18.6.11

Prazer em ver; desejo de saber

As típicas brincadeiras infantis de faz-de-conta reaparecem na vida adulta, com um certo deslocamento, muitas vezes, mas não importa: o desejo em representar diferentes papéis subsiste. Ser alguém além de si, diría-nos um sábio. No cinema, parte deste sentimento permanece, podendo ser visto nas representações daqueles que arriscam ser algo além de si próprios. Quando crianças, buscamos compreender o universo a nossa volta, questioná-lo e explorar possibilidades afim de obter respostas; de certa forma, todos fomos um pouco detetives algum dia, cada um a seu modo. Ao crescer esta curiosidade pelo saber tomou algum rumo, algum fim possivelmente desconhecido. Com toda a certeza, é possível “psicanalizar” a respeito disto também, é o que faremos hoje. Para tanto, nos envolveremos na procura por respostas de um jovem rapaz, que implicado na busca por significações envolveu-se em um misterioso universo apresentado no filme Veludo Azul | Blue Velvet – 1986 |.


O que existe por debaixo da grama? Certamente há terra. E abaixo da terra? Explorações nesta direção se assemelham às pesquisas infantis sobre a sexualidade humana, as quais não tendem a uma finitude. De qualquer modo, o diretor David Lynch mostrá-nos que por debaixo da terra há insetos e que se explorarmos o gramado poderemos nos surpreender com o subsolo. Aquele sentimento infantil de interesse pelo desconhecido podia ser visto em Jeffrey Beaumont | Kyle MacLachlan | que, inesperadamente, localizou no gramado um objeto excêntrico e atípico ao mesmo tempo: uma orelha humana. Ele decidiu recolher aquele objeto e levá-lo a uma autoridade local, ao detetive Williams | George Dickerson | afim de que investigações de ordem científica e criminal fossem realizadas. Em laboratório seria possível descobrir o sexo da pessoa, sua possível idade e até mesmo como o corte havia sido feito. Ciente destas possibilidades, Jeffrey ainda mantinha-se insatisfeito, pois na busca por uma significação seria preciso considerar o todo, o contexto, e para tanto era necessário obter dados mais abrangentes.


Além de Jeffrey, mais uma pessoa encontrava-se por dentro do assunto.  Sandy Williams | Laura Dern | também estava implicada neste desejo pelo saber. Coube a ela fornecer a ele informações intrigantes, mas que a princípio, não tinham uma relação direta com o suposto caso da orelha perdida. Pois bem, ela informou-lhe que suas escutas sobre os casos de seu pai lhe indicaram que os detetives locais investigavam o curioso caso de uma cantora que era vigiada e cujo apartamento localizava-se próximo ao local em que a orelha fora encontrada. Estas novas pistas amplificaram a curiosidade de Jeffrey que, ainda mais intrigado, se engajou em um processo investigatório que o conduziu ao apartamento daquela desconhecida e misteriosa mulher. 

 
Embora não soubesse bem o que determinava o seu interesse naquelas questões, Jeffrey reconhecia tão unicamente que “as vezes é preciso se arriscar”. À princípio ele não esteve sozinho, pois Sandy posicionou-se como uma testemunha ocular ou investigadora auxiliar. O primeiro passo seria entrar no apartamento e descobrir o que ali havia. “Um brinde à uma experiência interessante!” – e a partir de então, eles seguiram o plano: Jeffrey vestiu um uniforme de detetizador e assumindo esta personagem ele se deparou com uma mulher aparentemente receiosa que, não presumindo a possibilidade de risco, permitiu-lhe acesso a seu apartamento. Esta consentida intrusão lhe permitiu roubar as chaves do local e planejar um retorno. De momento, Jeffrey descobriu que a enigmática mulher chamava-se Dorothy Vallens | Isabella Rossellini | e expressava uma misteriosa sensualidade em suas apresentações.


