7.7.10

Achados e perdidos

Uma das possibilidades destinadas àqueles que produzem o cinema é tocar nas feridas humanas, é fazer um espetáculo a partir de temas que de algum modo causam incomodo. O cinema é o lugar daquele que quer falar. Salvem-me | Save me – 2007 | é o grito daqueles que querem ser ouvidos, daqueles que ao falar, falam de seu desejo, ainda que não saibam disso. O diretor Robert Gary pautou-se nesta idéia para apresentar a realidade não compactuada entre dois diferentes mundos.


O filme se inicia com cenários opostos: o êxtase de dois jovens drogados em um final de semana que conflitua com a serenidade e mansidão de um grupo religioso num típico domingo pela manhã. O diretor utilizou estigmas conhecidos para apresentar o conflito entre as diferentes formas de alienação. Mark | Chad Allen | é aquele que faz falar por meio da agitação, do som e do risco. O seu desejo homossexual era vivenciado por meio de intensas experiências que visavam satisfazer os seus anseios. Entretanto, o ritmo do seu cotidiano foi alterado após uma overdose que o conduziu à um estado de isolamento e internação. Foi a partir deste fato que o rumo de sua vida se modificou.


A vivência de Mark ilustra o “mundo jovem e perdido” segundo as concepções morais do casal Gayle | Judith Light | e Ted | Stephen Lang |. Eles acreditavam que o significado da vida poderia ser exclusivamente descoberto em uma experiência individual com Deus. Sob a responsabilidade do casal encontrava-se o “Genesis House”, um internato para homossexuais que visava recuperar uma relação supostamente perdida entre o homem e o Divino, o qual era tido como capaz de restituir a hétero-afetividade daqueles que se inclinavam a seus caminhos. A missão acreditava que o homossexual necessitava re-encontrar o seu verdadeiro dom, sendo assim, a via repressora era mediadora do percurso em restituir esta relação. Por meio de uma identificação com o líder apostava-se que seria possível advir um novo sujeito, marcado pela novidade de vida que era esperado no término do reestabelecimento daqueles jovens. O desenvolvimento do trabalho consistia numa perspectiva evolutiva pautada na observação das alterações comportamentais dos internos e na maior devoção à igreja local. Um novo status era conferido àqueles que atingiam determinadas metas. Assim, mediante a aprovação em cinco períodos, estes eram re-colocados na sociedade. Uma estratégia minuciosamente elaborada e imposta por aqueles que queriam falar. 


Mark encontrava-se no lugar do não-saber, ele era tido como incapaz de sustentar seu próprio desejo, portanto infeliz. O encontro de Mark com o Genesis House ocorreu a partir da intervenção de seu irmão que julgou que ele necessitava encontrar um novo modelo de conduta. Sua estadia foi impactada desde início pelo encontro com Scott | Robert Gant | o qual se encontrava nos períodos finais de reabilitação, mas que ainda assim mostrava uma postura menos obstinada. O roteiro do filme logo aponta Scott como um objeto de desejo de Mark que seria interditado pelas medidas locais. Aos poucos, os questionamentos de Mark cederam lugar para sua própria insegurança e necessidade de acolhimento. Esta foi a oportunidade para o querer falar de Gayle que se baseou na inconsistência dele para realçar o sentimento de culpa daquele jovem e apresentar as “boas novas” de que seria possível mudar. Foi assim que Mark se engajou neste novo percurso, introjetando o ideal do eu daquele abrigo. Esta postura de submissão ao querer do outro representava o silenciar de suas questões internas e um recuar quanto as iniciativas em relação a  seu desejo. Scott, enquanto um objeto desejado, passou a ser igualmente temível pois ilustrava um lugar-ameaçador, apontando a falta e o desejo homossexual existente. 


O desejo censurado pelos presentes se realizava nas relações entre Mark e Scott de modo sublimado, voltado à fins não sexuais e socialmente aceitos. Algumas aproximações corporais eram admissíveis em atividades como consertos, pinturas, esportes, etc. Estas foram oportunidades para o encontro de um novo laço, afim de que verdades do desejo de Scott também se tornassem conhecidas. O desenvolvimento desta relação intensificaria o conflito entre os valores religiosos e os impulsos sexuais despertados neste encontro objetal. 


