6.6.10

Quem procura, não acha

Cada um elabore e dê conta de sua própria loucura. De psicopata e louco todo mundo tem um pouco, ou não? As idéias sobre o assunto são as mais diversas e as falas sobre loucura, demência e insanidade se apresentam nos mais diferentes contextos. No cinema, não seria diferente. A desrazão humana ocupa um lugar de interesse entre aqueles que produzem o espetáculo. Abordar a loucura é expôr reações que se distanciam dos limites concretos, é ir além do esperado e mostrar uma outra face, desvelando a possibilidade de sua existência em qualquer ser humano.

Em “Mulher solteira procura” | Single White Female | de 1992 somos apresentados à outra face que o sujeito pode desvelar. O diretor Barbet Schroeder fez uso de elementos simples num contexto corriqueiro que metafóricamente situaríamos um espaço, um furo e alguém para tampar este furo.


Allie Jones | Bridget Fonda | é o tipo de mulher com grandes pretenções na vida e que as faz acontecerem. A sua posição é sustentada por meio do trabalho, do status e da elegância que desmistifica um lugar de assujeitamento. O conflito na história é decorrente de um desentendimento com o noivo Sam | Steven Weber | que potencializou uma abertura naquele apartamento. A saída de Sam seria a entrada para uma acompanhante, preferencialmente mulher, sem filhos e não fumante. Sendo assim, o que determinaria a escolha de Allie seria a identificação com a nova candidata. O anúncio sobre uma vaga no apartamento atraiu diversas pretendentes, uma mais estranha que a outra.


Por fim, Allie identificou-se com Hedy Carlson | Jennifer J. Leigh | uma daquelas estranhas interessadas. Allie nada sabia quanto a história e o passado de Hedy, mas a aceitação seria uma oportunidade para que ambas pudessem compactuar de alguns significados e valores. As primeiras semanas foram oportunas para conhecer o universo da outra. O saber que adivinha na fala permitiu a criação de um laço entre Allie e Hedy de maneira que elas não apenas dividiam o mesmo apartamento, mas compartilhavam do que lhes era estimável. Todavia, o saber sobre a outra implicava igualmente um não-saber. Me explico: o conhecimento sobre esta “nova amiga” fazia com Allie encontrasse novos enigmas e elementos a ser decifrados. Saber um pouco pressupunha que havia mais à ser descoberto. Esta dinâmica ocorre num ciclo mediante o mistério do outro que é despertado em nós. 


Certamente não foi naquelas primeiras semanas que a outra face de Hedy veio a ser conhecida. Enquanto foi possível sustentar a previsibilidade daquela vivência não houve ocasião para o desabrochar de um novo saber. O que modificou todo o rumo da história foi “o olhar para o lado de Allie”. Bastou que Allie retomasse o relacionamento com o noivo Sam para que Hedy se atentasse à rever sua posição. Já havia uma identificação com Allie, um laço que viria a ser modificado pela inserção de um outro nesta linguagem comum à ambas. Foi preciso frustrar-se para que as marcas do passado de Hedy e a loucura de seu ser se fizessem conhecidas. 


Quem era Hedy? O seu descontentamento com a aquela situação a fez identificar-se ainda mais com a amiga o que intensificou o seu desejo de parecer-se com esta. A princípio, copiou seu modo de vestir-se, cabelo, posturas para posteriormente vir à se relacionar com objetos parecidos e assim adentrar no universo de Allie a partir da representação previamente identificada. A situação tomou um rumo tal que para atingir este objetivo Allie passou a ser o maior obstáculo em questão, passando a ser tida como um objeto terrificante e ameaçador. A certeza de que Allie existia na realidade concreta afirmava sua impossibidade em ser esta mulher, remetendo-lhe à angústia e ao descontentamento pelo desejo fadado ao fracasso. Uma outra face, completamente distinta daquela inicial, viria à ser conhecida. Uma mulher solteira que procurava tampar um pequeno furo e preencher um espaço vago deparou-se com um universo em que os menores detalhes significavam os mais terrificantes riscos. 


O passado de Hedy revelava uma verdade quanto a seu desejo, uma outra face na qual amor e ódio se convergiam e se manifestavam simultaneamente. Podemos compreender que para Hedy não havia distinção entre amar um objeto ou ser aquele objeto. E os processos inconscientes sobre o amor desvelam a existência de um afeto oposto, portanto, o ódio. As defesas do sujeito para lidar com situações de conflito o fazem lidar com formações reativas que se manifestam em ações opostas das quais de fato, gostaria de realizar. Assim, um sujeito identificado pode ser igualmente um sujeito que deseja manifestar um ódio sob efeito de recalcamento. Portanto, conhecimento para Psicanálise não pressupõe apenas tempo mas o modo como o sintoma, os sonhos e os lapsos do sujeito desvelarão uma verdade de si.

Um sapato não é só um sapato, vide roteiro e você compreenderá perfeitamente o que quero dizer.

Cuidem-se, queridos.

Renato Oliveira

27 comentários:

Renato Hemesath disse...

Pessoas!
Demorei horrores para atualizar, não é? isso não estava previsto.
Essas semanas foram corridas por demais com alguns trabalhos na faculdade.
Responderei os comentários do post anterior e ah... alguém viu "Mulher solteira procura II?" o que acharam? ;)

De modo geral, refilmagens e continuações de filmes me frustram.
Ótima semana à todos!

Vanessa Souza Moraes disse...

Esse eu assisti!

E passei muito medo com ele, assistid quando criança...

.: Évelyn Smith .: disse...

