6.10.10

A criatividade é azul

Um luto que não será vivido de preto. Não haverão velas, mas sim uma atmosfera composta por água, e o preto será substituído por AZUL. Não se trata de uma nova tendência, mas de um roteiro que, com grande sensibilidade, apresenta um modo diferenciado de elaborar a dor da perda do outro.


Trata-se aqui da trilogia que o diretor Krzysztof Kieslowski realizou a partir das cores da bandeira da França. Hoje será apresentado sobre uma liberdade que se mostra azul | Bleu – 1993 | e que destaca um modo peculiar de relação com a falta de um ser querido. Em virtude de um acidente de carro, Julie | Juliette Binoche | perdeu seu esposo e sua filha. Ela foi informada deste fato apenas quando encontrava-se numa clínica de recuperação, dias após o acidente. Julie, ainda internada, tentou suicídio, sem sucesso. E foi assim que novos sabores e tons seriam capazes de preencher aqueles próximos anos. Nós observamos que após a saída daquele hospital, Julie adquiriu uma nova postura diante dos fatos de sua vida. Ela vestia-se de preto, mas o significado era outro. Seria um recomeço, e o diretor nos apresenta o lugar de uma mulher que sabia como se orientar naqueles próximos tempos. 


Estive pensando que a arte pode ser feita conforme o querer do artista, pode ter o formato e a cor que ele assim desejar. O que vemos aqui é a singularidade do pintor que nos apresenta elementos simbólicos e a vivência de um luto em uma atmosfera fria. Algum tempo após o acidente, Julie retornou a sua casa e se desfez de inúmeros objetos que pertenciam a seu esposo, inclusive das partituras de um célebre trabalho que ele vinha desenvolvendo para a celebração da Europa. Os seus próximos dias também não seriam mais vivenciados ali. Contudo, houve algo que a atraiu. No quarto esvaziado restou um lustre azul e foi este objeto que ela levou consigo. 


Julie replanejava a sua vida. Os seus afetos e motivações aparentavam estar dissociados do fator traumático. Surge a questão: o acidente foi um fato traumático? Percebam que socialmente era esperado uma postura dela. De algum modo Julie deveria apresentar-se enquanto a mulher viúva que em luto, choraria pelo esposo e filha perdidos. Isto não aconteceu. Há uma cena interessante em que ao observar que a funcionária chorava, Julie questionou-lhe: “Por que você chora?”. É dito-lhe: “porque você não está chorando”. 

É válido enfatizar que Julie relacionava-se com a perda a partir de seus conteúdos internos. O sofrimento, a falta e principalmente a dificuldade em simbolizar e dar sentido para aquele fato era existente, o que diferenciava, neste caso, era o seu modo de se relacionar com esta situação. Parecia que a vida não mais possuía, em si, um sabor. Ela não conseguia encontrar-se com a criatividade que lhe era própria. Seria necessário elaborar psíquicamente o fato ocorrido afim de que suas ações não fossem meramente mecânicas e que o significado da existência e da liberdade pudessem ser encontrados. 


Diante desta noção acima, constatei e busquei compreender a função da água presente no roteiro. Durante a história, Julie mergulhou quatro vezes numa piscina azul ofuscante e, em cada uma delas, os seus movimentos e o seu modo de relação com aquele espaço eram diferenciados. A piscina era a mesma, mas os conteúdos internos de Julie, não. Algo se modificava conforme ela gradualmente interagia com este espaço. No terceiro mergulho, perguntaram-lhe: “você está chorando?”, Ela diz: “não, é água”. Afinal, por que ela precisaria chorar? A imersão tinha um significado, e certamente representava sua necessidade em sentir-se submersa à uma condição interna que lhe permitisse elaborar o luto. Mas vai além disso. Pensando a partir dos trabalhos de D. W. Winnicott, podemos compreender aquela piscina enquanto um Espaço Potencial que lhe possibilitava não somente elaborar a perda, mas a capacitava para um encontro consigo própria, através da busca do self. É este encontro que é possível quando o sujeito se relaciona com um espaço no qual há espontaneidade afim de que ele possa criar. Nestas condições, o brincar acontece.


