23.5.10

O mistério que faz-falar

Eu não sou capaz de descrever a minha reação quando terminei de ver este filme. Tudo bem que já faz algum tempo, mas ao revê-lo, sempre me impressiono de algum modo. Quando escrevo sobre alguma obra, tento pensar sobre o que este trabalho foi capaz de provocar e o que despertará naqueles que irão assisti-lo.


Mistérios da Carne | Mysterious Skin | foi dirigido por Gregg Araki em 2004 e se inicia com uma chuva de Froot Loops que ilustra a fusão entre desejo e ingenuidade. O discurso de um narrador personagem nos conduz às lembranças infantis de dois garotos em fase escolar. Brian Lackey | Brad Corbet | e Neil McCormick | Joseph Gordon | se conheceram ao participar do mesmo time de baseball e foi naqueles anos que fatos bastante significativos impactaram as suas vidas. Suas histórias são marcadas por um enigma, uma espécie de vazio a ser entendido. 


Enquanto Neil se destacava no time de baseball, Brian era um dos piores jogadores. Nas primeiras cenas, Brian aos seis anos se encontrava isolado no porão de sua casa e ao ser localizado pela irmã é visto que seu nariz sangrava. Ele não conseguia descrever o que havia acontecido de modo que sua mãe deduziu que este dano deveria ser decorrente de alguma lesão durante o treino e foi assim que Brian deixou de fazer parte do time. Os meses seguintes foram marcados por desmaios e sangramentos, no entanto não foi possível re-lembrar os fatos anteriores a sua estadia no porão.


As primeiras falas sobre Neil descrevem suas primitivas experiências sexuais e seu interesse e curiosidade nas investidas libidinais da mãe. Ao ser apresentado ao treinador (Coach) Heider | Bill Sage | lhe é despertado um intenso anseio sexual e uma angústia por não saber como simbolizar este desejo. Aquele treinador assemelhava-se com outros homens que Neil via em suas pesquisas sexuais infantis (revistas) e passou a ser o objeto causa de seu desejo. Em questão de semanas Neil já se destacava por ser o melhor do time conquistando a admiração do treinador. A proximidade entre eles permitia-lhe frequentar a casa do treinador Heider, entreter-se com seus video games e gozar da companhia daquele homem. 


Em uma destas ocasiões, Neil veio à conhecer uma verdade do desejo daquele treinador manifesta na relação sexual entre eles. A fantasia daquele menino adquiriu um novo significado a partir das excitações corporais despertadas pelo  treinador. Estas situações se repetiram mediante o consentimento de que este era um segredo mútuo, como algo que lhes unisse. Ainda naqueles tempos, não mais se ouviu falar de Coach Heider e o seu afastamento traria grandes desdobramentos à vida futura de Neil.


Mesmo após alguns anos, Neil não era capaz de esquecer esta experiência, sendo difícil descrever a sensação de ter sido objeto do desejo daquele homem. Em Hutchinson, ele morava com a mãe e sustentava-se financeiramente no encontro com homens dispostos a pagar por prazer sexual. Em seus dias presentificava-se o desejo daqueles que o procuravam e o descontentamento frente a monotonia que vivia.


Brian cresceu junto a uma mãe protetora e um pai temível e distante. Aquelas lembranças da infância eram presentes de tal modo que seus dias eram gastos na busca por explicações para aquele “buraco”. Assim, em suas tentativas de racionalização ele encontrou uma explicação mística para a perda de memória nas horas anteriores ao ser encontrado no porão: acreditava ter sido abduzido por Ovnis e esta hipótese o conduziria à novos rumos.

A partir da experiência infantil havia uma angústia presente em Brian e Neil, que o atormentavam de diferentes maneiras. Em Brian havia um vazio, uma situação de esquecimento, sua angústia era pautada no não-saber, na impossibilidade em acessar na consciência uma verdade sobre sua história que ainda provocava efeitos. Havia lembranças encobridoras que advinham em sonhos e no sintoma (sangramento do nariz). Por meio de algumas associações, ele buscou investigar algo além sobre o seu time de baseball. A partir deste anseio, ele ingressou numa pesquisa sobre o paradeiro de Neil pois via neste um sujeito suposto saber sobre si, como se no discurso de Neil fosse possível encontrar uma verdade plena para aquele período de esquecimento e seus decorrentes sintomas.