Olá Renato,
Achei seu modo de escrever sensacional... Muito tocante, de verdade.
Também faço Psicologia e sempre fui louca pela Psicanálise... Detesto Comportamentalismo, o Skinner e aquele bando todo... Rsrs... Bom, é a minha opinião. =)
Depois dá uma passadinha em meu blog pessoal, eu também escrevo, mas não tão bem como você.
Tudo de bom pra você!
Abraço,
Évelyn

Tati disse...

Oi Renato como vai?

Vi Mulher solteira procura II é achei péssimo =/
Nunca assisti a primeira versão,tinha até uma curiosidade,mas ela acabou completamente após assistir a segunda versão.
Uma pena,uma história com um tema tão interessante ser desperdiçado com uma segunda versão cheia de clichês e um final bobo.

Abraços pra ti moço!

Sônia Silvino disse...

Boa noite, meu crítico de cinema preferido!!!!
Vim retribuir o teu carinho de sempre!
Eu adorei esse filme. Assisti umas três vezes ou mais!!!
Fiquei tensa em vários momentos. Muito bom e envolvente!
Que a tua semana seja maravilhosa!
"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".(Fernando Pessoa)
Bjkas, muuuitas!
Sônia Silvino's Blogs
Vários temas, um só coração!

Mulher de Fases disse...

A lembrança do sapato me deu até arrepios...
Abços

M. disse...

Escrever sobre filmes através da ótica da Psicanálise ou Psicologia (porque sou uma leiga no assunto)é muito original. Eu não assisti a esse filme. Mas fica a dica. Uma excelente semana para você.

Pia Fraus disse...

o amor e o ódio eram extremos de um mesmo sentimento em Hedy... ora um se manifestava.. oura outro.... azar de Allie .... rsrsrsr

bjinho

Valéria Sorohan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Valéria Sorohan disse...

Oi Renato, quanto tempo!!
Você consegue propor uma possibilidade de leitura do filme. fiquei até curiosa para ver de novo, porque faz tempo que assisti.

BeijooO'

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato, meu querido amigo...,

A primeira vez que eu assisti esse filme, fiquei impressionada. Faz muito e muito tempo, mesmo.

Gostei de ler sua crítica, sobre um filme que conheço. Nós sempre nos satisfazemos com os nossos entendimentos, no entanto, aos olhos de um psicanalista, sempre há um anglo que não enxergamos.

Gostei dessa sua explicação: "A certeza de que Allie existia na realidade concreta afirmava sua impossibidade em ser esta mulher", ou seja, precisa matá-la para se tornar ela. E sim, concordo, de fato, a psicopata acabou por manifestar atitudes contrárias ao modo de sua vítima, na qual se espelhava.

Bom..., agora eu tenho que lhe dizer que fiquei imensamente feliz em saber que irá me enviar a crítica de meu filme predileto... Ôba!!!!! Adorei a surpresa, pensei que tivesse se esquecido. Mas, acredite, esses dias eu estava pensando nisso...

Já disse que vou postar, heim...?! Ual!!, adorei saber...

Beijos grandes... e boa semana...,

Erica Vittorazzi disse...

É tão louco isto, não é? Conheço pessoas assim, que tentam se transformar no outro. E sei que não é falta de personalidade, e sim uma psicopatia. Uma falta dentro que nunca será suprida. Sorte a nossa que estudamos Lacan.


beijos, adorei o comentário no meu post... VIVA AS FALTAS!!!!

Os intrigantes pensamentos da Lud disse...

É necessário dizer que me encanto, cada dia mais, com seu jeito de analisar cada cena, cada ato? É simplesmente mágico, inebriante! Parabéns!

*Andei um pouco sumida, mas voltei! Tem post novo lá no blog!
Abraços!

Insana disse...

Por isto eu não procuro ..
Sou encontrada.

Bjs
Insana

Marcos Dhotta disse...

Caríssimo... Assisti apenas e tão somente a versão de 1992. E bastou! O sequencial de alguns filmes não me apetece muito. Apenas o Poderoso Chefão e sua trilogia me fascinam até hoje. Adorei mas esse resgate, viu. Você como sempre me impulsionado a rever esses filmes... Já tão bem guardados nos recantos de mim mesmo. Obrigadão.

Erica Ferro disse...

"Um sapato não é só um sapato..."
Nunca acreditei tanto nisso como hoje acredito.

Psicopatia é um assunto que muito me interessa.

Alan Raspante disse...

Esse filme eu não assisti, resolvi não ver esse depois de conferir no Super Cine, "Mulher Solteira procura 2" que pelo amor de Deus, é péssimo chega a dar vergonha de tão ruim, rs
Abs.

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

Entendi que iria me enviar a crítica de meu filme predileto, por e-mail... Olhei e não encontrei..., rs.

Bom, foi apenas um pedido e não uma ordem... E não tocarei mais no assunto. Não, não vou ficar chateada com você.

Beijos e boa semana,

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, esse filme ñ m é estranho, acho q já assisti ele. Realmente parece sr um excelente filme.
Desculpa a demora em vir responder, mas estava super corrido pra mim eses dias.
Ah menino, estou baixando ele e louco pra assistir. Brigado pelo link, mas deu erro, mas achei ele num outro site, q por acaso é um q sempre baixo filme e tal, já com as legendas. Depois te falo o q achei dele.
Como passou de Dia dos Namorados? rs
Abraços querido
:)

Carolina disse...

Adorei este filme e realmente de perto ninguém é normal.
Filme antigaço, bom pra ser revisto.
Concordo um monte com esta frase: quem procura não acha...

bjão

Mulher de Fases disse...

Renato,
Amo suas análises!
O filme em questão ainda não vi,mas já fiquei curiosa, assim como outros que vc posta por aqui.
Gostaria de fazer um pedido...
Faz uma análise do filme A Caixa (The Box), com Cameron Diaz.Achei-o bem bacana.
Abços

Anônimo disse...

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