relação analista e analisante, com filmes não despertamos quaisquer sentimentos na tela, a via é de mão única. Por mais irrelevante que este esclarecimento pareça, quero mencionar que a sentença “é tanto sofrimento” pode ser que sintetize o que eu sentia logo na primeira meia hora de filme, ao revê-lo pela quarta vez. Tudo parece tão realista e “anti-hollywoodiano” que por instantes me perguntei se não estava me concedendo uma experiência com pegada masoquista. Mas não. Aprendi que é próprio da nossa evolução pessoal com os filmes experimentar determinadas doses fílmicas seguidas de dor ou desgosto. Para além disso, perguntava-me por que não selecionar filmes mais otimistas para escrever aqui, daqueles que a interpretação possa ser tida como um tipo de expressão inédita. Tudo ilusão. Se por um lado, é verdadeiro que a vaidade do fulano que vos escreve esta sempre em pauta, é possível reconhecer que mais que escrever e ampliar “um grande conto”, vale compartilhar uma experiência. A aposta é que ao fazê-lo, isso possa fazer sentido a pessoas com vivências e opiniões diferentes das minhas. E isso é, a meu ver, uma iniciativa honesta.


Após a cena inicial em que ouvimos diálogos em torno de um anel de herança familiar, é apresentada a conversa entre dois homens num campo coberto por neve, onde um deles revela que aquele lugar era um nada, para em seguida emitir sons de água salgada e vento. E se a princípio o que temos é um “nada”, nos é retratado ao decorrer do filme uma realidade completamente distinta dessa paisagem inicial desabitada. Como se do Éden o sujeito estivesse expulso, para viver uma vida civilizatória contemporânea e seus desafios. O cotidiano de Uxbal | Javier Bardem | é a principal figura em questão, que se articula com os mundos a sua volta. Se for possível falar em pai-solteiro, aqui o temos com o dever de conceder uma vida adequada aos dois filhos bem como dar trabalho a imigrantes chineses.


Para analisar este filme, creio ser válido o emprego do termo impressões de realidades. Tudo no plural, propositalmente. E uma dentre as mais notórias realidades vistas é a relação diária do homem com o trabalho e a necessidade de sobrevivência. Num jantar com os filhos Mateo | Guillhermo Estrella | e Ana | Hanaa Bouchaib | eles revelam predileção por alimentos que gostariam de comer enquanto lhes era preparado peixes fritos. Ao servir-lhes cereais, leite e açúcar, Uxbal simula entregar-lhes o cardápio desejado, e propicia-lhes assim a experiência de uma realidade que não aquela condição-limítrofe. Penso ser importante destacar essa cena justamente porque é de uma sobreposição de realidades que o filme aborda, sejam físicas ou imaginárias. Dentre tais, a vida humana – essa que te permite laborar diariamente e tomar vinho – com uma realidade espiritual a priori desconhecida. E nessa montagem de mundos, incluímos também a realidade do Sujeito do Inconsciente. E como blocos de Lego, é possível encaixar uma realidade sobre a outra de forma a aludir a algo significativo sobre o ser humano. Portanto, transformar imaginariamente cereais em outra coisa é um ato que sobrepõe realidades e nos faz pensar num fenômeno da ilusão colocado em cena. Este, por sua vez, nada mais é do que crer no desconhecido, supor a existência de outra realidade. Em psicanálise, esse assunto vai longe a partir do inquérito quanto ao que é a realidade do sujeito e de que modo o analista é capaz de concebê-la.


A sobreposição de mundos é um tema que se articula a partir da descoberta de Uxbal de que estava com câncer de próstata em estágio avançado. O nome da doença, propriamente, é mencionado apenas na metade do filme, enquanto sua descoberta é um dos primeiros assuntos em questão. Há uma situação de angústia, seja pela evidência desse saber médico, seja pela decisão dele em ocultar esse fato das pessoas mais próximas. É possível que alguns cinéfilos sintetizem a experiência com Biutiful como “um filme sobre a morte” e ademais, sobre o processo de morrer. A isso poderia ser dado o nome de degenerescência, pois é o que acontece no corpo com a evolução da doença. Contudo, já que de algum modo me comprazo em questionar (a mim mesmo, inclusive), não creio que seja de uma degenerescência que se trate, uma vez que a morte enquanto processo será mostrada numa continuidade de romper e estabelecer laços. Em linguagem mais direta e acessível, é como se Uxbal determinasse a si o dever de cuidar da vida “aqui” antes de alcançar um plano superior. O que não significa que ele tenha aceitado a morte.


