11.4.17

Inconsciente com aroma de que?

Internet não transmite cheiro, aparelhos televisivos também não, mesmo os com sinal digital, e o cinema, tampouco. Por mais avançado tecnologicamente que esteja a humanidade, este recurso ainda não foi desenvolvido, embora seja curioso notar aqueles que compram perfume online. Caso o cliente, contudo já conheça a fragrância que será adquirida, então a decisão pela compra virtual torna-se mais concebível. Isso ajuda a perceber que cheiros se inscrevem no registro da memória e a despeito de que falar deles não seja mostrá-los, pode-se suscitar a existência de um aroma via palavras ou mesmo imagens. Ao que aqui interessa, cabe a indagação: qual cheiro o inconsciente possui? Freud não digitou nada a respeito, mas foi o responsável por estabelecer todo o aparato e funcionamento do que vem a ser este lugar de saber que se revela através de suas produções. Um sintoma ou chiste podem assim até estar associados a algum odor, já um ato falho, dificilmente. A questão, contudo vai além e desde então vale destacar que este inconsciente outrora revelado mediante o freudismo não cheira a Hugo Boss nem sequer a Carolina Herrera, no caso de cindir gêneros. No inconsciente não há sequer a existência de mais de um sexo senão aquele representado pelo pênis ereto, e dado o desconforto que é o embate com seus conteúdos, pode-se desde então supor que seu perfume é cheiro de outra coisa. 


Há mais de 10 anos atrás foi lançado “O cheiro do ralo” (2006). Esta obra dirigida por Heitor Dhalia retrata um comprador de itens usados em conflito com o mal-estar evocado pelos odores provenientes de um ralo, em um banheiro anexo ao escritório. É curioso perceber que o ambiente físico é um personagem ativo em toda a trama. Ora, o ralo não somente tem seu lugar no título como é um dos principais falantes do roteiro, embora não emita som algum. O que é dado a conhecer do ralo são seus efeitos de linguagem, seja em direção ao suposto personagem principal, Lourenço, o primeiro afetado, seja sua incidência em quem assiste ao filme. O que o ralo propriamente diz é que algo não vai bem, e este é um não-saber com o qual o comprador encontra-se implicado. O símbolo não poderia ser mais valioso ao saber analítico: é de um buraco que se trata, de um local que aponta o obscuro, por onde passam dejetos humanos, que constituem a massa mais podre socialmente firmada, as fezes, em síntese, é um lugar de merda. No caso do ralo ser mantido em seu fluxo normal, nada de ruim poderia acontecer, a passagem de merda diária ocorreria sem complicações. Contudo, por alguma razão, o ralo exalava um odor, desagradável, lógico, e perceptível a todo aquele que estivesse no ambiente. A solução encontrada por Lourenço foi a de tamponar o buraco com cimento, o que, por sua vez, ao invés de resolver o impasse, trouxe a merda à superfície, ou seja, alagou o ambiente, seus conteúdos então boiavam. Há também um momento da trama em que, na ausência do cheiro do ralo, Lourenço sente sua falta. É notório que alguns determinariam que o ralo seria o inconsciente. Não se trata na verdade do que um símbolo é, mas sim do que ele pode indicar, neste caso, de fato, o ralo enquanto representante do inconsciente. Torna-se compreensível que o personagem não conseguia se “desconectar” do ralo, que seu mau cheiro era praticamente uma fonte de inspiração e dissabor ao mesmo tempo, dado que sentimentos antagônicos co-existem no inconsciente. Assim, discuti-lo em associação com a merda não é de modo algum subjugá-lo, mas sim expor a realidade de que seus conteúdos cheiram a excrementos, não por menos o desejo inconsciente só pode existir sob estado de recalcamento. Neste raciocínio, o que se faz em uma análise é abrir o ralo e deixar a deixar a merda fluir.

Eis a questão: a personagem principal do filme é Lourenço ou o ralo? Sabe-se que o inconsciente é conhecido por seus efeitos e o cheiro proveniente do ralo também. O escoamento teve consequências diretas sob o comprador que, de senhor da razão, daquele que firmava a palavra final, tornou-se enfeitiçado pelo objeto da oferta. Enquanto num primeiro momento ele tão somente definia se os itens seriam aceitos para compra ou não, com o decorrer do roteiro, ele passa a ser confrontado com seu próprio desejo em relação a eles. Com a emergência do desejo, ocorreu também uma troca de posição, pois de senhor em sua própria casa, Lourenço passa à condição de desejante – “diga-me quanto queres e irei comprar”. Este estado de enfeitiçamento ilustra a posição do sujeito frente ao objeto do desejo, que o torna alheio à sua própria condição racional, de modo que ele passa a ser guiado pelo desejo do outro, de modo a perguntar-lhe “quanto queres?” e mais especificamente “o que queres?”. Ademais, o fétido cheiro do ralo equivale a uma cena de desenhos animados, na qual a personagem caminha em uma direção – cega, entregue, irracional – guiada unicamente pelo aroma, em busca de seu objeto-causa. Assim, tamponar o ralo passa a ser a conduta mais tola possível, bem como nociva, uma vez que do desejo inconsciente não se pode escapar. Ao mesmo tempo, permitir que o escoamento flua requer certa coragem, principalmente quando não se sabe de quem é a mão que pode fechar o registro.

