17.10.10

Sapatos e desejos em alta

Vamos falar de sapatos. Aqueles que acompanham o blog há algum tempo devem se lembrar que não é a primeira vez que este tema aparece por aqui. Em outro dia eu comentava que um sapato que não é somente um sapato, localizando este objeto num thriller muito querido por alguns. Hoje, o sapato reaparece. Pedro Almodóvar fez uso deste elemento junto a cores intensas para ilustrar uma relação ambivalente entre mãe e filha. Uma filha identificada com a mãe: foi a primeira percepção que tive. É a partir desta afirmação que será possível discutir sobre o lugar do feminino, conforme o diretor apresentou em “De salto alto” | Tacones Lejanos - 1991 |.


Enquanto aguardava o retorno de sua mãe em um aeroporto, Rebeca | Victoria Abril | relembrava alguns fatos de sua infância. Duas recordações merecem destaque: uma na qual sua mãe Becky del Páramo | Marisa Paredes | comprava-lhe brincos em uma feira, e outra na qual ela se encontrava trancada no banheiro, aprontando algo. Estes fatos eram de certo modo dolorosos porque localizavam o lugar de desvantagem de Rebeca diante da posição de sua mãe com as figuras masculinas. Rebeca era a “menina sem voz” que disputava a atenção de sua mãe com o lugar do masculino, o qual, desde muito cedo, foi apreendido com hostilidade.

Pois bem, voltemos à segunda lembrança: a criança que aprontava. Não tratava-se apenas da menina arteira, pois ao acompanhar a discussão de Becky com seu namorado, Rebeca resolveu facilitar as coisas para sua mãe, ela trocou comprimidos de uma embalagem à outra e possibilitou uma viagem sem fim ao padrasto. Aquele que impedia o desejo de sua mãe não mais atrapalharia suas vidas. Esse fato ainda era bastante nítido para Rebeca, mas até então, Becky nada sabia a respeito dele.


Mas quem era aquela mãe? Becky ilustrava o lugar da mulher desejante, daquela que é ativa em relação ao seu desejo. Ela buscava sucesso como atriz e cantora, e com passar dos anos o seu lugar se fez conhecido: ela tornou-se admirada por muitos, sendo referenciada enquanto alguém de valor.  Este reencontro entre mãe e filha marcaria uma oportunidade para a construção de novos laços, mas ainda assim as marcas do passado e os conflitos mais primitivos impactariam esta estadia. 

Ao retornar, Becky continuava a desejar o status que considerava merecedora. Conversando a respeito do período em que estiveram juntas, Rebeca lhe diz: “eu te odiava, mas até nesses momentos não deixava de te amar”. Esta ambivalência sustentava o amor pela mãe, a qual era tida como um referencial e também como um objeto ameaçador, pois apontava o lugar da mulher que era independente em relação ao que deseja.    


Uma contradição se mostra neste momento, contudo, o psiquismo admite estas duas condutas opostas, pois no inconsciente não há oposição, ódio e amor coexistem. Isto nos ajuda a compreender que mesmo sentindo-se rejeitada pela mãe, Rebeca também era capaz de amá-la e tê-la como um referencial. Trata-se aqui de um jogo simbólico entre a ausência versus a presença materna, e da possibilidade de Rebeca se ver no discurso que nomeava o desejo da mãe. Um desejo que ia além da própria filha e que relacionava-se ao anseio pela fama e ao masculino. Podemos supor que ao elaborar a ausência paterna e a castração, Rebeca se viu desprovida do falo materno, ou seja, sem lugar no desejo da mãe, a qual tinha inúmeros interesses além do exercício da maternagem. Sendo assim, a ilusão de Rebeca em ser participante deste movimento desejante não se sustentou.