A ocasião não é oportuna para a discussão sobre a aceitação da morte como um fato irrevogável, uma vez que é de um processo que se trata a partir das vivências do protagonista. O roteiro retrata a sobreposição da vida de vigília com a visão de que há um plano superior, o qual acontece enquanto as pessoas estão vivas, sendo possível acessá-lo. A espiritualidade esta presente como tema relevante desde o início, quando Uxbal visita uma família que perdeu três filhos com vistas a promover a passagem da alma de um dos meninos à eternidade, em dar condições para que pudesse realizar esse trajeto. Este desafio aceito por ele talvez o colocasse na condição de um “homem espiritualizado” em contato com uma dimensão maior que a realidade comum, física e temporal. Contudo, o real desafio seria promover essa transição a si próprio, ou seja, preparar-se para a sua morte, aceitá-la como um fato e além disso extrair algum tipo de prazer do período que lhe restava, bem como, talvez, obter um significado para esta realidade de coisas. Pessoas com sabedoria possivelmente dirão que é mais fácil guiar do que tornar-se o guia de si mesmo.

Notem que a articulação entre psicanálise e espiritualidade é um tema que embora não seja novo, é sempre de difícil apreensão. As razões para tanto, não sei. Tão somente me chama a atenção o fato de que o discurso analítico, bem como a intelectualidade como um todo, parecem ser produtores de um ceticismo. O próprio exercício de se pensar sobre o que se pensa faz com que crenças e padrões religiosos sejam questionados. O ateísmo em psicanalistas foi uma característica que sempre me chamou a atenção.


O processo de morrer anuncia, como fator principal, a certeza de que se esta vivo, por mais estranha ou óbvia que essa sentença pareça. A vida cotidiana é apresentada no filme como uma ocasião de passagem, um momento em que é preciso conciliar diferentes exigências, de modo que a dificuldade esta em atendê-las. Alguns paradoxos e exigências antagônicas são apresentados, farei menção a elas. Uxbal, como comentado, concedia trabalho a imigrantes, e tinha que obter lucro com a venda de produtos provenientes de uma pequena fábrica a serem vendidos em regiões populares. Contudo, os melhores locais para oferecê-los eram proibidos por lei. Os vendedores arriscavam anunciá-los, ainda que ao risco de serem presos, ou seja: a regra versus a necessidade de sobrevivência financeira. Havia uma oposição também entre o divórcio colocado em cena com um desejo de reconciliação, esta é a impressão que temos da relação entre o protagonista e Marambra | Maricel Álvarez | sua ex-esposa. Um casamento que não deu certo e um desejo de estar juntos novamente, bem como a possível inviabilidade disso. Sem a guarda dos filhos e com diagnóstico de bipolaridade, ela buscava conciliar o desejo de estar próxima de Uxbal e dos filhos com a recusa dele. Além disso, era-lhe desafiador conciliar a iniciativa em ser mãe com o desejo de viver uma vida de solteira – uma oposição aparente que inviabiliza o exercício simultâneo de ambos os papeis. Último exemplo. Um dos sócios de Uxbal vivia um romance homossexual, como um exercício à parte de sua vida com a esposa e à família.

Todavia, a principal demanda de conciliação é notória a partir do desejo em querer viver versus um saber acerca da proximidade da morte. Um efeito disso é o sujeito ter que organizar as circunstâncias prevendo como será a vida em sua ausência. 

É possível ilustrar estes antagonismos com o referencial freudiano. Devo lembrá-los de que o tema das exigências opostas esta presente nas clássicas elaborações de Freud. É certo que alguns temas da "psicanálise da neurose do sujeito" aludem a questões maiores, não no sentido de mais relevantes, mas sim de maior proporção. Exemplifico essa ideia com a necessidade de conciliar diferentes exigências, noção elucidada sistematicamente em "O ego e o Id" (1923), que aborda as dificuldades do ego em lidar com as instâncias id e superego que exigem tipos peculiares de satisfações. Este modelo intrapsíquico de posição frente ao pedido de diferentes “senhores” favorece o entendimento do lugar do sujeito frente aos desafios da vida, como nos exemplos mencionados.

