6.9.16

o casamento de Freud com Marilyn

Eles são lembrados. Para dar ainda mais ênfase: foram eternizados. Ele por falar demais e ela por fazer mistério. Enquanto o primeiro esta longe de ser padrão capa de revista, ela é o espetáculo estético por excelência. Se ele abriu as cacholas da mente humana, ela desvelou o seu corpo, e ao fazê-lo, mais do que mostrá-lo, anunciou a si mesma enquanto enigma. A referência é a Freud e Marilyn Monroe respectivamente. Parece oportuno reunir esses dois nomes numa resenha para que ela seja analisada segundo o legado deixado por ele, por que não? 

Muito já se disse sobre Marilyn, uma das mais biografadas da História. Parte da “geração y” nem sequer sabe que ela foi atriz de cinema. Entre o meio analítico, pode ser curioso ressaltar que ela fez análise por anos. Aí já se tem duas posições: a de falante e a de suposto senhor do saber. Freud sabia algo das mulheres? Ele começou com elas, mas é muito lembrado por aquilo que delas não sabia, já que um dia perguntou: “o que quer a mulher?” Esta questão é de interesse histórico e cabe ampliá-la em ressonância ao invés de achar uma resposta que a conclua. É certo que Freud detinha sim um saber acerca do feminino, não só no que tange a questão sintomática (seu principal Oscar), mas principalmente a dimensão do desejo. Esta lá em “O Narcisismo” para ser aceito ou refutado o pressuposto de que a elas é maior o desejo de amar do que de serem amadas. Sua vivência clínica o levou a este raciocínio, bem como em sua produção técnica denominou esta população de “castrada”, o que o faz ser repudiado até hoje entre aqueles (especialmente aquelas) que vêem um sentido pejorativo nesta acepção. 


A verdade é que os anos 30 chegaram e um mal-estar ainda estava em cena: Freud admitia um limite no saber quanto à feminilidade em si e mandou as pessoas se virarem com os poetas. Se há um saber sobre a feminilidade, quem poderá anunciá-lo serão as poetas, bem como as caminhoneiras, secretárias, atrizes, entre outras. Sem exaltar em demasiado o trono de “lacanzão”, hoje sabemos que o ponto a que Freud possivelmente teria chego é o de que as mulheres não se reúnem sobre um Universal, a feminilidade não existe enquanto distribuição de rins, uma mulher só virá a descobrir sua identidade feminina se ela se implicar nesse sentido. Enquanto há o grupo do homem, cujos membros se perdem dentre eles mesmos já que se regozijam por serem todos iguais, só se pode pensar em grupo de mulheres na dimensão do singular: uma quer ser diferente da outra. Assim, uma mulher colocada como referência diz de sua própria feminilidade, e pode tornar-se adorada justamente pela suposição de que “ela sabe o que é o feminino”. Marilyn o sabia. A quem deseja saber o que uma mulher vem a ser, lá esta, assistam: “Torrentes de Paixão” (1953), “O Pecado Mora ao Lado” (1955) e “Os Desajustados” (1961). Eis alguns exemplos nos quais ela diz o que é uma mulher. Em formato de filmes, lá estão figuras que revelam uma estética, um modo de comportamento, uma posição em relação ao homem. Contudo, se suas personagens são falantes, Marilyn é quase muda. Não por menos já se produziram tantas biografias sobre ela e dela ainda pouco se sabe. Marilyn Monroe se criou enquanto mulher através de inúmeras personagens. Ela anunciou que a feminilidade é uma criação, e que se homens, ou mesmo uma mulher, desejarem saber disso, terão que tomar as mulheres para si, se não para amá-las, para delas fazerem-se próximos, uma a uma. 

Ainda hoje é possível olhar tipos de mulheres em centros urbanos e refletir acerca do fato de que A Verdade quanto ao sexo feminino é inapreensível. Existe, mas enquanto oculta; há várias figuras do feminino, que não fazem Uma e há aquelas que, reconhecidas como mulheres, detém um enigma quanto ao que a feminilidade vem a ser em sua essência. Neste raciocínio, só poderíamos falar em “Marilyns”, uma a uma  estas personagens ao longo de sua carreira que todos admiram e se atraem. O magnetismo é justificável sob a hipótese de que ela detinha um saber. Mas e quanto a Norma Jeane Mortensen (seu nome de registro), o que se sabe dela? Seria esta a “mãe” de todas as Marilyns? Após seu tempo em divã, pode-se supor que algo acerca da feminilidade ela descobriu. E o que fez com isso? Eternizou este saber ao deixá-lo oculto, e como conseqüência ou não, inseriu figuras do feminino no lugar.

Cordialmente,
Renato Oliveira

hey oh, let's go!

O tempo passou e eu sofri calado, não deu pra tirar você do pensamento... Nos posts que virão aí, o sujeito da frase será sempre oculto, para manter um rigor textual, mas vocês sabem quem esta por trás. Hoje, contudo, para dizer que voltei, escrevo em primeira pessoa. Aprendi coisas nestes tempos e retorno para dar continuidade a este projeto sabe-se lá por mais quanto tempo. O desejo de quem vos escreve é o de trazer representatividade ao cinema que merece ser visto, bem como instigar o interesse por se pensar em psicanálise através dos filmes. Empolgado e com perspectiva. O estilo dos textos também sofreu certa alteração, acredito que o resultado final ficou simples e interessante. Eis portanto, mais um começo!


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Renato Oliveira