10.5.15

como limão pra caipirinha

A presente resenha baseia-se numa espécie de terapia de casal via discurso fílmico. Assisti-lo foi como ouvir duas pessoas falarem sobre a experiência de desencontros na vida. Se levarmos muito a sério a palavra “desencontro” entenderemos que o prefixo esta aí apenas para fazer menção a um encontro que não deu certo. Enquanto eu revia o filme When Harry met Sally (1989) já com a intenção de analisá-lo, tive a impressão de haver muito pouco “de psicanalítico” nesse trabalho, uma vez que os diálogos pareciam-me inviáveis de serem transpostos aqui em cunho interpretativo, de forma a tornar isso de algum modo interessante. Antes que eu me dissuadisse da ideia, justificando-me com o argumento desprezível de que era devido à “indústria hollywoodiana oitentista” não produzir senão filmes para entretenimento, resolvi analisar a minha contratransferência primeiro. Assim, minha conclusão foi no sentido de fazer da oportunidade em questão a ocasião única para um rabisco discursivo sobre o amor, com vistas a se tentar extrair alguma coisa que valide a experiência de encontro do filme com a escrita. 

As traduções de títulos de filmes parecem que são capazes de revelar tudo o que uma pessoa pensa a respeito deles. Aqui no Brasil é dito que Harry | Billy Crystal | e Sally | Meg Ryan | foram “feitos um para o outro”. Como não se lembrar da música de Fabio Jr. nessas horas em sua alusão a elementos que se tornariam mais tarde imemoriais na psicanálise: as metades da laranja, carne e unha e almas gêmeas. É sempre de dois elementos postos em união que se trata. E não somente disso, mas de uma complementaridade ente eles. Numa reflexão sobre a psicanálise hoje, creio que não devemos conceber essas formas de linguagem como inferiores àquelas encontradas nos artigos de Academia, uma vez que elas também aludem às noções que os grandes mestres deixaram. Sendo assim, esta ocasião é destinada às pessoas com alguns minutos livres para “ler” a palavra de Lacan falada no retorno a Freud em articulação com esta comédia romântica.


O casal supracitado se conheceu durante uma viagem até Nova York cuja promessa, para ela, era “a minha vida começará a dar certo”. Não apenas à estudantil em questão, mas sim, de forma quase generalizada, é comum no ocidente, aos 20 anos, acreditarmos que é o momento certo para firmar os alicerces daquilo que se tornará, tempos depois, uma vida significativamente realizada. E nesse entendimento, sem chamá-lo de ilusão, o casamento – quando ainda não feito – já é previamente listado como um dos objetivos principais depois do dinheiro. A conversa entre eles, a princípio refere-se a algumas noções que saltariam aos olhos de todo aquele que leu o vol. I da Traumdeutung [A Interpretação dos sonhos] um dia. A primeira delas é o que eu considero a aceitação da verdade de que “tenho um lado sombrio, como qualquer um”.  A segunda, que acredito ser mais discutível é que “nenhum homem pode ser amigo de uma mulher que ache bonita”. São duas frases que serviriam bem como citações de caminhão, pois são esclarecedoras àqueles que têm a pretensão em firmar algum relacionamento afetivo. Ora, é a aceitação deste sombrio do outro, bem como de que as “amigas” dele ou dela te farão em algum momento sentir ciúme ou pelo menos questionar a noção de posse de objeto.


Em um primeiro tempo, o estilo de discurso entre os dois jovens tem um tom inquisitivo, como se “brigassem” enquanto conversavam, ou como se fosse uma disputa de forças entre colegiais. A imagem retratada é a de “cabeças opostas”, de uma amizade improvável entre seres que supostamente não foram feitos para estar juntos. Em síntese, o encontro de Harry e Sally mostrará as diferentes etapas da vida, as conversas sobre amantes eleitos por eles e os infortúnios dessas alianças. A narrativa do filme é intercalada com depoimentos de casais idosos que contam como se conheceram. São testemunhos baseados na ideia de que "o amor pode dar certo", e que os relacionamentos conjugais subsistem a despeito do tempo e das mudanças que as pessoas enfrentam com o passar dos anos. 

Duas observações sobre o roteiro parecem ser o suficiente como eixos de análise, sobre os quais pretendo me deter. São estas: o recurso do humor é utilizado para apresentar a situação de pessoas frente ao perigo de ficarem sozinhas; o laço do casamento é colocado em pauta como doador de um sentido de felicidade. 