O enunciado de ‘Salvem-me’ não nos trás uma idéia inovadora, porém, o que faz deste filme peculiar e digno de ser visto é a enunciação não toda dita neste trabalho. O querer falar de Gayle ocultava verdades de seu desejo que não poderiam ser expressas, pois revelariam o conflito que potencializava as suas ações. Havia um sentimento de culpa que a atormentava e mobilizava os seus atos naquela instituição.  Para abordar este sentimento é válido comentar sobre o Ideal do eu e Supereu que afligiam aquelas pessoas. O ideal do eu se constitui na relação com um outro falante que impõe um modelo a ser seguido pela mediação da palavra. Para que o sujeito se submeta às imposições religiosas é preciso integrar-se a um grupo previamente identificado com o líder. O significado passa a ser compartilhado entre aqueles que glorificam a figura de autoridade. O sujeito é capaz de silenciar os seus questionamentos internos quando movido pelo sentimento de culpa e pela necessidade de punição. O Supereu pode ser entendido como um tu fundamental capaz de escravizar o sujeito com proibições obsenas e severas. Afirmar a culpa no outro é estratégico para afastá-lo de iniciativas em relação à seu desejo, é aliená-lo da possibilidade de satisfação. Estas noções mobilizam o saber religioso e durante décadas tem fundamentado a sua existência. É um ato que se sustenta na linguagem e na fala daqueles que pedem “salvação”.


Portanto, “Salvem-me” retrata o desejo daquele que quer falar e os diversos discursos que se articulam como tentativas daqueles que querem ser ouvidos afim de expressar o descontentamento e não-completude de suas próprias vidas. É um desafio que enquanto nos faz questionar o saber imposto pela autoridade religiosa, confirma que há um dizer a mais no enunciado daquele sujeito que fala.

Até logo,

Renato Oliveira

23 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Um filme muito sensível, gosto da abordagem dele que permeia entre o sensível e o polêmico. Muito bem abordado por ti aqui!

Já comentei dele tem um tempo, abraço!

Valéria Sorohan disse...

Oi Renato, mais um belo filme, as imagens são muito bem escolhidas. Dá sempre vontade de ver, e vou pode apostar.

BeijooO*

Ábia Costa disse...

Oi Renato, como estás!
Mininu...que filme é esse? preciso assistir urgentemente,rsrs,
a excelente proposta é mostrar o quanto a religião é manipuladora e escravisa o que somos, nos agride em nossas opiniões, formas de pensar.Odeio religião,sou atéia sabe neh? rs

Gostei muito de sua análise, e a cada dia me torno mais sua fã.
Fiquei feliz ao ver que vários dos meus amigos já são seu seguidores, faço propagando do blog descaradamente,heheheheh

bjinhus querido, continue assim

PS: Kafka, Dostoiévski, Rilke, Schopenhauer, Nietzcsche,rsrs...se vc lembrar de mim toda vez que ver um autor que eu gosto, vai ser automática a minha imagem em sua menta ao entrar em uma livraria,hahahahah

besos

Penelope... disse...

eu que não sou fã de filmes, pois não consigo ficar parada tanto tempo, fiquei com vontade de ver.
Tá anotadinho o nome, assim que eu tiver um tempinho, assisto!!

Não sei como cheguei aqui, mas gostei do blog!!


Bjos!

Évelyn Smith disse...

Olá Rentato,

Eu respeito todos os tipos de crenças e culturas. Gosto muito de entrar em alteridade, em empatia com o próximo e não tenho problemas com outras opiniões que divergem da minha! Sou uma pessoa muito religiosa e sigo o Catolicismo. Mas estou aí, aberta a novos conhecimentos sempre, claro!

Pois é, as faculdades mudam muito... Embora as minhas matérias sejam quase iguais as suas. Aqui não tem muita prática... Mas agora a minha faculdade entrou com um novo processo e finalmente teremos mais práticas! Se não, as práticas começariam somente no quinto semestre, acredita? Isso dificulta muito o nosso aprendizado, pois sem prática não tem como você entender a aplicação, de fato. A teoria é muito fácil... Conheço pessoas que sabem tudo, tudo das teorias, mas na hora de praticar numa situação do cotidiano elas não sabem como agir. Por isso eu procuro outras fontes, como trabalhos voluntários. Eu faço um no hospital, me visto de palhaça e vou visitar os enfermos. Percebo muita coisa que aprendo em sala de aula e tento colocar sempre em prática nos momentos de abordagem com os enfermos. Gosto de levar o conforto aqueles que precisam também, a nossa sociedade atual é muito mesquinha em relação a sentimentos para com o próximo. Tem também os estágios remunerados, eles são muito bons para colocar a teoria em prática.

É isso. Tudo de bom pra você e até breve!

Beijos,
Évelyn

Franck disse...

Não conhecia o filme, lendo seus comentários sobre o msm, dar vontade de ir na locadora mais próxima e se instalar na poltrona...farei isso nesse fim de semana, espero encontrá-lo!
Boa dica! Obg por ter passado no 'poemas, chicletes & som'...
Abçs!

