25.4.10

Uma paixão criativa

Os filmes em preto e branco possuem um encanto especial. Eu insisto em falar sobre o cinema antigo, pois acredito que nunca será possível reproduzir as marcas que estas obras deixaram.

Minha paixão declarada por Audrey Hepburn é caso antigo e me recordo que “Sabrina” de 1954 foi um dos primeiros títulos que conheci. Uma história por Billy Hilder que retrata poder e disputa, mas acima de tudo a criatividade.


A clássica família Larrabee ocupava um local de poder na sociedade e Sabrina encantava-se com os bailes e festas que eram realizados, porém igualmente reconhecia o seu lugar. Enquanto a filha do chofér, esta posição delegava o não pertencimento àquele mundo. Sabrina vivenciava uma paixão não correspondida por David Larrabee | Willian Holden | o qual não apenas era alvo de sua adoração, mas também um objeto idealizado.

Este filme articula dois diferentes momentos: uma condição melancólica e outra criativa. Logo no início, a primeira condição é observada a partir do reconhecimento de não ter o objeto amado e não ser suficientemente capaz de atrai-lo. Sabrina angustiava-se pelo fato de não ser olhada. Porém, os anos ausentes em Paris viriam a mudar este cenário. Ao desviar o seu foco daquele contexto e envolver-se em uma nova atividade, ela foi capaz de rever seus próprios valores e a sua noção de eu foi resignificada.
 

A cena na rodoviária é encantadora! O figurino, a elegância, há um encanto subjacente em si que retrata “uma nova Sabrina”, tanto que ela não foi reconhecida pelo próprio David.  Ao retornar, iniciou-se uma disputa entre aqueles dois irmãos: tê-la ou não tê-la. Estar junto à Sabrina conferia um novo lugar, um status, uma posição de poder. Neste momento, é interessante que Linus Larrabee | Humphrey Bogart | elaborou artimanhas para aproximar-se dela, pois se via encantado.
   
Esta história se limitaria à descrição de uma mera disputa entre dois irmãos que desejam a mesma mulher se não fosse o próprio potencial criativo do diretor. Embora os dois irmãos a desejassem, o modo de enunciar o seu desejo não era o mesmo, o que nos faz pensar que a paixão e o lugar de poder estavam fundidos, eram uma coisa só.

  
Sob a ótica de Sabrina observamos o seguinte: ela saiu de uma condição melancólica para uma condição criativa, esta pressupõe liberdade, espontaneidade, encontro com o próprio eu. A busca do eu acontece quando o sujeito é capaz de encontrar um espaço no qual possa se sentir livre para expressar as suas verdades. Nesta condição criativa ela se encontrou com um novo eu, uma verdade de si que a fez ver o quanto era capaz de ser desejada e fazer-se desejo do outro. Este reconhecimento de si foi fundamental: a mobilizou para novos lugares, trazendo um colorido diferenciado àqueles dias.


Os dois irmãos não foram capazes de conhecer os valores e a criatividade existente em Sabrina enquanto estavam idealizados com sua imagem, e neste jogo de disputa foi Linus quem ousou sair do lugar comum. Sutilmente ele potencializou um espaço de escuta, de troca, de criatividade e foi assim que gradualmente Sabrina se fez conhecida à ele.

Isso nos leva a pensar que nós somos aquilo que o outro nos autoriza ser. Uma mãe só pode exercer sua função de cuidadora e realizar-se nesse papel a partir do gesto e da permissão de um bebê que a coloca na condição de mãe. Igualmente em Sabrina: ela só pode ser para David e Linus aquilo que eles lhe permitiam, pois é o outro nos faz tornar o que somos. Assim, foi a partir de um espaço criativo que todo o rumo da história se alterou.


Ao pensarmos nas atuais relações humanas vemos o quanto este espaço criativo muitas vezes é inexistente ou limitado. Acredito que as pessoas enfrentam grandes dificuldades em se encontrar consigo próprias em virtude da própria escassez deste lugar de troca e de espontaneidade, o que justifica a superficialidade das relações. Enquanto marcados pela apatia e pelo conservadorismo não seremos capazes de ousar, mas se movidos pelo desejo do novo poderemos autorizar-nos a propagar este espaço criativo, assim como encontrar no outro um local para que também sejamos reconhecidos como aqueles que não se contentaram com o mesmo, mas ousaram em sua própria busca do eu.

Abraços à todos,

Renato Oliveira

29 comentários:

Alan Raspante disse...