Isto nos remete à dinâmica do desejo da histérica que se vê na condição de militar pelo ter. Ao constatar sua condição de faltante, ela busca ativamente assegurar o seu lugar junto a algum objeto que seja capaz de dar conta da angústia. No caso de Rebecca, isso era bastante evidente na relação com seu esposo. Após o casamento, ela ainda mantinha-se identificada com a mãe, de maneira que as humilhações infantis eram postas em ato (revividas) com o esposo, que afirmava: “ela aproveita todas as situações para me humilhar”.


Afinal, de que sapato se tratava? De um salto alto chanel colocado nos pés de mulheres capazes de agir em relação a seu desejo. Daquelas que não admitem um lugar de não-fala e se posicionam como militantes na busca pelo o que desejam.

Até a próxima semana, abraços.

Renato Oliveira

24 comentários:

Franck disse...

Adoro Almodovar, vejo tudo dele! Boa dica!
Qto ao 'Comer Rezar Amar', vi sim, uma fotografia bela, meio enfadonho na parte do rezar e alguns pecados, como dizer que brasileiro beija os filhos (homens) na boca...
Abç!

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Renato, fiquei feliz com sua visita... Gosto de seus comentários.

Quanto a este filme aí, nossa, que disputa!! Pior, entre mãe e filha...

Beijos e que sua semana seja muito boa...

E.Suruba disse...

Almodovar =}

M. disse...

Oi Renato!!!! Que texto maravilhoso! Quando vi esse filme pela primeira vez eu sentia nitídamente esse conflito entre Rebeca e Becky. E você com esse seu discurso ao nível de "Análise" é que nos faz clarear tudo a respeito dessas intrigantes personagens.

Sexta-feira em minha cidade estive pessoalmente conversando com o diretor espanhol Vicente Aranda, mas durante um colóquio do diretor com o público ele falou que o filmes dele são muito freudianos. Então, gostaria de saber se você já viu mais algum filme do Vicente Aranda? Eu só vi dois: "Carmen"(2003) e "Luna Caliente"(2009).

Ah, Almodóvar é tudo, também não é?! Fico no aguardo do próximo filme do Almodóvar aqui no Cine Freud. Posso te fazer uma pergunta: Posso publicar seu texto (claro, depois que você postar outro) lá no Sala Latina? Citarei a fonte e divulgarei seu blog lá. Quem ainda não leu aqui, nesse espaço maravilhoso, lerá lá.

Bem, escrevi demais por hoje! Um abração e ótimo domingo.

Mulher Asterísco disse...

Sim, sapatos são tudo!!!

Mulher Vã disse...

É sabido que, entre mãe e filha [principalmente se for primeira filha] existe um desconforto competitivo e ao mesmo tempo identificação, quanto mais se parecerem mais competirão.

Esse já ta anotado, verei sem duvida.

E queria saber se voce já escreveu aqui sobre alguma obra de David Lynch, especialmente do longa "Cidade dos sonhos"
-

Gostei demais daqui, voltarei sem duvidas. ;)

Beijo

Valéria Sorohan disse...

Parece ser bem interessante. Me agradou.

BeijooO*

Zé alberto disse...

Olá,
Renato, li no outro dia a tua análise anterior, sobre o filme "Blue" do Kieslowski, em que tu tão claramente dás a entender, se bem percebi, que é o "livre arbítrio" que está em causa na conduta da personagem principal após o falecimento do companheiro e sua filha.
Que é da liberdade que a personagem principal concede a si própria para viver "o seu luto" pelos familiares mortos.
Nas palavras que deixaste no meu blog, referes as narrativas mitológicas...sim, tens razão, pois essa é a matéria que mais me seduz, nos livros dos meus escritores favoritos, nomeadamente na portuguesa Agustina Bessa Luís, de que estou a postar alguns pensamentos, no blog "Cenas Gagas".

Grande abraço!

disse...

Olá!
Muito obrigada pelas visitas no canal 1, fico muito contente :D
Esse filme parece ser bem legal, gosto do jeito como você "esmiuça" a mente das personagens.
Beijão

Erica Vittorazzi disse...

Eu queria passar um dia na cabeça do Almodovar. Adoraria saber o que se passa lá dentro. Não conheço este filme, ainda.