Ainda que nos dias de hoje seja aceita com menor censura a decisão de algumas pessoas em questionarem a formação de famílias como sentido exclusivo da vida, a ideia de não se casar ainda é tida mais como uma “falta de alternativa” do que como escolha. O “sonho americano” de em algum lugar haver um outro que supostamente acabe com a solidão do indivíduo, é retratado no filme por meio da busca de Sally e Harry em fazer um casamento ter êxito. Eles tinham este objetivo comum, elegeram objetos de amor para tanto, e foi quando se frustraram nessa direção que vieram a se reencontrar. Foi quando passaram a compartilhar as experiências vividas e um laço de amizade se estabeleceu a partir de então.

Basta ler o título “feitos um para o outro” para entender a jogada de que dois elementos avulsos podem se dar melhor se unidos. Assimilamos essa noção a partir da imagem de duas coisas que juntas se completam e passam a formar uma (mecanismo de fusão), e somos levados a crer que isso acontece em um encontro sentimental cuja satisfação mútua no sexo esta envolvida. O compartilhamento de vivências entre Sally e Harry, contudo, formou a regra de que sexo era um terceiro excluído entre eles. A experiência de não terem um objeto destinado ao amor sexual era o fator principal que deu o alicerce a amizade. Seja para falar sobre o antigo amado que se foi, seja para mudar de perspectiva, estavam ali, um pelo outro. Portanto, é de uma ausência que aqui faço menção. Ora, a ausência de um cônjuge suposto ser aquele que resolveria o problema da solidão.


Apenas um pouco de identificação com os protagonistas é o suficiente para se perceber que o roteiro apresenta a condição de homens e mulheres como seres marcados por uma falta que se resolveria no casamento. Existe uma esperança de completude no amor, de que há um eleito e junto ao qual não se sentirá a falta experienciada no tempo em que se esteve sozinho. Nesse entendimento, nada somos senão a metade, e temos, portanto, a missão de procurar o resto, a parte faltante. Observem que a própria linguagem é bastante esclarecedora: é mais comum a fala “estou solteiro” do que “sou solteiro”. Isso revela a intenção de muitos em superar esse status bem como permite-nos a inferência de que não são poucas as pessoas que se sentem desconfortáveis em permanecer nele por muito tempo.

Sobre o segundo eixo – laço no casamento >>> sentido de felicidade – a ideia é bem autoexplicativa, uma vez que casamento é motivo de festa. Quando traduzido em termos psicanalíticos, seria a celebração de que o problema da falta-a-ser foi finalmente resolvido. Além disso, “uma só carne”, dá para ver que a união conjugal é firmada na noção bíblica como a resolução efetiva ao problema da falta.


Essas duas noções acima, quando articuladas com o fato de que Harry e Sally tornaram-se amigos ao compartilharem a experiência de separação alude inevitavelmente à questão da falta do sujeito que de resolvida, não tem nada. Vale confrontar um pouco daquilo que já foi falado em psicanálise sobre um todo que inexiste com os significantes que o sujeito traz em análise acerca de sua crença de haver uma completude no amor. 

É de discursos que se trata. Todo e qualquer desejo é o anúncio de que algo esta faltando. Lembrem-se das “primeiras histéricas” e verão que a descoberta do inconsciente trouxe tanto o discurso do sujeito como um ser que esta numa relação com um objeto de amor que lhe falta quanto à procura por tomá-lo para si, para fazer este encontro dar certo. 

Com base no encontro de Harry com Sally, é possível inferir que descobrir a presença da falta após um divórcio pode ter exatamente a função de convidar o sujeito a falar mais daquilo que o fez crer em uma completude, de maneira que as suas ilusões iniciais podem ser trocadas por novas formas de entendimento sobre o amor.  


