9.3.11

Uma cruz a beira de um sonho

Há ocasiões em que cinema e farmácia podem ser agrupados com um sentido semelhante. Sabem aquelas drágeas e comprimidos grandes, terríveis de ser engolidos? Para alguns, estas cápsulas provocam tremendo horror, mas em condições de extrema necessidade não há como evitá-las. O filme que irei analisar possui um grande valor reflexivo, porém, assim como algumas drágeas, é difícil de ser ingerido. Deste modo, é válido advertir que toda e qualquer tentativa de ingeri-lo pode ser acompanhada de um moderado mal estar. Garanto-lhes que será suportável, pois a incômoda ingestão certamente será recompensada por um valioso aprendizado.


O diretor Fred Zinnemann aborda a respeito de um remédio que é utilizado na tentativa de aliviar o sofrimento humano. É sobre religião, desejo e felicidade que conta-nos o filme The Nun’s Story | Uma cruz a beira do abismo – 1959 |. A história de uma freira inicia-se com o rompimento de alianças. Gabrielle van der Mal | Audrey Hepburn | despedia-se de sua família afim de ingressar em uma nova jornada, os seus próximos anos seriam vividos em um convento, o qual a prepararia para exercer uma missão na Terra, que por sua vez, seria acompanhada pelo desejo em ajudar pessoas feridas física e espiritualmente. Ela seria conhecida como a filha do famoso Dr. Van Der Mal | Dean Jagger |. Contudo, para que este propósito de tornar-se freira se concretizasse seria necessário não somente disciplina, mas o rompimento com todas as lembranças vividas. Gabrielle estava disposta e decidida a percorrer o seu objetivo. Acompanhada por seu pai, ela dirigiu-se ao convento e após o fechar das portas, a sua vida não mais seria a mesma.


Neste novo local, Gabrielle morreu simbólicamente. Ela deixou de existir após receber sua identificação pelo número 1072 que a fez ser reconhecida por Sister Luke. O roteiro nos mostra os seus primeiros passos conjuntamente as demais jovens recebidas naquele ano. Dentre infinitas características que precisariam ser encontradas em uma freira, o silenciamento pode ser destacado como um dos propósitos principais. Sendo assim, para falar sobre a ilusão do ideal religioso será apresentado parte do cotidiano de Sister Luke em seus primeiros meses naquele convento.


Algumas madres superiores eram responsáveis pela coordenação e transmissão dos princípios religiosos às noviças. Dentre as formalidades que eram expostas em sala de aula, haviam dois princípios fundamentais: Interior silence e Pried self will. Era exigido das noviças, neste primeiro princípio, que se mantivessem caladas na maior parte do tempo, pois era preciso saber ouvir e silenciar-se internamente para uma melhor comunicação com o Sagrado. O tornar-se freira só poderia ocorrer mediante uma constante e inabalável luta para a auto-perfeição e uma vida de sacrifício que implicava batalhar contra a natureza pecaminosa. O segundo princípio diz respeito à destruição do amor próprio, do rompimento com todo e qualquer vestígio de orgulho. Era necessário trabalhar o desapego de objetos, pessoas e recordações. Na prática, esta segunda modalidade era conduzida por meio de testes para destruir o amor próprio, em outras palavras, penitências. Alguns exemplos locais: confissões públicas, beijar os pés das autoridades e implorar pelo pão. A princípio, as jovens deveriam se submeter a estes mandamentos afim de atenderem a Lei da autoridade local, e posteriormente, esta Lei deveria ser apreendida internamente, afim de que mesmo na ausência do olhar das superiores, tais preceitos fossem respeitados sem questionamentos.


Nos primeiros meses em que Sister Luke foi condicionada a estes procedimentos, ela se deparou com uma grande dificuldade em atender a tais demandas. Constantemente, ela reconhecia suas faltas e segundo a ordem estabelecida, estas deveriam ser anotadas em um caderno. As faltas as quais me refiro abarcavam desde descuidos menores, como correr ou manter os olhos abertos durante a reza, à faltas mais graves, como ter pensamentos descaridosos (sic.) para com as irmãs. Após o cumprimento dos períodos iniciais, Sister Luke começou a se destacar nos estudos em medicina, durante os quais teve que suportar não somente a inveja de outras jovens, mas a dificuldade em lidar com o próprio orgulho, decorrente do seu alto potencial desenvolvido nos anos de estudos com seu pai.


Sendo assim, o seu conhecimento em medicina fez com que as autoridades aprovassem sua ida ao Congo afim de trabalhar como enfermeira em aldeias. Este trabalho fazia parte do desejo inicial de Gabrielle e que enquanto Sister Luke seria concretizado. Neste novo setting, ela trabalhou conjuntamente ao Dr. Fortunati | Peter Finch | o qual admirava o seu potencial, porém igualmente reconhecia que havia um sujeito questionador em Sister Luke. Houve uma experiência de linguagem no encontro entre eles, pois o Dr. Fortunati reconheceu que ela encontrava-se em um processo de adoecimento físico e mental decorrente da exaustão que aquele trabalho lhe provocava. Conforme Sister Luke dedicava-se a curar e tratar os feridos na região, o seu self era gradualmente aniquilado, o propósito em atingir o ideal esperado fazia com que ela adoecesse e se fragilizasse diante do temor em não suportar a condição de castidade e devoção.