No caso de Julie, tratava-se de uma oportunidade de reencontro: consigo própria, com seus valores, desejos e acima de tudo: com o seu potencial criativo decorrente da liberdade em poder manifestar os seus conteúdos internos. Na piscina, o choro poderia ser manifesto, o brincar ocorreria e não seria um olhar do outro que reprovaria tal iniciativa, ali Julie vivenciava uma EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE que a faria constatar que a vida ainda tinha um sabor. A certeza de que, após a destruição é possível reparar o que foi devastado é fundamental para que a existência do sujeito aconteça. Julie encontrava este espaço no silêncio e na incomunicabilidade com um outro. O silêncio pode ser tido como um espaço para brincar, tornando-se um meio facilitador para o encontro com as suas verdades. Para Julie foi preciso o encontro com o único elemento que não possui sabor, cheiro e nem cor para elaborar uma tentativa nova de ‘dar vida’ à passagem daqueles dias. Julie vivenciou a rica experiência do brincar, ela imaginariamente coloriu a piscina de azul. A liberdade que aquela piscina apresentava lhe autorizava a ser criadora, permitindo-lhe compreender o significado da sua existência. 

Abraços à todos,

Renato Oliveira

26 comentários:

Ká ou Kaká. disse...

Adorei seu blog. Tbm sigo o blog da Erica Vittorazzi e sou psicóloga. Bjos.

koisascomka.blogspot.com

alan raspante. disse...

Ontem mesmo estava falando deste filme, achei-o para locação e já estava planejando alugar a trilogia para semana que vem, hehehehe. É, eu de vez em quando planejo locações de filme! ...

Muito boa sua análise, não sei porque, mas por algum motivo esta foi a análise que eu mais senti psicologia envolvida com o filme, não sei explicar. Apenas tive a impressão, hehehehe

...abs.

Franck disse...

Boa escolha...assisti a trilogia, e, adoro Juliette Binhoche, uma das minhas atrizes preferidas!
Abçs!

Insana disse...

"Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças"
Charles Darwin


Bjs
Insana

Ana Lúcia Porto disse...

Pois é, até que ela usou a cabeça...

Renato, espero que esteja tudo correndo bem para você.

Beijos,

M. disse...

A Juliette Binoche é uma atriz e tanto. Sua análise foi maravilhosa! Um grande abraço.

disse...

Falando em criatividade é o que não falta aqui no seu blog, fiquei muito feliz pelo seu comentário no canal 1, já tem novidades por lá.
beijão

Maria Regina disse...

Eu adoro filmes franceses, em especial a trilogia das cores. A Liberdade é azul é uma obra-prima, dos três filmes é o meu preferido.

Um abraço

Mulher Asterísco disse...

Eu tinha pensado num "blue" como melancolia também...

Valéria Sorohan disse...

Você é um ótimo crítico, o jeito que escreve nos cativa e nos deixa com vontade de ver o filme. Deveria trabalhar em algum jornal.

BeijooO*

Erica Vittorazzi disse...

Renato, assisti há muito tempo a trilogia e sim, os franceses sabem fazer filmes complicados! :)

Você analisou brilhantemente este filme. Acredito que a sociedade tem medo de conscientizar que cada um tem um mundo interno e único, por isto cobra atitudes mecânicas e iguais de todo mundo.
Cada pessoa tem um modo de reagir e elaborar o luto. Tão necessário!


Beijos mil

Juci Barros disse...

Lembrou-me a expressão "tá tudo azul" que usamos para os dias bons.
Beijos.

Ábia Costa disse...

Renatoooooo... como sempre perfeito, e me despertou a curiosidade, com certeza assistirei este filme...e nossa! isso que dizes é muito verdade:"O silêncio pode ser tido como um espaço para brincar, tornando-se um meio facilitador para o encontro com as suas verdades."

bjus pra ti moço

sonia disse...

Bom dia,

Alguns livros e filmes, nos faz refletir sobre o que somos, queremos, e esperamos da vida.

abraço fraterno, sonia.

Carolina disse...

Eu gostomuito desta trilogia, me deu vontade de rever.
A relação com água tem um forte contexto libertário. O corpo nu ( ou quase nu),a imensidão,a energia da água,o efeito de com a água nos "limpamos" e o relaxamento em si que nos faz descontrair e deixar fluir o que de mais fundo habita em nós. Me sinto assim, tanto no mar como num banho,sabia?

