18.4.10

Um novo lugar de valor

Recolocar os móveis no lugar é voltar-se aos detalhes que completam o significado dos teus dias.
Eu voltei! depois de quase 1 mês e meio de chuvas, neve e abalos aqui estou. Neste tempo ausente consegui me reorganizar, escrever várias análises e modificar o layout para finalmente dar "o ar das graças". Agradeço aos queridos que tem super me motivado a continuar e aguardavam o meu retorno.

Dentre coisas novas, outras permanecem. Não é novidade a minha paixão por construções, móveis e decorações antigas. Este é um detalhe que me fascina nos trabalhos de Polanski, além dos roteiros. Arquiteturas com ar de assombro e pessoas misteriosas com aquele ar blasé trazem uma ornamentação muito peculiar a seus trabalhos.


Parece que o enigma de “O inquilino” consiste no mistério subjacente aqueles que ali residiam, pessoas ‘trevosas’ eu diria. A história conta-nos sobre Trelkovsky | Roman Polanski | e sua procura por um novo apartamento. Suas pesquisas o conduziram à um prédio tradicional, marcado pelo conservadorismo como um lugar de habitação de ‘pessoas cultas e de bem”. Porém, recentemente uma mulher havia tentado suicidar-se ao se jogar da janela. Este assunto se difundia entre aqueles inquilinos e era justamente este fato que abria uma nova vaga. Trelkovsky interessou-se não somente em alugar o apartamento, mas também em saber quem foi Simone Choules.


Ao visitá-la no hospital, ele encontra um ser privado de qualquer comunicação inteligível, mas foi o contato com Stella | Isabelle Adjani | que lhe permitiu saber mais sobre sua identidade e engajar-se neste novo mundo. Dias depois ela morre, causando alguns questionamentos em Trelkovsky, os quais se desenvolveriam a partir do discurso dos demais inquilinos e suas percepções particulares. Mudar-se para aquele apartamento lhe possibilitaria engajar-se num jogo de pistas e identificações quanto à personalidade da falecida.
Embora morta, Simone estava presente nos objetos daquele apartamento e na fala dos demais inquilinos. Trelkovsky passou a ser conhecido como aquele que ocupou o espaço da “mulher-suicida”.


De maneira muito sutil o cenário aos poucos se altera, como se o humor deste novo inquilino e suas percepções o conduzissem à um estado de alienação e tormento. Simone se foi mas há resquícios de sua personalidade que aos poucos são apresentadas à Trelkovsky: maquiagens, um vestido, hieroglifos, chocolate ao invés de café, Malboro ao invés de Gauloises azul. Ele não é apenas apresentado à este universo, mas é concebido como participante dele.


Quem foi Simone Choules? Esta questão em momento algum foi respondida. Trelkovsky não somente se identifica com as preferências da mulher, mas a introjeta passando a vestir-se e maquiar-se como supostamente a imaginava. Neste momento o discurso padrão abre espaço para a fala alucinante como se a identidade deste inquilino fosse fundida com a de Simone. O desencontro de falas se torna presente de tal modo que há situações em que realmente não sabemos quais fatos foram reais e quais foram partes de um delírio. Há uma divergência entre as próprias noções que Trelkovsky acredita ter de suas ações e como os demais inquilinos as relatam.


Ao ver este filme muitos tem a percepção que aqueles inquilinos perseguiam Trelkovsky e o conduziram a este estado alienante, como se uma condição externa desencadeasse um distúrbio intra-psíquico. Eu gostaria de seguir outra direção. Inconscientemente, aqueles inquilinos tinham outra representação: eram objetos perseguidores que o remetiam à um conflito interno. Havia um desejo homossexual que o ameaçava e não podia exprimir-se de outro modo a não ser por um sintoma. O delírio que o fazia mulher consistiu na elaboração de um novo roteiro no qual simultaneamente ele era capaz de desejar ser Simone Choule e temer estar destinado ao mesmo fim.

