28.8.10

Imagens inefáveis

Felicidade é sinônimo de memória fraca. 
Quem já ouviu falar disso? Percebam que muitas vezes a infelicidade é relacionada com a capacidade do sujeito de recordar-se de muitos eventos passados, pois são nestes que se localizam a dor, o trauma e a desilusão.

Estas idéias sintetizariam o filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” | Eternal Sunshine of the Spotless Mind - 2004 | do diretor Michel Gondry. O roteiro nos apresenta uma solução inédita para o sofrimento humano. Vejam, um suposto-pseudo-médico foi capaz de inventar um meio para aliviar todo o sofrimento psíquico: o Dr. Howard Mierzwiak | Tom Wilkinson | coordenava um instituto que prometia curar as feridas do coração. O seu método consistia em deletar todas as lembranças relativas à vivência com um outro. Era um modo de tornar o outro desconhecido. Neste trabalho, os interessados passavam por uma triagem introdutória e logo após o procedimento se iniciava.


Este método se tornou conhecido para Joel Barish | Jim Carrey | ao constatar que Clementine Kruczynski | Kate Winslet | havia recentemente passado por este procedimento, e do qual, nada mais lembrava. Ele foi impactado ao saber que a história de vida construída junto a ela deixou de ser acessível em sua consciência, pois todas as lembranças relativas à ele haviam sido deletadas. Foi o conhecimento desta situação que o levou a buscar esta clínica e impulsivamente aderir ao procedimento. Assim, após a sua conclusão satisfatória, ambos nada mais saberiam sobre a existência do outro. 


Recordar é viver? O filme nos faz conhecer a história de Joel e Clementine a partir dos traços de memória presentes em Joel que gradualmente iam sendo apagados. O procedimento e a técnica podem ser ficção, mas o afeto era real, sendo mobilizado pelo desejo de não querer saber que o outro um dia existiu. Era mais que um meio para aliviar a dor, tratava-se de um modo de constatar a inexistência deste outro, torná-lo desconhecido. Se o problema da infelicidade humana encontra-se nos registros de memória, o esquecimento destes é tido como uma chance para um recomeço.

Na tentativa de recomeçar e de apagar lembranças, Joel encontrou um novo modo de relacionar-se com elas. O procedimento ocorreria durante algumas horas de sono nas quais os técnicos controlariam o andamento do processo enquanto o paciente revivenciaria aquelas lembranças pela última vez, a começar pelas mais recentes. Era uma promessa de uma nova vida. A relação entre Joel e Clementine retrata a dificuldade do sujeito em lidar com o impacto da diferença no outro. A princípio, eles estavam IDEALIZADOS PELA IMAGEM e foi na vivência que puderam constatar que este semelhante era possuidor de características que não lhe agradavam. A idealização inicial abriu espaço para a desilusão em virtude do não saber relativo ao outro, apontando a grande dificuldade de lidar com a frustração. Parecia impossível reconhecer “você é deste jeito”. 


Os laços entre Joel e Clementine justificam o poder da imagem em fixar memórias. Durante o procedimento, nos pensamentos de Joel se localizavam: as memórias + a interação com estas lembranças + as falas daqueles presentes no ato, que surgiam como um outro-invasivo, como uma fala terceira. Joel interagia com suas próprias lembranças, ele discursava com Clementine sobre o lugar de seus próprios desejos naquela situação, deparando-se com o pânico de perder aquelas lembranças que o fez batalhar junto à Clementine para que o procedimento não se concluísse com êxito. 


Uma loucura, não é mesmo? Este filme apresenta a função da imagem no psiquismo. Ao afirmar a divisão do sujeito, Freud aponta que a identidade de uma pessoa não é completamente pautada na razão, localizando um outro lugar que se constrói a partir das experiências, um lugar de memória não acessível à consciência. O Inconsciente é atemporal e ilógico, e nele se encontram verdades do sujeito que de algum modo querer ser faladas. Uma fala que pode ser conhecida, e que no sonho, no sintoma e nas trocas de palavras se faz dizer algo. É algo que escapa e por meio da linguagem revela algo do desconhecido e do recalcado. Portanto, a relação analítica é uma experiência de fala, de permitir-se falar sem impôr censura à si próprio, buscando uma nova compreensão aos sintomas e às repetições da vida cotidiana. Logo,  o sujeito não mais precisa pensar para existir, sua existência não se fundamenta na sua razão, mas na des-razão. 

A vivência de Joel e Clementine deixou marcas que determinavam a condução de seus dias. O querer desvencilhar-se delas foi uma tentativa de curar a dor da frustração e da saudade do outro. Todavia, o desconhecido afastado ainda é capaz de provocar seus efeitos. Algumas memórias podem ser deletadas, mas a existência do sujeito permanece. É a certeza de estarmos vivos que nos permite apropriarmos de registros novos e nos sujeitarmos à seus efeitos.