Os testemunhos de casais idosos representam diferentes nuances de histórias amorosas, que em nossa linguagem a chamaríamos de “encontros de faltas”, isto é, a admissão de que não se é todo, e de que unidos é possível criar algo a partir disso. Não penso que o casamento que se mantém por muitos anos seja no filme retratado em alusão a alguma coisa que se perde, mas sim pautado na noção daquilo que fica. Não a "paixão juvenil perdida”, mas sim a revelação de que a falta persiste após a união de duas pessoas. Creio que a beleza suposta existir no amor esteja aí. A falta é como que a presença de uma ausência que se mantém em qualquer relação humana. O que difere uniões que dão certo e levam o casal para o “sofá do testemunho” daquelas que não dão, é aquilo que cada um fará com a sua falta. Ora, é de uma falta posterior que faço menção, aquela que se desvela após a certeza de que se estaria completo junto ao outro amado e eleito. Suportá-la, descobrir outros interesses frente a isso e amar o objeto desinvestido das ilusões iniciais é o desafio da vida. O que o discurso da psicanálise fez ao mostrar a divisão do sujeito, não foi apenas desconstruir a ideia de “um feito para o outro”, mas sim apresentar a verdade de sujeitos desejantes que fazem uma escolha em alguma direção, podendo ou não suportar o sombrio que existe no outro. A ideia de “sujeitos completos” pode ser ilustrada como a ilusão do final feliz cujo cinema hollywoodiano insistiu em mostrar. Ao desconstruir essa felicidade insipiente é possível entender os encontros amorosos como experiências faltantes, nos quais cada um é convidado a lidar com a desilusão decorrente da descoberta daquilo que o outro não é capaz de oferecer.

O diretor Rob Reiner joga com a diferença entre as singularidades de Harry e Sally e com a notória incompatibilidade entre ambos para levar-nos a pensar se a diferença seria ou não uma ocasião para o amor. Quem poderá formular isso em formato de questão e dar uma resposta definitiva? Contudo, se testemunhamos a ideia de que a completude não existe, nada mais seria, senão ilusão, crer num tipo de pessoa certa para cada ser faltante do mundo. Nessa matemática, é certo que dois não formam um, e exatamente por isso que a amizade de pessoas opostas, como Sally e Harry não poderia ser mais provável e elucidativa. 

Felicidades,
Renato Oliveira

11.4.15

luz nas trevas

Gostaria de ter patrocínio para promover a feira das perguntas sem respostas. Nem teria que me preocupar com a mobília porque nada seria colocado em exposição. É certo que alguns concordariam que há, de fato, “perguntas sem recipientes”, às quais só o destino sabe solucioná-las. No entanto, não nos contentando com os poderes miraculosos, inventamos um caminho para chegar a alusões possíveis para aquilo que surge na vida da gente como impossível de ser respondido. Se não fosse este “tesão de inquérito” e autêntico desejo de saber fico a me perguntar se o cinema não teria virado latim. Claro que os interesses comerciais seriam outro ponto a se discutir, mas isso não é compatível aqui. Do que se trata senão de filmes escritos com base na pergunta: O QUE É ISSO? A despeito do passar do tempo, esse questionamento não se finda, porque importa-nos dar algum sentido para o isso que aparece na tela.


Creio não ser “viagem” da minha parte, ainda que com o risco de apedrejamento por queda à banalidade, afirmar que a psicanálise nasceu quando Freud ousou se questionar a respeito do “isso” que estava ali à mostra por meio do sintoma. Mesmo após alguns anos de estudo, isso não se ocultou, pelo contrário, continuava acessível à observação nas outras manifestações do inconsciente, conforme vocês sabem porque estudaram o assunto. É curioso, entretanto, recorrer à ilustração para mostrar que ao “isso” que fora nomeado por Freud de “id”, tem-se uma imagem menos cavernosa do que o necessário. Quem tem a intrepidez de dizer “quero conhecer o isso que habita em mim”? O diretor Andrzej Zulawski fez um filme para mostrar o suposto “isso” de cada um, cujo nome é Possession (1981). Acho incrível pensar que comemoraremos o centenário desse trabalho um dia (não devo estar aqui) e ainda restarão questões a serem pensadas a partir de um filme com uma proposta simples, fatídica e fabulosa!

É a narrativa de um homem que amava sua mulher, a qual, por sua vez, não amava somente ele. O verbo amar é cabível nesse contexto com o sentido de quero possuir você. O que é realmente importante que vocês saibam do roteiro do filme por meio deste escrito é tão somente isso: ele suspeitava que ela tinha um amante e queria provas para confirmar este pressuposto. Para além disso, tudo o mais é horror e creio que isso não serei capaz de fazê-los sentir. Seria imponência demais da minha parte assim supor. Quero, contudo, mostrar alguns comportamentos dele a partir de seu desejo de saber e fazer as correlações psicanalíticas possíveis com o “isso” que nos é dado a ver no filme.


