21.4.11

Pássaros me mordam

O Cine Freud de hoje possui um lado humano e um lado animal. Localizaremos, mais uma vez, o próprio Sujeito do Desejo, aquele que possui garras e pode ser avassalador. O desejo humano é animal, como desvencilhar-se dele? Há momentos em que pode ser mais fácil desviar-se de bichos do que do próprio desejo, e há outros em que tentativas de desvio tanto de um quanto de outro podem ser agonizantes.

É de Hitchcock que falaremos hoje, ou mais especificamente: tio Hitch e seus símbolos. Dentre os seus maravilhosos trabalhos, escolhi o filme “Os pássaros” | The Birds – 1963 | para que possamos pensar sobre agonias impensáveis. Contraditório? Assim como o desejo pulsional de uma rica mulher.


Em um dia comum, Melanie Daniels | ‘Tippi’ Hedren | dirigiu-se a uma loja de animais afim de retirar o mainá que havia encomendado. Enquanto aguardava o pedido, ela foi inesperadamente abordada por um charmoso homem que sem maiores pretenções começou a fazer várias perguntas a respeito dos pássaros ali expostos. Melanie não era a vendedora da loja, e de pássaros, nada sabia. Canários e cardeais eram-lhe uma só coisa. Ainda assim, pareceu-lhe interessante representar este papel: ela fez de conta que era incumbida do assunto, mas perdeu-se rapidamente na tentativa por explicações. Foi-lhe pregado uma peça, afinal aquele misterioso homem chamado Mitch Brenner | Rod Taylor | sabia que ela não era vendedora. Sendo assim, a história inicia-se por uma sutil trapaça que foi revelada via linguagem no momento em que Melanie nada mais sabia explicar. 


Como Mitch a conhecia? Segundo ele “um pássaro me contou”. Ele pretendia comprar periquitos para o aniversário de sua irmã Cathy Brenner | Veronica Cartwright |, mas com o desdobramento daquela paquera, ele retirou-se sem comprá-los. E foi assim que iniciou a trama de Melanie, que sutilmente anotou a placa de seu carro, pediu que localizassem o endereço daquele homem, encomendou um casal de periguitos e foi à procura do bem humorado Mitch. Quanta disposição! Ela dirigiu-se a uma pequena cidade chamada Bodega Bay e foi necessário contatar pessoas ali próximas afim de descobrir o endereço exato da residência da família Brenner, e segundo informações colhidas (sic.) não havia uma Miss Brenner, apenas a irmã consideravelmente mais nova e a mãe.

Tendo em vista que não havia pessoas em casa, Melanie aproveitou para entrar sem ser vista e junto a um cartão para Cathy, os dois periguitos ali foram deixados. Percebam que ela entrou e saiu sem ser reconhecida, a princípio, as únicas testemunhas do seu ato foram o casal de pássaros engaiolados, e minutos depois, Mitch a identificou em um barco, enquanto pretendia retornar para cidade. Ele a seguiu afim de encontrar respostas para aquela situação. 


Enquanto Melanie atravessava o rio, subitamente um pássaro voou sobre si e a atacou, machucando sua cabeça. Foi a partir desta ocorrência que Mitch aproximou-se dela, a conduziu para um restaurante local, e em meio a algodões e curativos, a convidou para um jantar formal em família. Este ataque de um pássaro foi seguido do olhar e da presença da mãe de Mitch, Lydia Brenner | Jessica Tandy | que nada compreendia quanto aquela situação ali presente. É válido destacar o olhar da mãe que representava sua reprovação diante daquela jovem loira, atraente e ferida. 


O convite para o jantar foi o motivo aparente que fez Melanie permanecer em Bodega Bay durante um tempo maior do que havia suposto, nos quais, esteve na casa de uma professora, Annie Hayworth | Suzanne Pleshette |, uma enigmática anfitriã responsável por lhe fornecer dados extras sobre a vida em família de Mitch.

Percebam que a chegada de Melanie naquela cidade foi acompanhada de um horror, ela atraiu para si olhares invejosos e repulsores. Annie a questionava se ela possuía um caso com Mitch e logo lhe afirmou “talvez nunca exista nada entre Mitch e uma mulher”, alegando a existência de uma terceira em questão, a saber, Lydia. No discurso de Annie, a mãe é apresentada como portadora de poder sobre o filho, a qual se considerava capaz de manipular o desejo dele em relação a um objeto externo. 