Pois bem, a história de uma freira é a demanda de uma história de amor. A religião pode ser compreendida como norteadora dos propósitos de vida, sendo sustentada mediante o reconhecimento de que há um outro que detém uma verdade, portador de um bem. Freud apresenta que a relação do indivíduo com Deus é uma extensão de seu relacionamento com o pai e que características específicas podem ser observadas em ambas relações, entre tais, humildade e temor. Sister Luke prostrava-se humildemente diante de um Outro que era tido como Lei, como Sábio, como portador de uma Verdade incontestável, e este lugar de Outro prevalece na civilização atual, podendo ser ocupado por diferentes figuras do sagrado. No propósito religioso há sempre uma fala incontestável que se sustenta mediante a coesão do grupo. Se unidos por um mesmo ideal, tais sujeitos tornam-se temporariamente fortes para silenciar os seus desejos censuráveis na busca pelo encontro de um amor paterno.


A religião assemelha-se àquelas drágeas iniciais que comentei porque trata-se de um remédio e que, por sua vez, não faz um bom efeito à todos. Para algumas pessoas, é uma medida paliativa e sua ingestão é realmente terrificante, enquanto para Sister Luke foi um meio de relacionar-se com a possibilidade de viver um sonho. A tentativa de anular seu próprio self, conforme orientada, fez com que ela vivesse uma experiência inusitada, possibilitando-a significar de um outro modo a demanda de amor que movia seus atos.

Renato Oliveira

20 comentários:

Emmanuela disse...

Ótima análise sobre um filme pouco comentado. O processo de transformação que o filme aborda é realmente doloroso. Eu gostei muito do filme, especialmente do final, nem um pouco decepcionante.

Até!

M. disse...

Adoro suas análises! Como sempre muito bem escritas! Taí, a razão pela qual nunca seria uma freira. Anular-se a si mesmo é uma violência psicológica (assim penso). Para alguns há uma razão toda especial de estar ali, ou o que chamamos verdadeira vocação.
Alguns santos da igreja católica comeram o pão que o diabo amassou dentro de um convento. Santo Antonio é um exemplo: deixou sua antiga ordem (cujo lugar lhe fez sofrer algumas vezes)para se tornar franciscano e viver em paz com seus princípios... Outro é o de Santa Teresinha do Menino Jesus, embora tenha uma bibliografia reveladora de uma santidade precoce desde a infância. Sua vida no Carmelo também não foi fácil. O livro que escreveu "História de uma alma" obteve vários cortes de padres e carmelitas, inclusive do Carmelo onde viveu na França, chegando aos leitores sem os devidos detalhes escritos por ela. Um dos "censores" afirmou em nota de rodapé que o motivo de ter retirado do livro tal trecho, era porque muita gente não entenderia certas rotinas do Carmelo. O livro era simplesmente anotações pessoais de Santa Terezinha do Menino Jesus, onde relatava suas experiências místicas religiosas, de vida dentro do claustro e uma autobiografia.

Agora, voltando ao filme, Audrey Hepburn ficou incrível neste papel. Um abraço e ótima semana.

renatocinema disse...

Não conhecia o filme, o que é uma falha grave, e vou tentar assistir urgente. Sou fã de Audrey e de histórias com essa força de questionamento.

Valeu muito ´pela dica.

ROSANA VENTURA disse...

Amei a dica e mais ainda o tema do filme...vou tentar ve-lo ainda nesta semana!
bjosssssss

Zé alberto disse...

"Freud apresenta que a relação do indivíduo com Deus é uma extensão de seu relacionamento com o pai e que características específicas podem ser observadas em ambas relações, entre tais, humildade e temor."

Análise com menos conceitos técnicos, mas uma leitura mais fluente, mais suave.

um grande abraço!


Oi Renato,

ASTROTERAPIA disse...

Não assisti o filme, mas é uma ótima análise.
Jung teve um processo com seu Pai a respeito da religião (irracionalidade). Abraço Cynthia.

Gisa disse...

Admiro tuas análises completas, detalhadas e que nos levam a querer ver o filme
Gostei dos enfoques
Um grande bj querido amigo

Poeta Renato Douglas disse...

Olá adorei teu blog, lindo mesmo. Parabéns. Fique a vontade para fazer uma visitinha ao nosso “Alto-falante” e seja mais um membro. Você é nosso convidado especial. http://poetarenatodouglas.blogspot.com/.
Um grande abraço!

Renato Douglas!

Rart og Grotesk disse...

Nunca tinha ouvido falar nesse filme.
Gostei muito do modo que comparou o cinema com uma "farmácia".
Gostaria que conhecesse meu blog http://artegrotesca.blogspot.com
ate mais!

Évelyn Smith disse...

Olá caríssimo Renato! Como tem passado?