Disseram para Mark | Sam Neil |, o marido em questão, que sua esposa esperava que ele fizesse alguma coisa, nem que fosse mágica, pois estava colocado em cena o fato de que ela tinha alguém para além dele. Se ele não houvesse tido iniciativa para discutir a relação, não nos pareceria verossímil a problemática em pauta. “Ele quer ela, ela não quer ele”: esta é a primeira impressão que temos. Creio que talvez houvesse motivos para temer uma mulher que diz: “todo mundo pode fazer o bem e o mal... Mas, se preferir, posso fazer apenas o mal”. Somos, a princípio, testemunhas de um casal que discutia sem que tenhamos a certeza do que lhes causava tanta tensão. Supomos assim a presença de um terceiro ausente, para o qual o interesse da mulher convergia.

Na minha vida de estudante de Psicologia, dediquei-me por um tempo ao estudo da feminilidade em psicanálise, mas isso não me impede de conhecer alguma coisa de postulados teóricos sobre mente de um homem. Sobre este marido com ataque de nervos penso que a descoberta de que ela tinha outro era sentida na cabeça dele com base em pensamentos tais como os que seguem: “eu não sou tudo para ela. O que falta lhe oferecer? Alguém apareceu e lhe proporcionou algo melhor do que aquilo que eu poderia ofertar. Mas sei como tê-la de volta”. Ademais, é comum um homem querer a confirmação se um amante faz sexo melhor do que ele, por mais degradante que possa ser ouvir um “sim”. Ora, é frequente a escuta de que o homem, em circunstâncias tais, tende a colocar-se na relação como aquele supostamente capaz de tamponar qualquer falta. Uma sucinta declaração de Mark para Anna | Isabelle Adjanni | confirma isso: “não suporto vê-la assim. Será do jeito que você quiser. Estou aqui”.

A separação era uma ideia insustentável para ele. O decorrer do filme apresenta a destrutividade no gradual enlouquecimento do casal conforme Mark fazia de tudo para obter a identidade do amante. Seguindo os eventos quero ressaltar e tomar para análise alguns símbolos que foram surgindo (não na minha cabeça, mas que apareciam no filme).


Enquanto o marido, possivelmente, meditava sobre a situação conjugal sentado em uma cadeira de balanço, observamos um movimento que vai acelerando aos poucos. Não lembro o nome da lei da Física que explica isso. Sei, contudo, que parece haver um aumento gradativo de tensão. Estava demarcada uma separação entre o casal, que não era aceita por ele, e ela não conseguia desvincular plenamente o marido de sua vida, uma vez que ainda lhe oferecia justificativas verbais. O movimento da cadeira pode representar um símbolo de avanço e retrocesso sem sair do lugar. A inclinação da cadeira com o peso do corpo era tanta que parecia que ele ia cair, mas, ainda assim, se mantinha. Era como se ele estivesse prestes a desistir do confronto, seja liberando-a para o outro ou via homicídio, mas ainda assim, voltava a si e se dissuadia destas ideias.


É importante explicar que a confirmação da esposa de que havia outro não fora suficiente para frear os movimentos frenéticos de Mark. Ela não somente confirmou ter alguém, como forneceu o endereço do mesmo. Ele foi até o suposto rival, Heinrich | Henz Bennent |, e antes de acirrar um confronto entre eles, foi obrigado a ouvir: “a charada esta no infinitivo. Aceitar”. Acho curioso notar que mesmo com esta visualização do cenário, Mark não se contentou em suas investigações iniciais, como se o “isso” que ele queria saber ainda se mantivesse oculto. As discussões com Anna prosseguiam, em uma delas, inclusive, ela lhe revelou: “você não entende? Você me dá nojo! Sou uma vadia, um monstro! (...) Transo com todos e você não sabe!”. E logo confirmamos, mais uma vez, que o desconhecido nos atrai. Em busca de um saber ainda não todo relevado, Mark contratou um detetive. No escritório deste, sentado em uma cadeira, não mais de balanço, mas dessas que rodam, observa-se que ele fazia constantes movimentos circulares. No formato de um círculo, logicamente, e sem dar uma volta completa, sem fechá-la, portanto. É como perseguir uma coisa sem um ponto de chegada, o que traz a ideia de uma busca que não se finda. Uma “volta completa” seria a obtenção de um saber pleno do desejo do outro, bem como de suas intenções intrínsecas, arraigadas ao âmago do ser. Uma ilusão, evidentemente. Afinal, por mais próximo que se conviva com alguém, é inviável pensar que o nosso poder de sondagem será suficiente para desvela-lo a nu para nosso interesse.