Conciliar o desejo de viver com o medo da morte e sua inevitabilidade alude também à teoria das pulsões. Sabe-se que há interpretações do conceito de pulsão de morte, duas devem ser citadas: há os que a concebem como uma força motriz, como algo proveniente do sujeito que o leva a querer voltar ao estado inanimado do qual surgiu; e outro raciocínio que a interpreta como a presença de um medo do retorno a este estado.


Com vistas a concluir, devo me deter no título do filme. Onde esta a beleza nisso tudo, na história de alguém que morrerá? O que há de bonito na sobreposição dessas realidades física, espiritual e psíquica? Estes questionamentos acerca da presença da morte em vida se dialogam com relação de Uxbal com o pai falecido. A beleza de um pai morto, que na realidade, não se conheceu. Mas que se faz conhecido por uma história narrada, transmitida intergeracionalmente no momento em que Uxbal, ao mostrar fotografias do avô aos filhos, relata a história de vida que o levou à morte: “ele não partiu, fugiu. Porque o seu avô não se calava. E, naquela época, Franco perseguia e matava quem não se calava. Aos 20 anos ele fugiu da Espanha para não ser morto e... Morreu duas semanas depois no México, de pneumonia”. Há uma cena em que o corpo de seu pai é retirado do túmulo, para liberação do espaço físico, Uxbal pede para vê-lo e o contempla com admiração, afeto e curiosidade. Uma imagem em degenerescência, que poderia evocar horror, a ele era ocasião de prestígio. Desembalsamá-lo era como estar novamente próximo a este pai, uma experiência não somente afetiva como também estética. A beleza de tempos difíceis.

O filme é uma abordagem sobre a morte propícia a levar-nos a reflexão se há um propósito maior no período de vida de cada um. Nesse entendimento, é como se a vida individual possuísse uma finalidade coletiva, uma missão ao fato das pessoas existirem nos lugares em que estão – sendo este um pensamento para além de Freud. No entanto, é propriamente freudiano conceber que se deve viver com a certeza da finitude. O processo de morrer aceito como um reconhecimento do que se quer fazer em vida, em outros termos, uma relação direta com o desejo, com o corpo e com vivências de satisfação. Parece haver uma intencionalidade nobre em se fazer um desenho sobre o sentido de estarmos aqui; em sobrepor realidades e revelar o entendimento de que a articulação entre experiências boas e más, felizes e tristes é bonita a seu modo. A experiência de vida como um todo é Biutiful, propositalmente (e não pitiful: lamentável, em inglês), pois será percebida de acordo com a forma como for apreendida pelos sentidos, de maneira que a grafia esta correta.

Renato Oliveira

10.5.15

como limão pra caipirinha

A presente resenha baseia-se numa espécie de terapia de casal via discurso fílmico. Assisti-lo foi como ouvir duas pessoas falarem sobre a experiência de desencontros na vida. Se levarmos muito a sério a palavra “desencontro” entenderemos que o prefixo esta aí apenas para fazer menção a um encontro que não deu certo. Enquanto eu revia o filme When Harry met Sally (1989) já com a intenção de analisá-lo, tive a impressão de haver muito pouco “de psicanalítico” nesse trabalho, uma vez que os diálogos pareciam-me inviáveis de serem transpostos aqui em cunho interpretativo, de forma a tornar isso de algum modo interessante. Antes que eu me dissuadisse da ideia, justificando-me com o argumento desprezível de que era devido à “indústria hollywoodiana oitentista” não produzir senão filmes para entretenimento, resolvi analisar a minha contratransferência primeiro. Assim, minha conclusão foi no sentido de fazer da oportunidade em questão a ocasião única para um rabisco discursivo sobre o amor, com vistas a se tentar extrair alguma coisa que valide a experiência de encontro do filme com a escrita. 

As traduções de títulos de filmes parecem que são capazes de revelar tudo o que uma pessoa pensa a respeito deles. Aqui no Brasil é dito que Harry | Billy Crystal | e Sally | Meg Ryan | foram “feitos um para o outro”. Como não se lembrar da música de Fabio Jr. nessas horas em sua alusão a elementos que se tornariam mais tarde imemoriais na psicanálise: as metades da laranja, carne e unha e almas gêmeas. É sempre de dois elementos postos em união que se trata. E não somente disso, mas de uma complementaridade ente eles. Numa reflexão sobre a psicanálise hoje, creio que não devemos conceber essas formas de linguagem como inferiores àquelas encontradas nos artigos de Academia, uma vez que elas também aludem às noções que os grandes mestres deixaram. Sendo assim, esta ocasião é destinada às pessoas com alguns minutos livres para “ler” a palavra de Lacan falada no retorno a Freud em articulação com esta comédia romântica.