Super abraços, 

Renato Oliveira

29 comentários:

M. disse...

Oi Renato,

“Brilho eterno de uma mente sem lembranças” é um desses filmes imperdíveis. A história é muito boa. Sua análise informa ao leitor de maneira interessante a relação dessas personagens. Um abração e ótimo fim de semana.

Franck disse...

Vc consegue fazer uma análise sempre tão contundente dos filmes que dá vontade de ir na primeira locadora e pegá-los...
Abçs!

@Raspante disse...

Nem sei o que dizer, você já disse tudo, hahaha.
Mas, este filme é mesmo ótimo, muito bem feito e por mais confuso que possa parecer, você consegue entender toda a história. É, ótimo ver Jim Carrey em papéis que não sejam aqueles abobalhados de sempre.
Ótimo filme!

pseudo-autor disse...

Eu fico imaginando o que seria do mundo se pudéssemos simplesmente deletar nossas derrotas. O que seria de nós como sociedade? Uma nação de vitoriosos? E fazer o quê depois com isso?

Deia disse...

Oi Renato!!! Sempre uma análise brilhante!! Acho que já senti vontade de apagar memórias, mas sinto que ao longo dos anos fui aprendendo a aproveitar o que de bom vivi em cada situação - mesmo as que não aparentam possuir nenhum significado bom, são ricas em aprendizado. Fiquei curiosa para ver o filme! Um beijo, Deia.

Sogno Inespresso disse...

Devo confessar que tu afloraste a minha curiosidade! Adoro tuas descrições =]

Abraços

Juci Barros disse...

De certo modo me parece algo como a sensação que temos ao ver um rosto e saber conhecê-lo mas não recordar de onde, o seu nome, sobre que circunstâncias tiveram algum contato.
Sempre que venho aqui me surpreendo com o enfoque que você consegue dar ao que nos passa desapercebido. Parabéns!

Évelyn Smith disse...

Olá caríssimo Renato!
Pois é... É bem capaz de você ler aquele mesmo post algumas boas vezes, viu. Estou sem tempo de atualizar. Tenho um milhão de coisas para estudar e mais ainda de trabalhos para fazer. O pior de tudo é que não tenho tempo de colocar meu plano em prática. Fiz este blog com a intenção de escrever mais sobre a minha teoria mal formulada... Acho que o blog seria uma forma de colocá-la em ordem. Mas o que tenho até agora são 3 anos e pouco de "oblivion" e nenhum "blurry" concreto, e muito menos um "blurry oblivion".
Ok, agradeço pela boa vontade! Deve ser hilário mesmo este vídeo do Rogers, não consigo acreditar nisso...
Ah! Igualmente, parabéns atrasado! Ontem foi o nosso belíssimo dia. Mas por enquanto sou uma mera estudante. Quanto mais aprendo menos sei.
É isso. Tudo de bom pra você e até breve!

Beijos,
Évelyn

Rodrigo Teixeira disse...

Cara, esse filme é tão atualmente eu... é lindamente triste, mas é tão bom.
bah.

Ábia Costa disse...

Caraaaaaca Renato, eu sou simplesmente APAIXONADA por esse filme, e vc vem escrever uma análise sobre ele, nem preciso dizer o quanto sou sua fã neh?

saudade de vc mininu...
boa semana pra vc tbm
bjus

LuH disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LuH disse...

Olá!
Gostei do tópico e da exposição que vc fez acerca dele.Gosto mto do seu espaço.

Fico imaginando como seria se pudéssemos deletar as nossas frustrações, e isso, sinceramente, é triste!

O pior que não estamos longe disso, caminhando a sociedade na efemeridade que está...

Existem neurocientistas trabalhando com estes experimentos já e eu, talvez ainda na minha pouca experiência, não consegui visualizar um bem para a humanidade aí.

Entrar em contato com todo tipo de emoção é que nos torna humanos. Para mim, há algo maior que a linguagem e o pensamento, ditos algo sofisticado e próprio do homem; há os sentimentos.
Sentimentos é o que nos torna "reais", ou, mais próximos de uma verdade humana. Nossa condição exige um contato com eles, senão, seríamos apenas máquinas.

Enfim, posso estar sendo simplória, mas creio naquela frase poética que diz:
"Se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi!"

:)
Abç




*
http://metamorfosesdaalma.blogspot.com/2009/05/o-importante-e-que-emocoes-eu-vivi.html

Erica Ferro disse...

Ótima análise, como sempre, Renato!

Não acredito nesse ditado "Felicidade é sinônimo de memória fraca."

Na minha opinião, se é feliz quando se consegue superar os traumas que adquirimos ao viver.
Esquecer é covardia. Sem falar que é impossível esquecer qualquer coisa, a não ser com traumas físicos na cabeça e enfim...

Abraço!

complexxos disse...

Olá Renato,

nem preciso dizer o quanto está crítica está ótima!

- uma outra perspectiva de um filme bastante interessante!

<3

Srtª Poulain disse...