Como sempre crítica impecável !
Eu baxei Sabrina pela internet, mais ainda não pude ver, pois eu baxei sem legenda e está em espanhol (ou casteliano?), só sei que a compreensão não é nada fácil !
....

Ana Carla disse...

Renato
Infelizmente não assisti a primeira versão de Sabrina, somente a ultima com Harrison Ford, Julia Ormond e Greg Kinnear. Mas também sou fã da Audrey sempre que passa algum documentário tento assistir.
Gostei muito das observações.
Bjo

Pena disse...

Precioso Amigo:
Já fui um cinéfilo assumido. Até faltava à Faculdade para ver um bom filme de qualidade.
Parabéns pelo Post. É repleto de criatividade e imaginação.
Sim! Penso que as pessoas não interagem por ainda não se terem encontrado com elas próprias, com respeito por todos eles(as). Hoje, chamaram-me egoísta por só proceder como procedo no meu blogue. A luta incessante pelo bem-estar e na busca e procura dos meus heterónimos (Se é que existem?) que são vastos.
Abraço de parabéns, de novo.
Com amizade, respeito e consideração gigantescas.
Sempre a admirá-lo.

pena


Excelente!
MUITO OBRIGADO pela fantástica visita que adorei.
Bem-Haja, precioso amigo de bem.

Tati disse...

Hey Renato!Que saudade,como vc está moço?
Adorei ver que vc voltou.

Bem,gostaria de te passar uma dica ótima de filme:Mary e Max - Uma amizade diferente.É uma animação,mas nada infantil.
Fiquei encantada com a história,super realista,forte e emocionante que trata das emoções profundamente. Vale muito a pena ser visto.

Ábia Costa disse...

Oi Renato, cada dia me torno mais e mais sua fã, adoro suas análises.

"Isso nos leva a pensar que nós somos aquilo que o outro nos autoriza ser." Concordo plenamente, querendo ou não só podemos mostrar quem somos a partir do que o outro queira ver, mas para isso também precisamos saber quem somos, seu ultimo parágrafo está impecável.

ah...indiquei seu blog à minha irmã psicológa, não sei se ela já veio aqui, se não está perdendo muito...
Bjinhus e obrigada por sua visita em meu blog, sempre fico muito feliz quando você vai lá.

Bye

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

Contando com todas as minhas façanhas para ficar só e com paz, a melhor solução mesmo, a mais eficaz, foi quando eu morei sozinha, durante apenas 01 ano. Pode parecer pouco, mas era eu e eu quando chegava em minha casa, depois de passar o dia estudando e trabalhando. Ou seja, com tantas responsabilidades no lar e fora dele, o "sozinha comigo mesma", tornou-se bastante evolutivo, por assim dizer.

Agora, Renato, diante de seu contexto, "o outro nos faz tornar o que somos", faz todo o sentido. Entretanto, eu não concordo. Sinto muito. Mãe age instintivamente, por amor incondicional. Um bebê não possui condições de permitir isso ou aquilo. Além do mais, noto uma contrariedade em crescer no seu eu e afirmar que foi por conta do outro esse crescimento. Nem no amor isso ocorre. Perderia-se a espontaneidade. Agora, uma pessoa madura sabe ceder, é diferente.

Enfim, Renato, Sabrina agiu por impulso, no entusiasmo, para agradar David, tanto é isso, que não deu certo, faltou aquela "consistência", veracidade e não uma cena criada. O que ela pode ser com Linus, autêntica.

Beijos e boa semana...
Continuo a gostar de suas críticas e estou sim querendo saber o que você já preparou para postar sobre alguns filmes.

Erica Vittorazzi disse...

Renato querido, como vai?

Amo Sabrina, mas confesso que assisti aquela outra versão... (sorry ou melhor pardon moi). Tenho o CD do filme por causa de La vie en rose...

E vamos a análise. Pensei em escrever baseada no meu pouco conhecimento que tenho em Melanie Klein, mas falaria bobeira... então vamos à minhas divagações: 'NÓS SOMOS AQUILO QUE O OUTRO NOS AUTORIZA SER'. Ah , o Grande Outro, que vai nos significando... e aí o papel da análise para desfazer os pontos de amorfo que nos tornam infelizes. E quando mudamos de país? Sempre penso nisto. Qual significante levamos? Sabrina levou o significante David para Paris, só... e ele foi perdendo o significado e enfim, ela pôde escolher ser o que ela realmente queria.
Somos aquilo que escapa dos significantes, já dizia o grande Mestre, claro...LACAN!!!!
mas,repara que ela teve que voltar para Paris para ser feliz ... os seus significantes doram para lá!!
Renato, me diga, somos escravos disso, não?