Nathi Delacroix disse...

Tu não toma jeito!

Eu fico o tempo que for sem vir aqui e quando venho, SEMPRE me surpreendo.

Putz! Como sempre discorrendo perfeitamente, Renato!

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, tu como sempre apresentando a nós, filmes excepcionais heim?
Esse parece ser um dos vários, rs.
Ah menino, na próxima eu atualizo primeiro ahahahha
Eu tava numa correria, com num outro projeto tbm, aí estou tendo q dividir minha atenção com o blog e esse outro projeto, rs.
Acho q em Setembro, se quiser fazer propaganda pra mim fique a vontade viu? rs
Brigado por ter votado, rs
Bjo menino

Erica Vittorazzi disse...

Renato querido, como você é incrível e escreve lindamente. Lendo este texto, não saiu da minha mente o quanto o desejo está ligado à linguagem (de um modo geral) e ao tentar silenciá-lo fingimos que ele não está lá. O nosso eterno Lacan já dizia: 'Eu sou aquilo que escapa dos significantes.' E o que nos escapa, seria este desejo encoberto?

Ah, religiões. Um grande dilema na psicologia. Sempre foi uma questão para mim, e queira ou não, ela nos influencia muito nas decisões de abordagem. Não enxergaria uma pessoa Junguiana que não acreditasse em uma alma coletiva. Mas, há espaço sempre para uma boa conversa.

Talvez, o inferno seja o nosso próprio superego?

Beijos

M. disse...

Oi Renato! Eis mais um filme que eu não conhecia! O título dele condiz com todo o enredo. Gostei muito da sua abordagem. Taí algo que nos leva à reflexão.

Erica Ferro disse...

É realmente inquietante ter que reprimir o que se sente pelas "regras do ambiente". É o próprio inferno. Algo que me intriga e me deixa a refletir sobre muitas coisas.

Dá vontade de ver todos os filmes que você indica aqui.

Um abraço.

Insana disse...

Gosto de filmes,
ainda mais os que deixa à mensagem.

Bjs
Insana

Leca disse...

"...Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
Sem nos dar braços para os alcançar?!..."
Lindo né...é Florbela Espanca...
Que flutua no meu blog...
E espera por você...
Beijos...
Leca...

Dica de filme anotadíssima

Gorete . SoLua disse...

"Eles acreditavam que o significado da vida poderia ser exclusivamente descoberto em uma experiência individual com Deus"

E quantas acreditam nisso?! Polêmico...
Cada um tem a sua crença, até o ateu!

Excelente seu texto

Doce beijo :)

Madalena disse...

querido.pq vc insiste em manter uma linguagenzinha feminina aki? mude o visual q eh beeem feinho neah?

Richard Mathenhauer disse...

Interessante seu comentário. Não conheço o filme, mas certamente é uma boa indicação.
Abraços,

Valéria Sorohan disse...

Olha eu aqui de novo, agora para te avisar que, estou de casa nova e espero sua visita, meu endereço agora é

http://rasurassobreviventes.blogspot.com

BeijooO* te aguardo!

jefhcardoso disse...

Renato, faz tempo que eu não vinha aqui e, hoje, estando aqui, vejo que a qualidade com que trata os filmes só tende a evoluir.
O filme me pareceu sensível e intenso e ao mesmo tempo gerador de inquietações, polêmicas.

Parabéns,cara! Seguirei a sua dica. Obrigado!

Abraço do Jefhcardoso

Carolina disse...

Que pena que já é domingo, queria buscar este filme na locadora... queria ver. Me empolguei, atiçou a minha curiosidade.

bjão e boa semana!

Carolina disse...

Que pena que já é domingo, queria buscar este filme na locadora... queria ver. Me empolguei, atiçou a minha curiosidade.

bjão e boa semana!

Me permita disse...

Oi, amigo!

Como vai? As fotos são do filme "O amor Acontece".

O tempo não me deixa estar sempre por aqui... Mas, apesar das minhas demoras, não deixo de vir aqui, te visitar e apreciar as tuas postagens tão interessantes... Abraços

Mariana Anconi disse...

Olá Renato!

Nossa, passei um bom tempo por fora do mundo dos blogs (até do meu!) devido as obrigações acadêmicas. Mas, enfim, acabei não lhe respondendo qual o tema de minha monografia: "A influência dos pais na estruturação da Psicose na criança". Gosto muito de estudar sobre a psicose e o infantil! Você já viu aquele filme, "Peacock"? Estou querendo assistir, parece que fala sobre psicose.
Bom, seu blog continua muito bom, admiro muito a forma como vc escreve.
Abraço!!

Anônimo disse...

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