Embora seja explícito o descontentamento de Lydia em relação à Melanie, o filme não trata-se, unicamente, de apresentar os conflitos desta relação. Há algo além que espantosamente é revelado a partir dos ataques de pássaros àquela cidade. Durante a festa de aniversário de Cathy, pássaros reuniram-se e avançaram sobre as pessoas ali presentes, atacando vorazmente crianças e suas mães. O ataque não durou mais que quatro minutos, mas foi o suficiente para machucar aqueles que foram pegos. Após o incidente, Mitch questionou o fato a um policial que pouco caso fez da situação, afirmando que “os pássaros não atacam pessoas”.


O que poderia ter sido um evento casual, tornou-se um grande pavor entre os moradores daquela pequena cidade que gradualmente se tornaram submissos aos agonizantes ataques de pássaros. Não havia hora e nem lugar específico, os pássaros avançavam sobre aqueles que encontrassem, e inesperadamente, a ação furiosa cessava. No entanto, o retorno dos pássaros era constantemente temido. O ataque destes animais pode parecer-nos uma realidade apocalíptica ou um delírio generalizado de uma população aparentemente passional. Aqueles que nada fizeram por merecer, passaram a viver um descontrole e incerteza quanto a salvação de suas próprias vidas.


Conforme observamos, o ataque destes pássaros iniciou-se após a chegada de Melanie em Bodega Bay na qual ela foi a primeira vítima, após a entrega da gaiola na residência dos Brenner. Melanie não simplesmente levou um casal de periguitos àquela cidade, mas levou, principalmente, o seu corpo enquanto representante do desejo em ser possuída por um homem. Ela era portadora de um magnetismo que não somente atraiu olhares reprovadores de homens e mulheres como despertou a angústia e pavor naqueles que a olharam e se depararam com um temido desejo sexual em suas próprias vidas. O ataque dos pássaros pode ser interpretado como o horror diante de um desejo sexual outrora recalcado e como o retorno deste conteúdo, que incidia num sadismo oral e avassalador. Nesta condição, Melanie foi ao mesmo tempo vítima e agente provocadora de um sadismo infantil que visava destruir um objeto. Os pássaros representavam também o Supereu coletivo daquela cidade que atacaram diante da ameaça de sedução evocada por uma mulher.


Se o desejo humano é animal e foi representado em pássaros, ele pode aparecer dos modos mais distintos possíveis. Claro que, não nos referimos a qualquer desejo, mas de algo inconciliável com a moralidade do sujeito ou de um grupo. É daquilo que causa horror que foi abordado aqui. Ao correrem daqueles pássaros, muitos corriam do temor em ser vítimas da ação de seus próprios agentes moralistas. O ataque dos pássaros ressalta a inversão homem-natureza, na qual, aqueles que consideravam-se controladores do meio, passaram a ser submissos à uma Ordem desconhecida e sujeitos a seus efeitos.

Cuidem-se, queridos.

Renato Oliveira

27 comentários:

NOEMI disse...

Querido!!!eu amo seu blog.
estou sempre por aqui.

Se voce quer saber mais sobre a técnica do Dr. Ihaleakala S. Hew Len
entre no google, que tem bastante material sobre ele.
que seu fim se semana seja maravilhosamente doce.

renatocinema disse...

A primeira vez que assisti "Os Pássaros" me encantei. A segunda, recentemente, não teve o mesmo impacto. Mas, sem dúvida um clássico obrigatório.

Uma obra de arte do mestre do suspense.

Francy´s Oliva disse...

Confesso ja assisti este filme e só vim entender ele agora depois que li o seu post, antes de o entendimento do que nunca kkkk.
bjs, bom final de semana.

Kahlil Affonso disse...