Mulher Asterísco disse...

ótimo! Como sempre. Eu tb adoro filmes em preto e branco, meus favoritos são do Frank Capra.
Renato, tb passei anos só com tanta demanda de leitura funcional, tantos textos sérios para ler que me sentia culpada de ler só pelo prazer. Recuperei isto há dois anos. As outras leituras continuam sempre atrasadas, mas eu estou bem mais feliz.
beijos

valentinarosin disse...

Amigo, assisti a segunda versão desse filme. Gostei muito.
Bjsssssss!

pimenta-com-br disse...

Pensar em cinema é lembrar do Cine Freud: adoro!
Abraços!

Robson Schneider disse...

Adorei a palavra " autorizar-nos" ela tem me feito muita companhia nos ultimos tempos...
Abração

sarah disse...

Que saudade que eu estava daqui. Nossa!
A Audrey é espetacular!, adoro filmes antigos também.. passa uma sensação de sensibilidade.. de real mutação da alma.

adoro teu espaço!
beijos.

Naty Araújo disse...

Ahhh agradeço a dica... vou conferir o link que vc me mandou.

Pois é... pelo menos repensou as coisas está td em ordem, né?
Estou ótima... Td nos conformes rs.

Beijos. E aproveito pra conferir esse filme, tbm não assisti rs.

Rodrigo Gerace disse...

belo artigo. A vida em preto-e-branco é mais visceral, cinematográfica; os personagens parecem almas.... cintilam na tela

Aleska disse...

Engraçado acho que eu vi um filme na globo assim só que era uma refilmagem. Até o nome da principal era o mesmo, e ela tinha passado uma temporada em paris.

Carol Rezende disse...

AAAH RENATO! Eu li o post inteirinhooooo euforicamente! SAHHUASUHAS calma, deixa eu me controlar, uff. Bom, acho que vc sabe que também tenho uma paixão incondicional pela Audrey, e também Sabrina foi um dos primeiros filmes dela que assisti, e adivinha, me apaixonei! Até me identifiquei em algumas partes a ela, como gostar e homens mais velhos (pois ela gostava do David Larrabee desde pequena), hehehehe. Enfim. E de fato, não é pra qualquer uma ser disputada por William Holden e Humphrey Bogart ;x hahahah

"pois é o outro nos faz tornar o que somos." - não sou a única que pensa assim *-* rs

Ah, Sabrina é apaixonante! Foi um daqueles filmes que eu assisti e fiquei a semana toda pensando sobre depois. E de fato, achava meio, como posso dizer...? Bom, em relação à imagem dela, quando ela era uma simples filha do motorista, David não teve nem interesse em conhecê-la de fato, e se disse apaixonado por ela depois de vê-la mudada, fisicamente, e mais elegante.
E Billy Wilder sabe transformar toda essa trama em algo maravilhoso! O que hoje em dia seria só um filme água com açucar, com seu toque genial o fez em um filme divertido, romântico, encantador... Não só água com açucar. Já assistiu Crepúsculo dos Deuses? Aliás, é ótimo uma análise sobre Norma Desmond, rs! É um dos meus filmes prediletos do Billy Wilder.

Ai, amei esse post! HASUHS se bem que, no que se trata de Audrey, sou suspeita... E não baixei ainda o filme que vc me mandou o link! To super sem tempo, malditas provas trimestrais! E eu to com Hd cheio de filmes baixados que não assisti ainda! Espero esse mês conseguir liquidá-los do meu pc, rs.

Beijoos Renato, ótima semana!

Leni disse...

adorei o post, embora não tenha visto o filme ;/ mas me pareceu bom, com tantos comentários positvos e seu post super criativo.
Obrigada por passar no meu cantinho, adorei suas palavras! :D
beijos

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

Há duas mensagens minhas na caixa de seu e-mail: cinefreud@rocketmail.com

Eu as enviei ontem à noite.

Beijos,

Naty Araújo disse...

Vc é uma graça, Renato.
Suas palavras sempre nos dão alguma força.

Um beijo e um abraço pra ti.

susana disse...