OI
ESSE FILME RETRATA UM DOS DESEJOS HUMANOS QUE É ESQUECER O QUE NÃO FOI BOM, OU RECOMEÇAR DO ZERO, MAIS O MAIS MARCANTE DO FIKME É A CUMPLICIDADE DO CASAL, QUE REALMENTE CONTAGIA...
SUAS ANÁLISES SÃO ÓTIMAS...
ABRAÇOS

Valéria Sorohan disse...

Interessante o tema do filme, gostaria às vezes de ter uma memória fraca, como a de Clementine.

BeijooO*

Zé alberto disse...

Olá,

Renato, ando para aqui tão atarefado, que aínda não tive o sossego suficiente para parar e ler o seu texto com olhos de ver.
Vou ver se hoje me sento uns minutos em frente ao computador, pois aprendo muito com o seu saber, é mto estimulante para mim, poder ler a sua escrita.

Abraço!

Insana disse...

Belo texto

bjs
Insana

Erica Vittorazzi disse...

Renato, sofremos de reminicências... só disto.


Por isto , a análise para dar um outro sentido a lembrança.


beijos

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato,

O "apagar" seria uma maneira interessante de treinarmos o saber lidar com as diferenças interpessoais. Os relacionamentos poderiam se tornar mais fáceis e, consequentemente, poderíamos ser mais felizes.

Beijos,
Obs.: Deixei um comentário no "O desejo não tira férias".

Zé alberto disse...

Olá Renato,
Acabei de ler o teu texto, é uma analise cuidada, como sempre, sinto-me um felizardo por ter acesso aos teus conhecimentos de psicologia/psicanálise aplicados em casos práticos.
Relativamente ao apagar da memória, espero que os colegas não me batam :) mas acho que o "Crime e Castigo" do Dostoievsky serve também para nos mostrar o reflexo positivo que o sofrimento, a culpa, pode gerar na mente dum ser humano,tornando-o melhor, fazê-lo procurar em si o caminho da redenção. Isso só foi possível, no caso de Raskolnikov, através da vivencia póstuma que a memória permite.

Abraços!

Gabi Spears disse...

OLááá obrigada pela visita no meu Blog!Eu estava sem postar nesses ultimmos tempos, por causa do vestibular... a pessoa fica meio "louca" kkkk'
Mas enfim, vi no teu perfil que tu faz psicologia!
É o curso que eu pretendo fazer
*-------------------------------*
Me dá o teu e-mail!

Dil Santos disse...

Oi Renato, tu tá bem?
Menino, seria massa se pudéssemos apagar algumas memórias né? Mas parando e vendo a situação de forma mais séria, seria uma tragédia isso ñ é?
Ótimo texto como sempre menino.
Pois é menino, tava sumido mesmo, rs.
Eu tô bem sim, ansioso para as férias, viajens e tudo mais kkkkk
Abração querido

Tatá disse...

quero demaaaaaaaais assistir este filme!
*.*

Maria Regina disse...

Este filme é um dos meus preferidos. Algumas passagens são geniais, como a que ele tenta guardar a lembrança dela na sua infância, e ela se confunde e se passa por sua própria mãe. Para os amantes da Psicanálise uma passagem com riquíssimo contéudo.
Gosto muito do seu blog!
Um abraço

Zélia disse...

Olá! Te descobri no blog da Deia e vim parar aqui.

Teu texto é muito bom! O filme é, realmente, uma loucura. Mas loucura é tudo que fazemos para fugir de coisas das quais não podemos escapar.

Voltarei! ;)

Adriano Mariano disse...

Ah, bom conhecer o dono do blog! hehehehe... Obrigado pela visita e pelo coments, Renato!

E seu blog, heim!? A-do-rei a proposta. Sou viciado em cinema, e esse filme - deste post - é um que me marcou demás!

Espero você mais vezes lá pelas minhas bandas, ok? Citarei seu blog assim que eu escrever algo sobre cinema!

Forte abraço!

Marcio Nicolau disse...

Achei um tanto confuso este filme, quando o assiste há um tempo. No entanto, gostei da tua abordagem aqui.
Se possível fosse deletar memórias, te digo: certamente não me submeteria a tal. Creio que se, por um lado, não se pode viver do passado, por outro, também não se pode negar que nos dizem muito as lembranças, mesmo as dolorosas (sobre nós mesmos, nossa trajetória e experiências).

Parabéns pelo blog.

Um abraço.

Anônimo disse...

Clementine está sempre presente na minha vida (talvez pelo desejo reprimido que pintar o cabelo de roxo ou azul).
Eternal Sunshine of the Spotless Mind!
É um desejo constante em minha vida. Apagar tudooo... começar de novo. Mas o filme em si já demonstra que os traços minemicos podem até ser apagados, mas o quantum de libido deslocada, recolocada, desalojada... não.
Isso me faz questionar Lacan. Mesmo que os significantes desapareçam, a energia movimentada por ele permanece, e aí vira uma bagunça, um signo sem significante. Novas associações, novas cadeias de pensamento teriam que ocupar o lugar daquilo que foi perdido. Mesmo assim a idéia me agrada.