Trata-se de um filme em que a obsessão do marido serve de ocasião para se mostrar a carne humana que detém segredos psicológicos e espirituais para além de nossa limitada compreensão. Outros símbolos estranhos aparecem. Enquanto Anna cozinhava, Mark, menos exasperado, revela seus sentimentos: “quando esta longe, vejo-a como um animal ou ser possuído. Mas quando a vejo tudo isso desaparece”. Nessa cena, vemos Anna cortar carne com uma faca elétrica para depois jogar os pedaços na máquina de moer. Isso significa algo? É o que ela estava fazendo com o marido? Seria a carne um pedaço do coração dele destruído pela indiferença dela? Sou mais tentado a pensar que a carne representava outra parte do corpo dele (o pênis, claro) sentida como flácida, picotada, fragmentada e transformada em partículas moídas uma vez que deixara de ser objeto de desejo dela, sendo renegado como um brinquedo que já deixou de ser interessante. Não é por menos que a ferida narcísica dele se revela em atos de cólera extrema.


Eles estão descontrolados. Não apenas um descontrole, mas também um desespero posto em cena. Descontrole e desespero. Cortem o “des”. Resta-nos “controle” e “espero”: ele esperava obter o controle da situação. Que Anna admitisse um amante não era o suficiente, ele queria um dito de verdade sobre o desejo dela. O desespero do marido era por não ter indícios de um controle, o que, por sua vez, o tirava de uma condição de poder para jogá-lo num círculo de perseguição à verdade plena sem nunca alcançá-la. Com um corte no pescoço de Anna feito com a faca elétrica, ele demanda que ela tão somente fale: “tudo será do jeito que quiser! Apenas fale. Não precisa dizer nada”. Ficaremos aqui até amanhã para entender o que ele realmente queria saber. “Falar, mas nada dizer”: talvez isso indique que ele não estava em condições de ouvi-la devido à angústia decorrente de suas indagações acerca do enigma que envolvia o desejo da esposa.


Foi preciso que Mark encontrasse o primeiro outro em questão, Heinrich, para por seu intermédio constatar que havia um eleito para além dos dois. Essa revelação aumentou o anseio de Mark e levou o investigador contratado a seguir Anna até um prédio, para em seguida fingir-se de síndico a fim de descobrir a identidade daquele a quem ela fora visitar. Ao entrar, ele abriu as persianas, isto é, lançou luz em ambientes escuros. Qualquer investigação nada mais é do que isso. A experiência inicial de Freud com a psicanálise também o foi. A demanda do marido era fazer Anna falar. Como não obteve êxito neste intento, sua intenção passou a ser a de iluminar um saber desconhecido supostamente real, ele queria fazer aparecer o outro que a fazia desejar. Aqui cabe uma pergunta: é verdadeiro o postulado de que há em nós um outro, não a nossa razão consciente, que nos faz desejar aquilo que a consciência repugna? Em síntese, aparecer é sempre, de algum modo, ter que lidar com o assombro.

Na busca pelo desconhecido, Anna apontou ao detetive onde estava o outro, indicando-lhe o banheiro sem janelas. Isso nos mostra que no lugar em que a revelação se detém não há janela. Assim, não dá para ver o que se passa estando do lado de fora. Só é possível ver o que esta dentro se você estiver inserido. Se usarmos essas noções como metáfora, podemos aludir à fala do sujeito como reveladora dele mesmo, do “isso”, de seus conteúdos inconscientes, desde os mais primitivos, daquilo que esta sob efeito de recalcamento e quer, assim, aparecer. O saber sobre o Inconsciente esta no sujeito, é uma linguagem que pode tornar-se manifesta. Ninguém pode revelá-lo senão o próprio dono, o único com acesso a este campo de palavras.