Os filmes a preto e branco também me encantam, de tal forma que muitas vezes ouço críticas "Estás a ver um filme a preto e branco?!" "Não vejo qual a piada em veres esses filmes ultrapassados!!"
Mas como tu mesmo dizes, têem um encanto especial e não só pela sua ausencia de cor, mas também pelos argumentos romanticos que nos fazem sonhar!
Vi este filme, faz muito tempo, por isso não me recordava já de grande parte dele. Sei que a minha mãe o adora ! Quando puder vou reve-lo!
Adorei a tua crítica como sempre, mostras que és uma pesspa muito sensível e detalhista! Um romantico :))
beijinhos missixty

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, eu assiti a versão colorida desse filme e achei fantático, essa antiga ñ vi, rs
Q bom q gostou do poema, rs
Desculpa a demora em responder, mas tava numa correria daquelas, rs

Abraços
:)

Melia Azedarach L. disse...

Adorei!
Andei pensando em tantas coisas ultimamente, mas essa sua postagem foi perfeita para cair a ficha sobre algumas coisas (para não dizer todas).
Sem rasgação de seda, ficou ótimo, o seu jeito de escrever lembrou-me uma professora que gosto muito.
Mas enfim, quanto mais penso enlouqueço e sinto que ultimamente foquei nas minhas relações, digamos que na mais insatisfatória delas.
No geral sinto um certo vazio, procuro por algo que raramente é preenchido e quando acontece ainda falta alguma coisa.
Ah, chega de divagar!
Beijos...

Juci Barros disse...

Conheço apenas a segunda versão, mas não via nele algo além da semelhança comos contos da minha infância. Também gosto de filmes em P&B, parece que nos isntigam à uma "outra realidade" além das que vemos, sei lá... beijos.

Madame Lumière disse...

Oi Renato,

Parabéns, estou te prestigiando com o selo Prêmio Dardos. Vai lá no meu blog pegar o seu selinho carinhoso da MaDame Lumière.

http://madamelumiere.blogspot.com/2010/05/cacador-de-recompensa-bounty-hunter.html

Beijo!

MaDameLumière

@Raspante disse...

Renato acabei de ver o filme SABRINA, cara, como eu amo Audrey Hepburn, ela é simplesmente incrível ! xD

Laís D'Ponte disse...

Olá Renato!!!!!!!!!! =)

Que alegria em ver um recado seu em meu blog, há tempos não nos falamos!

Amo a Audrey Hepburn!!!!!! Acho-a incrível, porém ainda não assisti a esse filme! Vou procurá-lo!

Como está?!?!?!?

Nossa, a faculdade esse semestre está me sugando, não estou conseguindo escrever no blog! A criatividade e o tempo escaparam de mim! (rs)
E você? Creio que seu curso deve fazer o mesmo contigo!!!

Uma pena, nunca te encontrei on no msn para a gente ter aqueeeele papo bem viajado que tanto gostamos! =(
rsrsrs!

Beijão, bom domingo, boa semana!

Ah, sim, meu aniversário foi no inicio de abril, agradeço-lhe muitíssimo pelos votos!!! Tudo em dobro pra ti!!!!!

Isadora Beatriz disse...

Sabrina é meu segundo filme preferido da Audrey, assisti a versão original em P&B mesmo, até porque dá um charme maior ao filme. O acho encantador, um excelente filme mesmo, mas tambem com a Audrey não poderia ser diferente.

Anônimo disse...

Caro Renato,
Acabo de conhecer seu blog através do blog do Rafael Lobato. Como adooooooooooooooro cinema e psicanálise, logo me interessei e escolhi o filme Sabrina para iniciar-me em sua escrita. Parabéns pela articulação e elaboração. No entanto tem uns conceitos que você atribui a Sabrina que não se justificam psicanaliticamente, ao meu ver, ou ao menos em uma orientação lacaniana. Por exemplo, quando você afirma que Sabrina saiu de uma condição melancólica para uma criativa: o que isso quer dizer? Uma condição melancólica para a psicanálise implica em uma posição, ou estrutura psicótica do sujeito. o que convenhamos Sabrina não ocupava. Talvez pudesse falar em melancolização, mas você acredita nisso? Não vejo-a assim. Quando você diz que somos o que o outro nos autoriza ser: Será mesmo? Não seria melhor dizer somos aquilo que suportamos ser a partir de uma construção feita a partir do Outro? Dizendo como você diz parece que o sujeito não tem escolha e onde fica o desejo?
Abraços,
Juçara.

boasperguntasbonsencontros disse...

Renato ao ler o que vc escreve "o outro nos faz tornar o que somos" e quão doce e árida é a funçao da mãe, lembrei-me do que dizia Lacan "O inconsciente é o discurso do outro". Parabens pelo post, um abraco.