Enquanto Brian sofria a partir de um não-saber, a angústia presente em Neil se dava na ordem do não-ter. Ele reconhecia sua falta pelo abandono do treinador Heider, mas como significar esta desistência do outro? Em sua vida, observamos um caráter de repetição: aqueles clientes/parceiros sexuais eram objetos substitutivos do objeto perdido. Ao estar junto à eles, Neil buscava reencontrar o treinador. Não necessariamente o treinador enquanto pessoa física mas sim o afeto e a sensação de amparo que este um dia havia lhe propiciado.


Percebam que em Brian e Neil há um vazio e a busca em tentar significá-lo. A perda de memória de Brian que não podia ser explicada racionalmente pode ser tida como uma defesa, um recalque. Algum pensamento, idéia ou desejo inadmissível à seus valores morais foi afastada de seu conhecimento. Este mecanismo de defesa era capaz de manter e preservar sua vida mental, mas uma idéia afastada da consciência não é inofensiva e o seu retorno deslocava-se e advinha no sintoma (sangramento) e pelos sonhos que traziam elementos à ser decifrados. Este afastamento de seu desejo era presente também na vida adulta pois ele não via em si a falta à ter, portanto não mostrava interesse sexual por um outro pois sua falta consistia na dimensão do saber. De outro modo, Neil desejava vários pois na experiência com estes diferentes objetos ele buscava reencontrar o objeto perdido, do qual ele se considerava indevidamente privado.
Ver e rever este filme é como ser (re)virado ao avesso. O mistério da carne revela que apenas aquele que viveu é capaz de descrever o que ainda deseja.

Super abraços,

Renato Oliveira

31 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

Oh! Mais um que ainda não assiste :(

Erica Ferro disse...

Forte. Filme forte, e eu acho que não gostaria de vê-lo.

Clenio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. disse...

Oi Renato, também sou sua seguidora aqui neste blog. Não assisti a esse filme e abordar um tema tão polêmico como fez Gregg Araki é algo de muita coragem. Sua análise da obra está interessante. Um abraço e ótimo domingo.

Juci Barros disse...

Gostei da abordagem, mais um na minha lista a assistir. Beijos.

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

Eu não possuo certeza de que assisti esse filme.

Mas essa sua análise foi perfeita. As pessoas costumam ir atrás do que lhes intriga, de fato. Sempre procuram preencher um vazio, solucionar uma incerteza, por exemplo.

O filme deve (não me recordo se assisti) ser bom.

Beijos e quanto a ter me analisado (rs), eu adorei, pois você é ótimo...!!

Bom final de domingo e boa semana...

Insana disse...

Boa montagem.

Bjs
Insana

Me permita disse...

Quantos filmes legais ainda não assisti?! Uma boa semana! Valeu! Abraço

Maria Regina disse...

Um filme é realmente um universo fascinante... Gosto dos que me fazem ficar dias e dias pensando... Penso assim dos filmes e dos livros, e conordo plenamente com a citação de franz kafka:
"Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós."
Um abraço

Cintia Carvalho disse...

Oi Renato!

Nossa meu jovem, que história hein. Recentemente li seu texto sobre "Palíndromo" e fiquei curiosíssima em vê-lo, pois o tema abordado é forte e pelo visto causa impacto nos expectadores. Agora, encontro outro com uma temática que mexe conosco tb. Onde vc encontra tais títulos?

Bem, vc falou muito bem, sobre este filme, analisando de forma clara ao que me parece os dilemas e dores de dois jovens que sofreram abusos quando crianças. Isto pelo que entendi irá gerar conseque~encias em sua vida enquanto adultos. Outro tema polêmico. Ja anotei este aqui e espero encontrá-lo.

Seu texto sobre "Nunca te vi, sempre te amei" tá muito gostoso de ler e me deu uma baita saudade deste que considero ótimo, principalmente pela atuação maravilhosa do casal AH e AB. Muito boas suas observações sobre estes dois personagens.

Um beijinho carinhoso.

Clenio disse...

Oi...
Lembro que assisti a esse filme e fiquei bastante perturbado, porque ele não poupa o espectador de forma alguma. É um filme corajoso, contundente mas bastante realista e, acredito, psicologicamente acurado.
É um filme de se rever de vez em quando, porque tem detalhes que nem sempre são percebidos em uma primeira sessão.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Clenio disse...