Havia uma ansiedade persecutória que se iniciou a partir da identificação. Na fantasia inconsciente, muito provavelmente Trelkovsky tenha-se identificado com o sintoma da mulher falecida, assim ele introjetou esta mulher e construiu uma realidade interna a partir do que ela passou a representar. Ele afirmava: “eles acham que sou Simone Choule”, quando na realidade ele havia se identificado e introjetado suas características.


O filme “O inquilino” justifica a possibilidade de um eu dividido. (cisão do eu). O sujeito é capaz de manter-se na realidade, mas também negá-la, criando assim um roteiro que seja propriamente seu e não levante as mesmas objeções. Este delírio era uma tentativa de reconstrução e revelava uma verdade quanto a seu desejo. Portanto, é preciso engajar-se no próprio delírio do personagem afim de não estarmos despreparados ao ver o desdobramento que isso o levou.

Renato Oliveira

37 comentários:

Abdoul Hakime Goul Djounoubi عبد الحكيم گل جنوبی disse...

Mantermo-nos na realidade só é possível negando-a de quando em quando, através de mecanismos criados pela mente, pela linguagem, e até pelo próprio organismo das pessoas.

É um impulso que parte de nós, mas vem do fato de nossa convivência com os vizinhos, parentes, amigos, autoridades, colegas de trabalho etc, não ser lá o que gostaríamos que fosse. Dado que um desejo reprimido não morre, apenas adormece (a não ser que seja satisfeito de alguma forma), é natural que busquemos consolo em fantasias que nem nós nem muito menos os outros compreendem.

PS.: Será que falei muita besteira? Caso sim, abafa o caso.

Au revoir, et je te dit que c'est un plaisir vous lire.

Alan Raspante disse...

Cara já tinha ouvido falar deste filme, mas não sabia nada sobre ele, muito boa a história. Vou procurá-lo ver.
ótima crítica, e ficou massa esse layout ! xD

CaroolAlves/- disse...

gostei muito do post falando sobre o filme ,vou procura - lo !

da uma olhada no meu blog tbm ,beijos

Nathi Delacroix disse...

Esse eu ainda não assisti... Mas assistirei! *-*

Sucesso na volta.
Voltei pro meu também, também de cara completamente nova! *-*

Erica Ferro disse...

Renato, essas tuas análises são muito boas e nos instigam a assistir esses filmes.

Parabéns!
O novo layout ficou lindo!

Vanessa Souza Moraes disse...

Uau que lindo ficou o blog!

Tenho este filme mas não assisti ainda, vou ver esta semana e lerei seu escrito depois. Beijos.

Minhas trilhas disse...

Olá!! Que ótimo que retornou. Seru blog é maravilhosoooooooo!! Não poderia sumir não... Sobre o filme não vi ainda, mas a historia é bem interessante....Abraçoss.

J. Araújo disse...

Renato, que tenhas um excelente retorno; com suas ánalises crítica do que rola na telona.
abraço

Clenio disse...

Oi, cara, bem-vindo de volta.

Eu gosto dos Polanski antigos - ultimamente ele tem me decepcionado bastante, mas ainda não assisti a seu último filme como o Ewan McGregor e a esperança é a última que morre...

Ainda não assisti a "O inquilino", mas tenho uma grande curiosidade. Vou procurá-lo e depois te passo minhas impressões.

Grande abraço,
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Sônia Silvino disse...

Estava com saudades, amigo!
Passei para ler as novidades!
Boa semana!
Bjkas, muitas!

Rafael Pinheiro disse...

ha meu querido. seja bem vindo de volta. Senti sua falta. Eis aqui novamente lendo seu adorável e lindíssimo novo blog. beijos. rafael.

Marcos Dhotta disse...

Enquanto delírio, um desejo... Enquanto desejo, uma reparação! Belíssimo comentário!

Ana Lúcia Porto disse...

