6.7.11

Vermelho para contrastar

Fraternidade será o tema de hoje. A trilogia das cores, do diretor Krzysztof Kieslowski contempla três louváveis trabalhos, nos quais temas como o perdão e a morte foram delicadamente abordados. Em cada filme, uma cor recebeu significados específicos, conforme foi visto em outras ocasiões. O azul para refletir a liberdade e o encontro com a possibilidade de recomeço; e o branco para simbolizar a igualdade na procura pelo perdão. Desta vez, o vermelho será usado para pensarmos sobre a fraternidade, sobre os laços entre pessoas comuns e situações cotidianas que são apresentadas em A Fraternidade é Vermelha | Trois Couleurs: Rouge – 1994 |. 


Conheceremos o cotidiano de Valentine | Irène Jacob |, uma modelo fotográfica que vivia solitariamente em um apartamento e cujo meio de comunicação com o mundo era o telefone. Ela realizou uma sessão de fotografias para uma empresa de publicidade que transformou uma das imagens em um grande outdoor vermelho, colocado em um local de destaque na cidade. Entre aqueles dias, distraidamente, ela atropelou uma cachorra cuja coleira identificava um endereço. Não era um animal sem dono, no entanto, Valentine responsabilizou-se pelo cuidado, ela dirigiu um olhar terno sobre aquela situação, mas permaneceu intrigada quanto a identidade do possível dono.


Valentine localizou o endereço e deparou-se com um ambiente solitário cujo morador era um juiz aposentado que não mostrou interesse algum pelas informações que ela tinha a lhe dizer. Ele se eximia de qualquer responsabilidade pelo cuidado com aquele animal. “E se fosse a tua filha?” – Valentine questionou-lhe. Para aquele juiz | Jean-Louis Trintignant | estas questões eram-lhe indiferentes naquele momento. No entanto, com o passar dos dias ele descobriu o endereço de Valentine e enviou o pagamento para aquelas despesas. Foi a partir deste fato que ela retornou à casa daquele homem e pode apreender o verdadeiro cotidiano que ele vivenciava e aprender algo significativo com este encontro. 


A quantia que constava no envelope era consideravelmente superior àquela que foi gasta com os reparos médicos. O juiz não compreendia o valor daquela despesa assim como não era capaz de assimilar a importância que Valentine atribuía ao cuidado, para ela não tratava-se somente de cuidar para evitar um futuro remorço. Nesta situação, ela constatou a indiferença daquele senhor não somente em relação ao animal, mas em tudo quanto dizia respeito à própria vida. “Não quero nada” – foram estas as palavras daquele juiz, era como se a vida estivesse esvaziada de significado. Valentine constatou que ele encontrava-se implicado em uma curiosa atividade: um rádio instalado em sua residência lhe permitia captar as ondas telefônicas dos vizinhos e ouvir plenamente as conversas que eram realizadas. Ele apresentou à Valentine esta realidade e a orientou sobre como proceder para denunciá-lo, caso quisesse, afinal, sobre questões legais, ele tudo sabia. 


A condição apática e auto destrutiva daquele homem era notória de modo que, aparentemente, não lhe faria diferença alguma ser denunciado ou não. Ouvir as conversas era uma atividade repetitiva, previsível e sem elaboração psíquica, no entanto, era o modo daquele juiz se relacionar com os vizinhos sem se colocar subjetivamente nesta relação. Para Valentine esta prática era repulsiva, contudo, ela não se orientou por esta concepção e foi suficientemente capaz de ouvir este sujeito e atentar-se às necessidades subjetivas que ele possuía. Diante da ausência de perspectiva na vida, algo poderia ser feito – “você pode fazer algo: SER” – o ser, para Valentine, estava, possivelmente, pautado na existência e na possibilidade de encontro com um viver criativo, com uma vida que possa ser utilizada e enriquecida.

O estilo de vida daquele juiz contrastava-se com o cotidiano de um jovem recém formado que exerceria suas primeiras práticas jurídicas. Auguste | Jean-Pierre Lorit | pode ser tido por alguns, como aquilo que o juiz um dia foi. O que de fato sabemos é que tratava-se de um jovem apaixonado pela vida, implicado em seus próprios sonhos e sentimentalmente envolvido com Karin | Frédérique Feder |. Para ele, a vida poderia ser usada, permitindo-lhe novas maneiras de ser.


Pois bem, a fraternidade, enquanto tema principal, pode ser pensada a partir da relação destes sujeitos com as possibilidades de criação em suas próprias vidas. Para o psicanalista inglês, D. W. Winnicott, a capacidade em estabelecer relações fraternais está relacionada com a introjeção de um ambiente primário suficientemente satisfatório.