O que me chamou a atenção neste filme foi que ela descontruiu a idéia de tristeza tradicional.

Belo post!

bjão

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, vc como sempre com indicações fantásticas.
Menino, adorei teu comentário, kkkkkkkk
E é lógico que terá parte II, III, IV..., kkkkkkkkkkkkkk
Eu já tenho algo em mente, mas devo postar a parte Ii talvez semana que vem, tenho q colocar em dia o blog, tem muito comentário pra responder, além do mais eu já tenho outra postagem pronta pra essa semana, rs.
Tu tem orkut? depois me add, no blog tem o link.

Bjo menino

Rodrigo Mendes disse...

Grande filme Renato, de fato a trilogia é espetacular, como Decálogo.

Meu favorito ainda é a Igualdade é Branca.

Binoche está incrível neste filme. Mas acho que sua melhor performance é na fita de Malle: Damage.

Abs.
Rodrigo

Évelyn Smith disse...

Olá caríssimo Renato! Como vai?
Finalmente um feriado, logo, finalmente um tempo para atualizar o meu blog. Aproveitei para ler a sua resenha mais recente e goste muito, como de todas as outras. Essa tal liberdade que a personagem desencadeou na piscina, correlacionando com Winnicott, foi extraordinária. Não entendo muito sobre as teorias dele, mas pelo pouco que sei pude entender.
Depois me conte sim as mudanças que virão por aqui. E eu não tenho Twitter, por isso não posso segui-lo.
Então até mais ver! Tudo de bom pra você!

Beijos,
Évelyn

Esconderijo do Observador disse...

Gostei do seu blog. Parabéns.
Um beijo do Observador.

renatocinema disse...

Essa trilogia é linda, mágica e poesia pura. Amo as 3 histórias. Abs

Mazane disse...

Gostei muito da interpretação deste filme, fiquei com vontade de vê-lo novamente!!!

Paula Figueiredo disse...

Muito bacana a sua interpretação Renato! Identifiquei-me muito e digo-lhe que vivencio agora eu mesma um processo de luto por uma perda, só que não a de um ser amado, mas a das imagens que tinha desse ser amado e até a superação das imagens que tinha de mim mesma. Senti por vezes a mesma apatia, mas fui me reencontrando comigo através do fluxo das emoções que encontrei em minha escrita.

Há algo de irracional no que escrevo e isso é intencional. Busco o confronto.

Há, portanto, valores que estou aprendendo a descartar e outros que agora adquiro.

O seu comentário me remeteu ao fato de que o que agora aprendo a deixar morrer é sobretudo a fé no mito do amor romântico que "resolve" problemas e "pacifica" a existência. Nào creio que esse amor resolva nada.

Mas creio no amor transpessoal, como valor absoluto. Creio na tolerância, na superação do próprio ponto de vista, na elevação que a dor pode nos ajudar a alcançar. Creio no amor que é a profunda aceitação de si e do outro e, sobretudo, da natureza da vida. A morte existe e a gente não controla nada. Mas há o amor. E o sol vai nascer amanhã.

O bom é colocar o conhecimento e a ignorância nossos de cada dia a serviço de nosso crescimento. E o foco é o mesmo de Julie: a busca do Self.

Obrigada por sua contribuição que foi preciosa para que eu pudesse construir tantos novos sentidos!

E vamos confiar na vida, no amor e no Self! :)

Anna Amorim disse...

Teu texto está muito bem costurado!
É um dos meus filmes preferidos.
A trilha sonora aliada as cenas, as cores, a maravilhosa interpretação da atriz Binoche.
O tema do luto me interessa desde muito cedo, quando criança e segue agora como psicanalista.
Quero compartilhar com você o texto que fiz sobre "A Liberdade é Azul", está no meu Blog "Palavra de Mulher".

Beijos,

Anna Amorim disse...

P.S: Adorei o titulo da tua postagem.Estudo Winnicott e foi bem posto, usou tua criatividade.
No meu Blog o texto sobre o flime está em Marcadores,ok?

Até breve

Anônimo disse...

necessita di verificare:)

dadina disse...

sempre achei que a pscina representasse o útero e que era como se ela nascesse novamente. pq estou errada?