Ufa!! Até que enfim voltou!!

É Renato, vim apenas para comemorar o seu retorno. Fiquei feliz por isso.

Voltarei com mais tempo para ler essas suas críticas deliciosas e comentá-las...

Beijos,
até logo,

Ana Lúcia Porto disse...

Que bom que gostou de meu "new look"... Fico contente.

Pena disse...

Fabuloso Amigo:
Um texto que abarca sonhos de maravilhar pela beleza e importância das telas da imaginação preciosa.
Roman Polanski tinha um modo ser polémico e estranho.
Não esqueça que violou uma jovem, o que é condenável.
Parabéns sinceros ao seu talento gigantesco.
Perfeito. Uma imaginação peculiar de maravilhar.
Abraço amigo de respeito, estima e consideração pelo seu génio óbvio e criativo.
Com constante admiração.

pena

MUITO OBRIGADO pela simpática visita.
Bem-Haja, notável Amigo.

Insana disse...

Entre gritos de sussurros pretendo mostrar a agonia e a felicidade do que é o viver o sobreviver nas dificuldades e nas esperanças do nossos dias.
Explodir em sentimentos é simples é como gritar de um prédio ou de uma montanha.
Desenhar no caderno pixar o muro por em um outdoor escrever no vapor do espelho.
Gritei tanto com toda minha alma
Vou sussurrar

Bjs
Insana

Pedro Antônio disse...

Oi, Renato!

Que bom saber. Fico feliz!

Mas eu também noto em seu blog um padrão de qualidade, muito bom por sinal! (rsrs)

Um fote abraço.

Te espero sempre.

Pedro Antônio

Ábia Costa disse...

Oiiiii...Renato, nossa eu sou apaixonada por seu blog, tenho um certo fascínio por psicanálise, apesar de ser leiga no assunto, minha irmã é psicóloga e meu primeiro contato com Freud se deu quando eu tinha apenas 13 anos, descobri seu blog há pouco tempo, mas já está nos meus favoritos.
Com relação ao filme do Polanski ainda não assisti, mas fiquei bastante interessando em fazê-lo.
Obrigada pela sua visita ao meu blog, és sempre bem vindo por lá...mil bjinhus *-*

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudobem?
Menino, sempre com um olhar sensível heim? Vc pega tudo, faz uma análise criteriosa. Acho isso o máximo, rs.
Então, arriscar sempre é preciso, por mais difícil q seja.
Abraços
:)

Naty Araújo disse...

Caramba... quanto tempo. Vc sumiu do meu blog. Estava sentindo falta dos seus comentários.
Está td bem com vc?
Vou pesquisar sobre o filme, gosto das tuas indicações.
Sempre fico curiosa rsrs.

Beijos.

Erica Vittorazzi disse...

Que bom que você voltou. Que saudades de você e daqui!!! Ficou lindo o blog e como sempre a sua análise fantástica. Você nasceu em um divã?

Bom, eu não vi este filme. Mas é interessante perceber que o sujeito nasce na linguagem. Quantas pessoas são presas à significantes que lhe falam, assim como Simone Choules? Quem somos nós, afinal? De qial significante você abriria mão?

Beijos RÊ,

valentinarosin disse...

Amigo!
Teu blog é bom demaissssss! Eu adoro cinema!
Vim agradecer a sua participação no meu diário. Venha sempre!
Bjsssss!

Mulher Asterísco disse...

Vontade de comentar...mas não sei o que dizer...só: continue postando!

susana disse...

Já ouvi falar do filme, mas nunca o vi, mas depois de ler esta tua crítica, fiquei mesmo curiosa para o ver. Não acho assim tão alienante, sentir que se é perseguido por um determinado grupo de pessoas,eu já senti isso na pele. Se resistimos é pior! Essa perseguição pode levar as pessoas a estados de loucura, matarem, ou matarem-se, ou ambas as coisas! Já se leu casos paralelos nos jornais tipo "...estudante, mata os colegas e suicida-se no fim".
Quando leio este tipo de notícias fico sempre com pena do militante, porque sinto que no fundo ele é a vítima.
Muito boa esta crítica, quase senti que vi realmente parte do filme!
beijinhos missixty

@Raspante disse...