O casal supracitado se conheceu durante uma viagem até Nova York cuja promessa, para ela, era “a minha vida começará a dar certo”. Não apenas à estudantil em questão, mas sim, de forma quase generalizada, é comum no ocidente, aos 20 anos, acreditarmos que é o momento certo para firmar os alicerces daquilo que se tornará, tempos depois, uma vida significativamente realizada. E nesse entendimento, sem chamá-lo de ilusão, o casamento – quando ainda não feito – já é previamente listado como um dos objetivos principais depois do dinheiro. A conversa entre eles, a princípio refere-se a algumas noções que saltariam aos olhos de todo aquele que leu o vol. I da Traumdeutung [A Interpretação dos sonhos] um dia. A primeira delas é o que eu considero a aceitação da verdade de que “tenho um lado sombrio, como qualquer um”.  A segunda, que acredito ser mais discutível é que “nenhum homem pode ser amigo de uma mulher que ache bonita”. São duas frases que serviriam bem como citações de caminhão, pois são esclarecedoras àqueles que têm a pretensão em firmar algum relacionamento afetivo. Ora, é a aceitação deste sombrio do outro, bem como de que as “amigas” dele ou dela te farão em algum momento sentir ciúme ou pelo menos questionar a noção de posse de objeto.


Em um primeiro tempo, o estilo de discurso entre os dois jovens tem um tom inquisitivo, como se “brigassem” enquanto conversavam, ou como se fosse uma disputa de forças entre colegiais. A imagem retratada é a de “cabeças opostas”, de uma amizade improvável entre seres que supostamente não foram feitos para estar juntos. Em síntese, o encontro de Harry e Sally mostrará as diferentes etapas da vida, as conversas sobre amantes eleitos por eles e os infortúnios dessas alianças. A narrativa do filme é intercalada com depoimentos de casais idosos que contam como se conheceram. São testemunhos baseados na ideia de que "o amor pode dar certo", e que os relacionamentos conjugais subsistem a despeito do tempo e das mudanças que as pessoas enfrentam com o passar dos anos. 

Duas observações sobre o roteiro parecem ser o suficiente como eixos de análise, sobre os quais pretendo me deter. São estas: o recurso do humor é utilizado para apresentar a situação de pessoas frente ao perigo de ficarem sozinhas; o laço do casamento é colocado em pauta como doador de um sentido de felicidade. 


Ainda que nos dias de hoje seja aceita com menor censura a decisão de algumas pessoas em questionarem a formação de famílias como sentido exclusivo da vida, a ideia de não se casar ainda é tida mais como uma “falta de alternativa” do que como escolha. O “sonho americano” de em algum lugar haver um outro que supostamente acabe com a solidão do indivíduo, é retratado no filme por meio da busca de Sally e Harry em fazer um casamento ter êxito. Eles tinham este objetivo comum, elegeram objetos de amor para tanto, e foi quando se frustraram nessa direção que vieram a se reencontrar. Foi quando passaram a compartilhar as experiências vividas e um laço de amizade se estabeleceu a partir de então.

Basta ler o título “feitos um para o outro” para entender a jogada de que dois elementos avulsos podem se dar melhor se unidos. Assimilamos essa noção a partir da imagem de duas coisas que juntas se completam e passam a formar uma (mecanismo de fusão), e somos levados a crer que isso acontece em um encontro sentimental cuja satisfação mútua no sexo esta envolvida. O compartilhamento de vivências entre Sally e Harry, contudo, formou a regra de que sexo era um terceiro excluído entre eles. A experiência de não terem um objeto destinado ao amor sexual era o fator principal que deu o alicerce a amizade. Seja para falar sobre o antigo amado que se foi, seja para mudar de perspectiva, estavam ali, um pelo outro. Portanto, é de uma ausência que aqui faço menção. Ora, a ausência de um cônjuge suposto ser aquele que resolveria o problema da solidão.