Obrigada pelo comentário em meu blog e pela resposta do e-mail, sua posição diante as minhas dificuldades sempre me fazem enxergar o que me cerca de uma outra forma. Suas frases me edificam muito! ;-)

Muito bem elaborada a sua resenha de hoje. Sou uma pessoa religiosa e encontrei pontos muitos interessantes no que escreveu, coisas que fe fato existem e não podemos fechas os olhos para isso.

A fuga para uma vocação religiosa, por exemplo, perceptível neste filme. Acredito que ela viu na vocação religiosa o único meio de realizar os seus sonhos. Dificilmente uma pessoa que se consagra a Deus não quer se afastar do mundo por causa de algum trauma vivido ou pelo fato de não conseguir adaptar a esta Vida tão atribulada, e ver no isolamento e no afastamento de tudo a cura de todas as suas angustias e a realização de muitas coisas inexistentes no mundo de fora. E acredito que o silêncio pode curar e muito...

Ela quis se doar, pelo outro. Encontrou isso na vocação religiosa e não no mundo. Isso acontece todos os dias, com todos nós, de uma outra forma. Acredito que temos a nossa vocação aqui fora, uns sabem usá-la, e muito bem, outros não. Na verdade nem sabe que existe vocação...

Qual é a sua vocação, Renato? A minha eu já sei, há tempos!

Você é super-demais, querido. A cada dia gosto mais e mais de ti, mesmo na imensa distância. Obrigada por tudo! E eu estou aqui, sempre que precisar. =)

Tudo de bom pra você e até mais ver!

Beijo grande,
Évelyn

Meus blogs - Fernanda Rocha disse...

Olá!! Antes de tudo: obrigada pelo comentário no meu blog, sempre rico de informações, sempre adorável.
Sobre o post..quando estava lendo o seu post, fiquei analisando o que muitas vezes, as religiões exigem...será que muitas vezes não é um extremo tão grande? Será que não vale mais a preocupação com o mundo, com o melhorar do mundo do que com regras que muitas vezes podem destruir o ânimo de quem quer ajudar a transformar o mundo num lugar melhor? Claro que aqui estamos falando de um filme, mas mesmo assim não deixei de questionar a realidade. Acredito que os filmes ajudam nisso...eles fazem a gente pensar na realidade. Abraçosssssssssss!

Amanda Lemos disse...

Muito interessante o blog !
Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

www.bolgdoano.blogspot.com

Muito Obrigada, desde já !

Valéria Sorohan disse...

Interessante e as imagens do filme são lindas. Tentarei ver!

Meu beijooO*

Erica Vittorazzi disse...

Ai Renato...que difícil comentar hoje...

Acho um pouco complicada a relação religião e psicologia/psicanálise. E sempre foi um questionamento para mim em meus grupos de estudo (sim, sempre causei polêmica).
A maioria das pessoas, acredito, crescem com uma crença e se optarem por estudar psicologia, , será totalmente afetado por ela em suas abordagens psicológicas. Como separar? Por exemplo, não vejo uma pessoa católica convicta ser Junguiana.

Mas, ao filme agora: realmente ser religioso (padres e freiras) é tentar anular o seu self, é fingir que não tem sombra e nem desejos, como se você não fosse um sujeito. Ou seja, você não está sujeito a nada, você se torna o Grande Outro. É possível? Acredito que para alguns sim.

Beijos

Daniel disse...

Pois é amigo,
muitas vezes em nossa vida
essa drágeas são perigosas
porque por vezes
nos impedem de realizar
diversos acontecimentos.
A religião , é algo,
que para mim dificilmente se discute.
Mas em todo caso, o filme
é ótimo com pipoca pelo que vi,
ainda mais...o seu ensinamento.
Sempre de bem estar.

Dan

Carolina disse...

Eu vi este filme faz muito tempo,maslembro que já naquela época achei torturante...

bjos

Juci Barros disse...

Bem interessante, acho que vale suportar o mal estar.

Beijos.

zazá lee disse...

Obrigada pela visita ao Espelho sem Aço.
Gostei do Blog.
Muito interessante.
Vou linkar no meu ok?

Jack disse...

O que quer dizer com aniquilação do self?
Por que em situações cotidianas, onde a repressão habitual das pulsões ocorre de maneira constante, situações quais estamos envoltos à sublimações e o princípio da realidade, não ocorre a aniquilação do self?
Se o outro pelo qual ela se sacrifica é o mesmo outro qual nos transtorna (principio da realidade) que self é esse privilegiado a ser destituído só em situações de severo adestramento?

Renato Oliveira disse...

Oi Jack! Hoje, pensando na resenha desse filme que vi há algum tempo e o teu comentário, acredito que a aniquilação do self esta presente nas duas situações. Somos sujeitos a esse aniquilamento seja nas situações cotidianas, seja no confinamento religioso. Se há alguma diferenciação entre essas situações, penso que esteja no fator SEXO, enquanto retirado de cena no processo de consagração, como muito bem mostrado no filme. Se no princípio da realidade civilizatório, ele pode ser uma saída satisfatória, para a santidade, é o principal obstáculo. E não deixa de se re-inscrever por isso. Um abraço.