Até a próxima,

Renato Oliveira

5.3.17

sublimação ao avesso

O Cine Freud de hoje tem por tema a relação entre cinema e sublimação. É certo que até então não foi dito o suficiente sobre isto. Este território é solo fértil dado que sublimação é coisa própria do freudismo. Quando se fala deste assunto, logo vem à mente a imagem do artista que destina seus impulsos vitais para criar uma obra de arte – o que gera inclusive o equívoco de se pensar que toda arte é oca e seu interior é composto por pulsões sexuais irrealizadas. Não é disso que se trata aqui, absolutamente, mas sim de apresentar filmes nos quais a sublimação é o tema em si. Obras que declaradamente anunciam o sujeito confrontado com a necessidade de destinar o que é de ordem sexual para fins socialmente aceitos e valorizados. Ora, só se pode pensar em sublimação a partir da ideia de desvio de uma finalidade sexual – que na língua Portuguesa não pode ser melhor descrita senão por trepar – para fins que de sexuais não tem nada. Foi assim que a humanidade evoluiu, caso tenha evoluído um pouco. 

Não há dúvida de que personagens neuróticos, bloqueados na vida sexual e sublimatizantes nível 10 da coisa já tenham sido adaptados para as telas. O dever daquele que aqui escreve, caso ele o tenha, seria o de analisar tais filmes, evidentemente. Sua procura, contudo, não produziu resultados novos para além de três filmes que já estavam em sua cabeça, um sobre o tema em questão e dois outros virados ao avesso. Pois bem, transformar o que seria uma finalidade sexual em objetivo civilizatório com vistas ao aplauso grupal tende a produzir pessoas realmente boas naquilo que fazem. É sabido que a libido freudiana foi concebida em termos de energia de ligação e com um pouco de abstração é possível tomá-la como fonte de toda a criação possível. Experts em alguma coisa podem ser o resultado de uma energia sexual sublimada e totalmente investida no aperfeiçoamento de uma função. A forma como um ser irá canalizá-la resultará numa condição mais ou menos doentia, para se dizer numa linguagem escrachada. Mais para “mais” do que para “menos” era o conflito da personagem de Isabelle Huppert em “A professora de piano” (2001) conforme já foi aqui analisado. Mas o que presentemente vale ressaltar é o sucesso da personagem enquanto pianista, ofício equivocadamente tomado como vocação. Trata-se na realidade de treino e, para tanto, da canalização de energia mental. Nota-se que a psicanálise abriu as portas para revelar não apenas a sublimação enquanto estratégia neurótica daquele que não ousa viver a sua sexualidade, mas foi além disso: o conceito de sublimação permite inquirir quanto a quem é o senhor da demanda em questão. No caso da professora no filme, era de senhora que a demanda era proveniente. Havia uma mãe cuja posição indicava um endereçamento para o desejo da filha. Sem a renúncia de boa parte dos fins sexuais propriamente ditos é dedutível que a personagem assumiria talvez o lugar de uma pianista, qualquer uma, mas não de “expert”, de a professora de piano. Este lugar de singularidade estava diretamente associado ao poder, conquista alcançada em detrimento de uma sexualidade não bem elaborada por ela. Considera-se assim que a energia sexual quando tolhida em sua finalidade e voltada para aprendizados tende a produzir mestres.

Fotografia do filme Intimacy (Patrice Chéreau, 2001)

Como mencionado, um filme sobre o tema seria seguido de dois outros sobre seu avesso. Pois bem, enquanto o filme de Haneke é válido para se pensar sobre a sublimação, nos outros dois filmes a serem citados, a prática sublimatória esta recusada. Exatamente. Tanto em “Intimidade” (2001) de Patrice Chéreau quanto em “Na cama” (2005) de Matías Bize um casal desliga-se da sociedade em um quarto para a realização de sexo não-procriativo, isto é, trepada. Tem-se a visualização da pulsão sexual cumprindo seu objetivo, sem se desviar para a esquerda ou direita. Os encontros destes casais eram exatamente para satisfação física. Pode-se dizer que são, portanto “filmes de cama” e uma possível linguagem articulada à produção de orgasmo. Trata-se de sujeitos para os quais as demandas sociais tornam-se fatores externos retirados de campo temporariamente, incompatíveis com o momento na cama (ou no chão). Eles decidem se afastar da própria vida para repensá-la em função do desejo, e para tanto, seus corpos precisavam ser tocados. Deve-se considerar que sublimar os anseios sexuais como alternativa A ou transar da forma como bem entende enquanto opção B não é um paradoxo em si, ambas possibilidades não se excluem mutuamente Há os que preferem dosar em suas vidas uma parcela de satisfação pulsional com boas investidas de intelectualismos e arte enquanto há outros que recusam satisfazer a pulsão sexual em sua finalidade mais direta e imediata. É notório que a sublimação é tanto um destino que serve aos interesses da sociedade como um todo quanto pode ser um recurso para não enlouquecer aqueles que, por inviabilidade de acesso, não tem junto a quem produzir “cenas de cama”. Cabe ainda o questionamento acerca de até que ponto a escolha sublimatória é uma medida efetiva. Ademais, nos dias de hoje ainda se destaca a necessidade de um acordo do sujeito relativo a quanto destinar para fins socialmente aceitos parte da energia que visa ao ato sexual propriamente dito. É lógico que abordar o tema da sublimação a partir de filmes que retratam o seu negativo produz mais inquéritos do que interpretações plausíveis. Assim, desvirar o avesso é desde então tarefa para uma postagem futura a fim de relançar luz sobre este tema que, de algum modo, atravessa a existência de todos. 

Abraços,

Renato Oliveira