Apenas um pouco de identificação com os protagonistas é o suficiente para se perceber que o roteiro apresenta a condição de homens e mulheres como seres marcados por uma falta que se resolveria no casamento. Existe uma esperança de completude no amor, de que há um eleito e junto ao qual não se sentirá a falta experienciada no tempo em que se esteve sozinho. Nesse entendimento, nada somos senão a metade, e temos, portanto, a missão de procurar o resto, a parte faltante. Observem que a própria linguagem é bastante esclarecedora: é mais comum a fala “estou solteiro” do que “sou solteiro”. Isso revela a intenção de muitos em superar esse status bem como permite-nos a inferência de que não são poucas as pessoas que se sentem desconfortáveis em permanecer nele por muito tempo.

Sobre o segundo eixo – laço no casamento >>> sentido de felicidade – a ideia é bem autoexplicativa, uma vez que casamento é motivo de festa. Quando traduzido em termos psicanalíticos, seria a celebração de que o problema da falta-a-ser foi finalmente resolvido. Além disso, “uma só carne”, dá para ver que a união conjugal é firmada na noção bíblica como a resolução efetiva ao problema da falta.


Essas duas noções acima, quando articuladas com o fato de que Harry e Sally tornaram-se amigos ao compartilharem a experiência de separação alude inevitavelmente à questão da falta do sujeito que de resolvida, não tem nada. Vale confrontar um pouco daquilo que já foi falado em psicanálise sobre um todo que inexiste com os significantes que o sujeito traz em análise acerca de sua crença de haver uma completude no amor. 

É de discursos que se trata. Todo e qualquer desejo é o anúncio de que algo esta faltando. Lembrem-se das “primeiras histéricas” e verão que a descoberta do inconsciente trouxe tanto o discurso do sujeito como um ser que esta numa relação com um objeto de amor que lhe falta quanto à procura por tomá-lo para si, para fazer este encontro dar certo. 

Com base no encontro de Harry com Sally, é possível inferir que descobrir a presença da falta após um divórcio pode ter exatamente a função de convidar o sujeito a falar mais daquilo que o fez crer em uma completude, de maneira que as suas ilusões iniciais podem ser trocadas por novas formas de entendimento sobre o amor.  


Os testemunhos de casais idosos representam diferentes nuances de histórias amorosas, que em nossa linguagem a chamaríamos de “encontros de faltas”, isto é, a admissão de que não se é todo, e de que unidos é possível criar algo a partir disso. Não penso que o casamento que se mantém por muitos anos seja no filme retratado em alusão a alguma coisa que se perde, mas sim pautado na noção daquilo que fica. Não a "paixão juvenil perdida”, mas sim a revelação de que a falta persiste após a união de duas pessoas. Creio que a beleza suposta existir no amor esteja aí. A falta é como que a presença de uma ausência que se mantém em qualquer relação humana. O que difere uniões que dão certo e levam o casal para o “sofá do testemunho” daquelas que não dão, é aquilo que cada um fará com a sua falta. Ora, é de uma falta posterior que faço menção, aquela que se desvela após a certeza de que se estaria completo junto ao outro amado e eleito. Suportá-la, descobrir outros interesses frente a isso e amar o objeto desinvestido das ilusões iniciais é o desafio da vida. O que o discurso da psicanálise fez ao mostrar a divisão do sujeito, não foi apenas desconstruir a ideia de “um feito para o outro”, mas sim apresentar a verdade de sujeitos desejantes que fazem uma escolha em alguma direção, podendo ou não suportar o sombrio que existe no outro. A ideia de “sujeitos completos” pode ser ilustrada como a ilusão do final feliz cujo cinema hollywoodiano insistiu em mostrar. Ao desconstruir essa felicidade insipiente é possível entender os encontros amorosos como experiências faltantes, nos quais cada um é convidado a lidar com a desilusão decorrente da descoberta daquilo que o outro não é capaz de oferecer.

O diretor Rob Reiner joga com a diferença entre as singularidades de Harry e Sally e com a notória incompatibilidade entre ambos para levar-nos a pensar se a diferença seria ou não uma ocasião para o amor. Quem poderá formular isso em formato de questão e dar uma resposta definitiva? Contudo, se testemunhamos a ideia de que a completude não existe, nada mais seria, senão ilusão, crer num tipo de pessoa certa para cada ser faltante do mundo. Nessa matemática, é certo que dois não formam um, e exatamente por isso que a amizade de pessoas opostas, como Sally e Harry não poderia ser mais provável e elucidativa. 

Felicidades,
Renato Oliveira