Cara, valeu pela visita ao meu blog e por me seguir. Fico feliz que tenha gostado. Eu já conhecia á um tempo o Cine Freud, via Apimentário, acho fantásticas as suas críticas e o jeito que vc analisa o filme, você extrai até a última gota do filme visto. hehehehe
Bem eu já seguia teu blog e estou linkando tbm.
Por favor faça este bem a humanidade, poste mais !
AHSUHAHSUAHSUHA

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

Agora sim, voltei com tempo, um pouco, graças ao feriado de hoje.

Sinceramente, não me despertou vontade de assistir "O inquilino", apesar de sua excelente crítica. Não fez o meu gênero. Não me atraiu essa loucura, essa tortura desenfreada.

Sim, parabéns pelo novo visual!! Você teve muito bom gosto.

Beijos, voltarei, mas apareça também. Sempre gosto...

Carolina disse...

Oi Renato, antes de qualquer coisa só uma spalavrinhas:
que bom que você voltou!
o blog tá um luxo, repaginado o layout.
Sobre Polanski, gosto muito dos filmes dele. E sinceramente não tô ligando se o passado dele o condenou, eu neste momento cinéfilo separo muito a arte da vida-arte.
Então que continue aparecendo em forma de cinema sacadas geniais como deste cara.
Bjos queridos pra ti!!!

pimenta-com-br disse...

Tua paixão pelo cinema se revela em belos posts.
Abraços,
PB

Efigênia Coutinho disse...

Renato Hemesath, apenas duas palavras para resumir :
VOCÊ É O MÁXIMO!

Efigênia Coutinho
in New York

Ana Carla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Carla disse...

Oi Renato
Nunca vi esse filme, parece interessante, mas não é mto o meu estilo, otima analise!
Gostei do novo layout. OBrigada pela visita. Também achei o loft incrivél, adoro essa mistura de cores.
Bjo

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

Estou aqui para lhe desejar um bom final de semana...

Beijos e se quiser fazer um passeio virtual, vou gostar de sua companhia...

Melia Azedarach L. disse...

Saudade das suas postagens, agora que consegui ver seu comentário e pude vir agradecê-lo.
Gostei do novo layout aqui, as mudanças.
Acho que também sofri muitas mudanças nos últimos tempos.
Continuo correndo, mas tento manter a calma.
Um grande beijo!

Gorete . SoLua disse...

Olá Renato!
Ótima analise...

Doce beijo :)

@Raspante disse...

Cara mudei de endereço, hehehe, http://cinemapublico.blogspot.com/
Abs.

Carol Rezende disse...

WHAAAAH! Ameeeeei o novo layout *-* Parabéns, Renato!

Caramba... Assisti tão poucos filmes do Polanski... Ele é um dos diretores que eu espero ter mais conhecimento futuramente.

Bom, eu estou tentando voltar a postar no Minhocas Fritas. To em espécie de bloqueio mental, criativo e crise existencial com o blog, rs. Mas me faz tão bem ter onde escrever... Portanto, me perdoe pelo tempo que levei pra te responder, rs.

E, afinal, vc assistiu Barbarela? HUUHAASUHHUAS
E obrigada pelo elogio do post Pseudo Algo *-* De fato, o que vai te fazer sem alguém são os rótulos vindos de terceiros, exteriores.

Aaahh, to pra ir pra SP lá pro dia 8! Exposição do Andy Warhol é imperdível *-*

Beijooos, boa semana!

Petro disse...

Gosto de suas análises, e obvimanete me ficam as indicações. Parabéns pelo bom-blog! Posso voltar? xero
P>>>