A história apresenta-nos, deste modo, a curiosidade e implicação de Jeffrey na investigação daquele caso. Ele retornou ao apartamento e escondeu-se, no aguardo pela chegada de Dorothy. Embora o desejo de saber esteja explícito nesta história, ele não aparece sozinho, pois é complementar ao desejo de ver, ao prazer no olhar. Supostamente oculto após trancar-se em um armário, Jeffrey observou a chegada de Dorothy e acompanhou o momento em que ela se despiu para em seguida cobrir-se num pomposo casaco de veludo azul. Após um curto período, as observações foram encerradas, quando Jeffrey foi retirado daquele lugar: Dorothy supôs a existência de alguém e, amedrontada, dirigiu-se ao armário. Neste momento, algo inverteu-se, pois Jeffrey, que até então gozava de um lugar temporariamente seguro que lhe permitia ver e elaborar possibilidades a partir disto, foi retirado desta posição e submetido às garras de uma sedutora mulher que, falicamente, portava uma faca nas mãos. Ele sentiu-se não somente ameaçado, mas possivelmente, seduzido por aquela situação e tomado por uma angústia e desejo por saber e constatar o que se produziria naquela situação. O curioso é que Dorothy também era movida pelo prazer em ver, ela ordenou-lhe que retirasse suas roupas, marcando uma temporária inversão na relação entre a atividade do mostrar-se com a passividade do ver o outro. Este encontro foi interditado pela inesperada chegada de um homem, fazendo com que Jeffrey retornasse ao “abrigo calado” do armário, permitindo-lhe novamente refugiar-se no prazer e temor do olhar.

Após a chegada daquele homem, Dorothy não seria mais “a mulher com uma faca na mão”, pois de uma condição anteriormente fálica ela foi destinada ao lugar de objeto, colocada enquanto aquela que faria o outro gozar. Ela foi entregue ao desígnios deste homem que explorava o seu corpo ao fantasiar a revivência de uma cena infantil. Ela era colocada no lugar de mãe e não lhe era permitido olhar para aquele outro, mas tão exclusivamente ser objeto do fetiche dele. Embora aquela agressão fosse causa de horror, isto não invalida a possibilidade de que Jeffrey se regozijasse em seu lugar que tudo podia ver, no qual testemunhava a objetificação de uma sedutora e atraente mulher.


A procura de Jeffrey, desde o encontro da orelha no gramado, pode ser pensada como um movimento pulsional, inicialmente, guiado pelo desejo de saber que foi acompanhado pelo prazer em ver, colocando-o numa posição voyeurista que contemplava a exibição de um outro. Este desejo pode ser pensado como uma extensão daquele sentimento infantil de “querer saber” e “querer investigar” questões complexas sobre a vida, que envolvem, por exemplo, temas como o nascimento, a relação sexual dos pais e a morte. O encontro com um saber e o prazer obtido na contemplação de um outro podem ser pensados em termos da realização de uma pulsão escopofílica. Diferente de um instinto, a pulsão não possui um objeto fixo, podendo realizar-se dos mais diferentes modos. O prazer em ver é pulsional, sendo descoberto desde os estágios mais primitivos do desenvolvimento, e ao longo da vida será mantido, no entanto, os objetos para sua realização se modularão conforme a história de vida do sujeito. Dentro daquele armário Jeffrey enxergava uma mulher entregue ao desejo do outro, colocada na condição de objeto útil a realização de tendências destrutivas. Este prazer em ver estendia-se a cada descoberta feita daquele caso, que o impulsionava a explorar outras possibilidades, envolvendo-se com os riscos decorrentes de uma posição voyeur.


Este movimento pulsional é completamente metonímico, vai de um objeto a outro, sendo capaz de evocar um contínuo desprazer pela impossibilidade de plena realização. A satisfação completa de uma pulsão se dá unicamente com a morte, em um estado de silenciamento absoluto. Em Blue Velvet vemos que a cada descoberta, o desejo de saber amplificava-se, fazendo com que Jeffrey buscasse outras pistas, numa sucessiva procura por respostas. Aquele sentimento infantil de curiosidade foi mantido e o levaria às mais intrínsecas constatações. Abaixo do gramado havia um submundo do crime, do desejo e do engano e Jeffrey arricou-se nesta direção, em uma sucessiva busca e paixão por um saber da ordem do desconhecido.

Super abraços,

Renato Oliveira

16 comentários:

Cynthia disse...

Olá Renato, eu tb andei sumida viajando e quebrei o pé esquerdo, já estou me analisando muito a respeito.
Pois é, para saber realmente da ausência de quadratura, é necessário os dados natais para verificarmos.
Muito interessante essa sua colocação, obrigada por passar aqui, abraço Cy.