'Os Pássaros' é mais uma obra de Hitchcock que soa mais como uma aula do que um filme propriamente dito. Cada cena, cada ângulo, o modo como o som é usado, o desenvolvimento de personagens... tudo nesse filme é magnificamente conduzido! Um dos maiores feitos do diretor, o que não quer dizer pouca coisa já que 98% da carreira de Hitchcock se resume á clássicos de primeira linha! Amei teu blog!

http://filme-do-dia.blogspot.com/

M. disse...

Enfim, um grande entendimento do que fora exposto pelo velho e sádico Hitch.

Seu texto como sempre impecável e perfeito! Um grande abraço e Feliz Páscoa!

As Tertúlias... disse...

Muito bom mesmo o seu Blog! Gostei!!!!!!! Ricardo

Zé alberto disse...

Oi Renato,

Li de uma ponta a outra a sua análise, de uma vez só, tal era a minha vontade, meu desejo de perceber o que simbolizavam os pássaros "castigadores" e, no fundo, o que castigavam eles.

Fora várias as vezes que visionei esta película, ha muitos anos, e em mim havia esse mistério para desvendar.
Gostei muito da forma como estruturou a análise, fácil de compreender, sem se remeter a uma leitura demasiado técnica.
Muito agradável o seu texto!

Abraço!

Cynthia disse...

Renato, vc é de Touro por acaso?
Toquei na sua persona?
Obrigada por vir aqui eu ando ocupada mas adoro seu blog.
Mas prometo que volto logo logo.
Um ótimo final de semana pra vc.
Abraço Cy.

Júnia disse...

Gosto muito desse filme mas acho que os bastidores são curiosos...
O mestre do suspense foi apaixonado por “Tippi” Hedren "Tippi"submeteu-a a alguns constrangimentos. Quando "Tippi" não suportou mais a obsessão de Hitchcock e resolveu abandonar as filmagens de Marnie pela metade e logicamente ele não iria deixar as coisas assim. Sabotou a carreira da moça que nunca mais conseguiu fazer nada de especial...
Fiz uma postagem sobre o assunto, depóis dê uma lida
http://vintageeblog.blogspot.com/2010/07/hitchcock-e-tippi-hedren.html
bjo

Évelyn Smith disse...

Olá querido e caríssimo Renato! Como estás? Saudades!!! ;-)

Acredita, eu postei o meu texto deste mês um pouco depois que você comentou no meu blog ontem! Digo, antes de ontem, hoje já é sábado... Rsrs...

Obrigada pelo carinho de sempre e pelos comentários em meu blog! Na quinta eu estava cheia de pulsões acumuladas e resolvi descarragá-las em palavras... Fiz um texto muito bom, quando puder leia. =)

Obrigada por colocar as minhas frases no FaceBook do CF, fico muito feliz com a sua consideração pelas coisas que escrevo! Nossa, você não sabe o quanto isto me preenche!

E que correlação ótima que fizestes neste seu texto, excepcional! A representação da coisa não vista é evidente, a grosso modo falando... No caso, este tal "horror" e a seduação que a jovem Melanie causara na cidade.

"(...) Se o desejo humano é animal e foi representado em pássaros, ele pode aparecer dos modos mais distintos possíveis. (...)" Esta foi a melhor parte do texto, pois mostra tudo o que vivemos de formas indiretas em nossas Vidas. A não-diretividade das coisas causa a Teoria do Caos, para mim. Digo de uma forma consensual e não de acordo com as Ciências Exatas. A mudança num determinado contexto "não decifrado" pelas pessoas, aparecem de diversas formas para as mesmas e nas mesmas. Podemos destacar aqueles sintomas das histéricas nos tempos de Freud... Embora ainda vemos muitos histéricos por aí... Rsrs...

Bom, estou descansando um bucado neste feriado. Está sendo de grande valia para mim esses dias em meu doce lar! Hoje já recomecei a fazer alguns trabalhos da faculdade, mas não estou forçando muito meus pobres neurônios. Estava muito cansanda... Fiquei dias e dias indo dormir de madrugada, tipo às 4 horas da matina, por causas das provas e das resenhas, resenhas e resenhas... Tenho um Projeto de Social neste bimestre, acredito que serão mais noites e noites sem dormir... É a Vida! =/

É isso, querido. Espero que aproveitei o ferido para repor as suas energias!

Tudo de bom para você e até mais ver!

Beijo grande,
Évelyn

Évelyn Smith disse...