Freud, acho que foi ele que disse, que o primeiro amor das mulheres é homossexual, nossa mãe. E vamos do amor ao ódio, ou ao ódio ao outro que nos rouba este primeiro amor. Por isto, nós mulheres somos mais histéricas ou histriônicas, como preferir...


beijos, Rê

Juci Barros disse...

Até a próxima com certeza!
Beijos.

renatocinema disse...

Almodovar é gênio; espetacular; magistral. No cinema poucos possuem seu talento. O meu predileto é Matador. Mas, gosto de todos.

O seu único trabalho que me decepcionou, e não foi cinematográfico, foi no campo literário. Seu livro "Fogo nas Entranhas" é bom. Mas, confesso, que esperava algo nota 11.

Paula Figueiredo disse...

Apreciei cada momento da leitura deste seu texto. Refleti enquanto mãe e filha. Sinto-me capaz de buscar o que desejo, e realizo a cada dia esta "fala". No entanto, ser mãe me faz querer questionar meus desejos e aprender a observá-los passarem, não respondendo tão intensamente a cada um deles.
Devagar e sempre. ;) Adorei aqui. Adoro psicanálise e cinema! Casamento perfeito! Abraço! E vamos confiar na vida!

Tissia. disse...

É difícil mesmo se haver com seu desejo, com a "falta" que remete a castração e tudo isso que faz parte do sujeito "militante"...

Boa análise essa.

Abraços.

Tatá disse...

Já o assisti, mas não gostei muito, infelizmente. Porém, suas criticas, como sempre, são inovadoras.

Película Criativa disse...

Parabéns pelo blog!

Sou fã de Pedro Almodóvar. Acho que Tacones Lejanos foi um de seus melhores filmes e Marisa Paredes é uma excelente atriz, uma das queridinhas do Almodóvar, merecidamente.

Também escrevi um post com os melhores filmes do Almodóvar no meu blog. http://bit.ly/boP8Tt

Flor de Lótus disse...

Oi,Renato!Obrigada pela visita volte sempre.
Ainda não assisti esse filme do Almodovar,mas já fiquei curiosa para assistí-lo.
Uma ótima semana!
Beijos

★★ GIZA ★★ disse...

OLA
ADOREI SEU BLOG E ESTOU TE SEGUINDO
ME FAÇA UMA VISITA:
WWW.FLORDELOTUS29.BLOGSPOT.COM
ME SIGA. VOU ADORAR QUE SEJAMOS AMIGAS
BEIJOS

ROSANA VENTURA disse...

UAUUUUUUUUUUUUU!
Vim retribuir a visita, e me deparo com um Blog maravilhoso e interessantissimo!
Sim, exite vida na Blogosfera!
Ameiiiiiiiiiiiiiii!
bjossssssss

Nanda disse...

Olá! Vim te fazer uma visitinha e posso confessar? Eu não deveria ser 'Nanda', eu deveria ser uma centopéia, adoro sapatos!


beijos doces

Michele disse...

Vim agradecer sua visita e me deparei com esse texto interessantíssimo! Não conheço o filme, mas fiquei curiosa para conhecê-lo! Tenho uma certa paixão pela psicanálise!

Abraços!

Renato Hemesath disse...

---
Terminarei de responder os recados amanhã! Beijos

Anônimo disse...

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Zé alberto disse...

Olá,
Renato, cheguei tarde à leitura deste teu post, o trabalho, a disposição, nada tem ajudado, mas logo que ganhei forças de ânimo, dediquei os minutos que a leitura desta tua análise pressupõe.
Há pontos de vista que achei bem curiosos e novos para mim, formado em Semiótica, mas actualmente apaixonado pelas conclusões da Psicanálise.
Estou a lembrar-me, por exemplo, quando referes o "falo materno", sedutor conceito, pelo aparente paradoxo.

Os meus parabéns pelo aniversário deste teu maravilhoso projecto!!

Abraço!