Logo, o que havia de tão assustador no local por ela indicado? É interessante notar que enquanto se tornava mais forte o anseio do marido em querer que a verdade desconhecida fosse toda dita, “isso” era falado no sintoma do filho. Com Freud aprendemos que alguns acometimentos físicos são manifestações do inconsciente, e com Lacan, que o sintoma da criança revela algo da ordem do sintoma dos pais. Sobre Bob | Michael Hogben |, o garotinho, nas palavras de sua professora: “ele sabe de tudo, sente tudo, é incrível. Depois do almoço temos uma hora de descanso. Bob dorme quase o tempo todo. Enquanto dorme, chora, grita. (...) Ele sofre. É sempre muito difícil acalmá-lo”. Há uma cena também em que ele acorda aos berros após um pesadelo. O que a criança anunciava, portanto, era um estado de desordem familiar que o atormentava. O sintoma dessa criança também retrata a existência de uma coisa perturbadora que após aparecer via sonho, é temporariamente afastada da consciência ao acordar "como se nada tivesse acontecido". Trata-se de um “horror” que ainda não foi nomeado aqui, mas o discurso da professora, enquanto lavava a faca elétrica usada por Anna, é revelador nesse sentido: “mulheres são perigosas. (...) Sou de um lugar onde o mal parece mais fácil de ser detectado, porque você pode notá-lo na pele. Ele se torna pessoas. Assim você sabe o perigo de ser atingido por ele”


A personificação do mal comentada por ela refere-se à noção de que pode ser de uma interioridade humana que se trate quando se fala acerca de uma maldade causadora de algum tipo de assolação. Falamos do lugar de conhecedores apenas parciais de uma mente, com a ciência de que não há um entendimento pleno de seu funcionamento. Iluminamos algumas de suas áreas, sabemos que é a linguagem que a fazer advir como Sujeito do Inconsciente e também recuamos ao se deparar com a verdade de que seus conteúdos não nos são agradáveis. Cortar-se com a faca elétrica ou com a garrafa de vinho, mostrar a carne exposta e crua: outro símbolo que retrata a apresentação do humano tal como o é, apenas uma carne com alguns conteúdos desconhecidos inacessíveis a razão. O diretor ousa querer mostrá-los e não há outro gênero senão o terror que seja mais apropriado para tanto.


Suponho que esse “outro” que Mark não podia ver e para o qual o desejo de Anna se voltava, pode ser concebido como o autor da perturbação que também a assolava. No momento em que se dirige a uma igreja após um estado de perturbação e fixa seus olhos na estátua de Jesus Cristo – símbolo de pureza, de mortificação do desejo na carne, de renúncia e santificação – parece que ela esta tentando ver a si própria nesta imagem. Como se assim fosse possível usá-la como um espelho para santificar-se após a descoberta do que havia de demoníaco e aterrorizador em si própria. Esses conteúdos internos também podem ser concebidos como 'sujos', uma vez que a moralidade do sujeito atribui esse caráter àquilo que foi afastado da consciência via recalque. Jesus Cristo aparece como o símbolo do ideal do eu impossível de ser alcançado senão com a morte, uma vez que em vida a relação do homem com o “desejo-sujeira” é inevitável. Sobre o impasse em seu relacionamento com o olhar do sagrado, ela anuncia: “o que perdi lá foi a irmã fé. O que me restou foi a irmã acaso. Eu teria que ter cuidado da minha fé, preservá-la”


Isso tudo o que foi dito até aqui, claro que não é “tudo” coisa alguma. É apenas uma parcialidade interpretativa de “um mal” oculto em uma história sob a pele de um suposto amante, do qual só a esposa era suposta saber alguma coisa, e que causava no casal um aterrorizante sentimento de assolação. Com vistas a não revelar um spoiler aos que não viram o filme, limitei-me à sentença de que o desconhecido era o amante e o amante era o isso. A valentia de ver tanto a carne crua até então escondida quanto à interioridade deste “outro” perseguido é similar à coragem do analisante quando se põe a falar daquilo que o faz sofrer. Ele sabe que sua pele será aos poucos rasgada e que o processo somente ocorrerá com o enfrentamento da dor consequente desse jogo de palavras. A esperança ao iluminar esses locais da mente é que o caminho a ser trilhado não será em círculos.

Beijos de luz,

Renato Oliveira