Hahahaaa! Querido, não repare as palavras sem sentido que escrevi... A essa hora os meus dedos não obedecem mais o meu pensamento...

* Estava muito cansada...
* Espero que aproveite o feriado para repor as suas energias!

E se tiver outros errinhos é por causa do horário, 02h25 da matina... Hehe...

Beijo, querido. *-*

Ana - thecatwears disse...

adoro os pássaros de Hitchcock.

happy easter ^.^

Valéria Sorohan disse...

Que lindas as imagens do filme, adoro filmes antigos, já ouvi falar sobre esse, será possível encontrar em DVD?. Quero assistir.

BeijooO*

Kleber Godoy disse...

Oi,

Gostei da postagem.

Abraços...

Kleber

Meus blogs - Fernanda Rocha disse...

Olá...retornei as visitas aqui. Achei bem interessante os vários significados que os ataques dos pássaros podem receber... E seu blog..sempre...maravilhosoo.. Abraços e Feliz Pascoa.

Alan Raspante disse...

Estou com o filme no meu computador e vi até um certo ponto do filme e parei. Vou terminar de ver esta semana, seu excelente texto me instigou a continuá-lo :D

Marcos Campos disse...

Adoro esse filme, assisti há muito tempo atras e recentemente o vi novamente. Muito boa postagem, um dissecamento psicologico do filme !
Boa semana !!

Marcos Campos disse...

O certo é dissecação...sorry !

Elaine Crespo disse...

Oi Renato!

Falar dos Pássaros é falar do Mestre do Suspense o sempre imbatível Alfred Hitchcock.Pra mim o melhor diretor de todos os tempos. Nada se iguala a suas obras. Fiquei entusiasmada. Amo este filme e todos os outros.
Mas sua analise do filme é por um prisma diferente e pessoal!

Acho que vou fazer um Blog sobre ele, eu invento tanta coisa e fica só na intenção.

Bem Audrey Hepburn perfeita e linda. Minha Musa. Mas Rita Hayworth, não fica devendo nada a nenhuma atriz também!

Bem vou terminando meu comentário(jornal) agradecendo a visita e elogios, mas eu aqui só estou aprendendo neste blog Freudiano.

Uma linda semana!!

Beijos,
Elaine

ROSANA VENTURA disse...

Nossa, esse filme me tras boas memórias...meu avô era um fã de Hithcok, e assisti a este filme com ele uma 20 vezes...assistiria mais 20 se ele ainda estivesse aqui...ai, ai..vou assitir de novo, e lembrar dele...
bjossssssssss

H A R R Y G O A Z disse...

VERUSCHKA !!!

Tatá disse...

De fato, assistirei, até porque a estética me lembrou muito Bonequinha de Luxo.
Beijinhos!

Segue lá? @taataah__

Daniel disse...

Pois bem, bela inversão de papéis trabalhada por voce entre homem e natureza. O filme parece ser interessantíssimo como misterioso, desde o inicio até o final. Fica incitante a forma que escreves pois o horror é misturado a atividade humana diariamente, a moralidade é só um dos aspectos onde nos surpreendemos com as ações das pessoas. Enfim meu amigo, um belo outro post seu. Grande abraço, cuide-se.

Dan

Ana Kalil disse...

Olá Renato!

Eu simplesmente sou fã dos filmes de Hitchcock...! Já assisti a quase todos. E este é realmente muito bom! Gostei muito tb de Trama Macabra. Se Hitchcock fosse um assassino ou "serial Killer", ng descobriria seus crimes(rs), De tão perfeita trama que ele desenvolvia. Um gênio do cinema!

Beijos
Ana

Rodrigo Mendes disse...

Um leitura diferente do filme, gostei bastante da introdução do seu texto. Rs!
Vou tricotar aqui e dizer que Os Pássaros ganha na excelência como uma experiência do tio Hitch. Aliás, não existiria Tubarão e outros filmes simólicos animalescos e sobre caos, apocalipse sem esta obra clássica que mostrou como se deve fazer. É clássico, mas ainda é moderno.

Abs.
Rodrigo

Anônimo disse...

Gostei muito da leitura, interessante ponto de vista.

L.O.L. disse...

Gostei da explicação.
Obrigado.