Francy´s Oliva disse...

Dizem que o desconhecido sempre fascina e alimenta a imaginação(é o que dizem).
Tenha um excelente final de semana.

M. disse...

Nossa! Fiquei curiosa para ver este filme! Como já falei aqui alguma vez esse seu blog Renato é uma outra forma de ver o filme e por sinal muito original. Só uma mente estudada e sensível como a sua é capaz de produzir textos tão interessantes que não nos deixam sair da página. Que você tenha um excelente fim de semana!

renatocinema disse...

Veludo Azul é um daqueles filmes que todos podem assistir, porém, poucos são os que estão preparados para entender sua profundidade de fascínio.

Das obras do genial diretor de Twin Peaks diria que, depois de Cidade dos Sonhos, Veludo Azul é a que mais me fascina e encanta.

Ótimo texto para um ótimo filme.

Elaine Crespo disse...

Olá Renato!

Nunca assisti este filme.
Mas depois de ler sua pastagem, fiquei interessadíssima em vê-lo.
Sua forma de analisar os filmes é além de muito interessante abre uma visão inovadora para quem assistiu ou vai assistir!
Adoro!! :D

Uma linda semana!

Beijos meus,
Elaine Crespo

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Filme poderoso, marcante. Lynch ainda não fez nada melhor.

O Falcão Maltês

Meus blogs - Fernanda Rocha disse...

Oie..este filme desperta uma curiosidade em quem le a resenha, imagine no personagem envolvido! Com certeza, um personagem , uma pessoa qualquer ao ver uma orelha humana num gramado iria ficar curioso com o fato e mais ainda em descobrir os varios porques escondidos. grande abraço.

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, achei interessantíssimo, fiquei louco para assistir, rs.
Ai menino, q bom q gostou e obrigado por ter votado heim? rs
Abraços

iara disse...

Sua avaliação realmente desperta um interesse muito diferente do que me movia antes ao escolher um filme para assistir.foi assim depois que li no seu blog sobre "os passaros".corri para assistir outra vez...
obrigada!
abraço grande,
iara.

Renato Hemesath disse...

Oi Iara!!! fico muitíssimo feliz ao ler teu comentário, obrigado! :)
E realmente, "os pássaros" é um filme bastante intrigante, dá vontade de realmente entender o que se passou na cabeça do tio Hitch ao produzi-lo! chegaremos lá! hehe
Tudo de bom prá ti.
Abraços

Valéria Sorohan disse...

Nossa cara, fiquei super afim de ver.

BeijoooO*

Évelyn Smith disse...

Olá querido e caríssimo Renato!

Obrigada pelo comentário em meu blog e somente agora pude ler a sua nova resenha e comentar.

Magnífica correlação que fez deste filme com a Psicanálise! E mais uma resenha excepcional, desta forma. Tudo aquilo que estava por debaixo da terra/grama se transformou em desejos inconscientes do personagem Jeffrey. E ainda com a prática do voyeurismo (muito bem colocado por você) percebe-se o quão grande era os desejos deste rapaz, descobertos ao longo deste caso intrigante.

Já respondi o seu e-mail, ontem. Estou em tempos conturbados ainda, mas as coisas vão se ajeitando e se esclarecendo ao logo do tempo.

Bom proveito nessas férias, muita produtividade e poder inovador!

Tudo de bom pra você e até mais ver, querido. ;-)

Beijo grande,
Évelyn

Kahlil Affonso disse...

Deliciosamente bizarro!


http://filme-do-dia.blogspot.com

ROSANA VENTURA disse...

Esse eu vi. Gostei muito,
Mas quer saber, teus comentarios a respeito dos filmes são ainda melhores!
bjossssssssss

Cynthia disse...

Oi Renato, acho Jeffrey um cara escorpião. Sua Alma busca o desconhecido e o obscuro. Abraço Cy.

Anna Amorim disse...

Renato,

Fomos crianças curiosas e temerárias atrás da porta e (re)vivemos em busca deste sabor de descoberta ao longo do nossa vida.
Gratificante relembrar VELUDO AZUL através da consistência e profundidade do teu texto.

Bom voltar aqui.

Beijos,

Anna Amorim