Oi...
Lembro que assisti a esse filme e fiquei bastante perturbado, porque ele não poupa o espectador de forma alguma. É um filme corajoso, contundente mas bastante realista e, acredito, psicologicamente acurado.
É um filme de se rever de vez em quando, porque tem detalhes que nem sempre são percebidos em uma primeira sessão.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Valéria Sorohan disse...

Filme intenso, gostei da descrição.

BeijooO'

Marcia Freddy disse...

Interessantissima a resenha! - Um olhar profundo do filme! -

Realmente muito novo para mim!

Bjs! =D

Erica Vittorazzi disse...

Renato, eu sou sua fã. Fiquei sem palavras para comentar, está perfeito!! Este texto esta Freudiano, heim!!! Apesar que tem a procura pelo objeto A. E tem mais, o importante não é o que fizeram com você e sim o que você fez com o que fizeram com você, por isto os sintomas são tão únicos e por isto , eu acho o Freud um gênio!!!

Beijos

Hugo Dorta disse...

Pelo que deu pra ver, deve ser um bom filme!

abraçõs cara!

Marcia Freddy. disse...

Tomei a liberdade e add um ícone lá no meu blog! (rsrsrs)

Bjs!

Sônia Silvino disse...

Boa noite!!!
Vim agradecer a sua preciosa visita!
Aproveito para deixar um carinho pra você que é tão especial e importante para mim.

"Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso. "Antoine de Saint-Exupéry
Bjkas, muitas!

Nathi Delacroix disse...

Você só me traz boas recomendações!

AMOOOO SEU ESPAÇO, meeeew!

JPM disse...

Olá,
Tive contato com o teu blog no filosofia é o limite da profa. Marise Frühauf.
Agora vim conhecê-lo e seguí-lo.
Desde já és convidado a visitar o meu.
Saúde e felicidade.
João Pedro Metz

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, adorei esse ahahah
Parece ser ótimo ele, estou procurando para baixar, caso encontre lhe digo depois o que achei, rsrsrs
Ah menino, tá bem sim obrigado. E quem me inspirou foi o desconhecido, eu costumo escrever pro desconhecido sabe, enquanto aguardo alguém chegar pra amar, viver loucamente, intensamente, ahahahahha
Abraços
:)

Ábia Costa disse...

Nossa!! Renato que filme instigante e interessantíssimo, estou louca pra assistir...mil bjinhus

@Raspante disse...

Nem conhecia este filme, mas, mais uma vez você me deixou com vontade de conferir um longa. A história dele parece ser mesmo muito interessante! =)

Marcia Freddy. disse...

Mande um convite de acesso ao blog por e-mail.

Bjs!

André Fabrício. disse...

Esse filme me dá náuseas, não sei/tenho o que comentar, rs.


Quanto aos filmes do Almodóvar, Tudo sobre minha mãe, Fale com ela, Mulheres a beira de um ataque de nervos, Volver, Abraços Partidos, Carne Trêmula, Má educação. São os meus preferidos, pode começar nessa ordem, rs.

Me permita disse...

Oi, amigo! Este filme é um daqueles dramas que nos arrepiam e nos inquietam na poltrona diante das barbáries psicológicas que alguns seres são capazes de causar em nossas crianças! É um alerta para pais! Um ótimo filme para a coleção! Abraço!

marinaCavalcante disse...

Deu vontade de assistir.

Valeu por mais essa dica!

Abraços e te espero em meu blog!

**Reborn** disse...

Bem, desde que vc postou sobre este filme tenho vindo aqui aberto esta janela de comentários e acabo indo embora sem dizer nada. Mas o que dizer de um filme que foi capaz de mudar literalemnte a minha vida? Não pretendo entrar em maiores detalhes, mas acho este um destes filmes que deveriam estar na lista de cada escola, de cada reunião de familia... enfim que toda pessoa deveria assistir para entender melhor o que significa passar pelo abuso sexual infantil.
Só deixo aqui meus parabéns por postar sobre este filme e desfiar tão bem sobre seu enredo.

Um grande abço!

Insana disse...

Passando atrasada para te desejar um feliz dia do Amigo.

Bjs
Insana

Raquel disse...

Muito bom!

Tiago Vendramim disse...

Parabéns pela análise do filme! Foi muito bem escrito! É um filme corajoso!