O cuidado nas primeiras fases do desenvolvimento infantil é potencializador da descoberta de um viver criativo, que ocorre quando o bebê é capaz de criar imaginariamente um mundo, e constatar que, apesar de suas manifestações agressivas e tendências auto-destrutivas, este ambiente permanece. Trata-se da constatação de que o mundo é capaz de suportar os seus impulsos hostis. A sustentação é uma das funções que o autor atribui àquele que exerce a maternagem, e diz respeito à capacidade de suportar a agressividade do bebê e a projeção de tendências destrutivas. O sentimento de segurança é transmitido neste momento da vida – por meio do holding, a complexa tarefa do segurar – e será crucial para o desenvolvimento do potencial criador e a capacidade para brincar.


Quando Valentine dizia ao juiz aposentado que ele poderia fazer algo – ser – ela procurou mostrá-lo que há uma considerável diferença entre o ser e o existir. A existência tem um sentido compartilhado entre aqueles que vivem, enquanto o ser é apresentado como verbo, como fundante da própria existência: ser é encontrar-se, constantemente, com novas possibilidades de criação. Diz respeito ao transformar, ao uso criativo das possibilidades, e também, ao descobrir-se enquanto alguém capaz de estabelecer identificações cruzadas ao exercer o cuidado a um outro, em ações significativamente fraternais.

Esta capacidade em ser criador, se perdida, poderá ser satisfatóriamente resgatada, e para tanto é necessário um outro que, a partir de seu mundo interno suficientemente saudável, possa se colocar enquanto facilitador de um novo laço. A fraternidade deve ser pensada em termos de amizade, e simbólicamente é vermelha porque diz respeito a um sentimento terno presente na paixão daqueles que buscam possibilidades para ser criativamente, e ousam mostrar ao outro uma vida que vale a pena ser vivida. 

Renato Oliveira

17 comentários:

renatocinema disse...

Amo essa trilogia.

A Liberdade é Azul é o que mais me encanta. Porém, A Fraternidade é Vermelha é mágica.

Possui imagens que tocam meu coração.
O vermelho poucas vezes foi utilizada de forma tão rica no cinema quanto nessa obra mágica.

O filme levanta realmente questionamentos relevantes sobre amizade, valores, paixão.

Ótimo texto.

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu adoro a Trilogia das Cores. Esse é meu preferido, embora seja o único que ainda não comentei no Poses.

Pô, bacana esse olhar que você lança aos filmes. Gostei da proposta E do visual do blog (algo difícil de acontecer).

Incluirei no meu blogroll.

Abraços!

M. disse...

Renato,

Eu não assisti a esse filme, mas com este lindo e primoroso texto, me aguçou a vontade. Conhecia a trilogia das cores, mas não as assiti completas. Dizem que de todas as histórias essa é a mais interessante e comovente. Bom, vou ficando por aqui! Um abração.

M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elaine Crespo disse...

Renato Querido!

Saudades de você!

Estive um pouco fora , sofri um acidente.

Este é o Meu preferido da Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski. "A Fraternidade é Vermelha é o mais meigo e mais humano dos três. Adoro todos mais amo este.
Adoro ler teu comentário baseado na psicologia ou na psiquiatria. Fica mais claro e mais fácil entender os personagens e a trama ou enredo.
"há uma considerável diferença entre o ser e o existir." Retrata tudo que sentir ao assistir o filme.

Uma linda tarde!!
Beijos,
Elaine Crespo

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, depois de ler essa análise fantástica do filme, nem tem como não assistir ele e os demais.
Pois é, só o tempo para afirmar tantas coisas, tantas dúvidas ñ é? rs
Abraços menino

Valéria Sorohan disse...

O filme parece ser interessante, mas em suas palavras fica melhor ainda, acho que vale a pena assistir.

BeijooO*

Cynthia disse...

Olá Renato, tenho assistido muitos filmes atualmente, esse não assisti. Seu post sempre enriquecedor, nossa tenho que voltar sempre pra dar uma olhadinha e analisar seu texto, aliás como bom Geminiano (oposto ao meu signo solar), tenho muito que aprender, obrigada por passar no meu blog. Abraço Cynthia.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

A trilogia é perfeita. Mas ainda fico com A LIBERDADE É AZUL.

O Falcão Maltês

Victória R. disse...

Alguém assistiu esse filme pela internet? Se tiver, posta o link?

Renato Hemesath disse...

Para assistir online eu não conheço nenhum site, mas se tu quiser baixá-lo, tem este link direto: http://www.megaupload.com/?d=UB6JO0BD ;D

Kahlil Affonso disse...

Há muito tempo quero conferir 'A Trilogia das Cores', mas a falta de tempo me impossibilita de realizar este desejo!

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Évelyn Smith disse...

Olá querido e caríssimo Renato!!! Saudades de ti! Como estás?

Estou um tanto quanto estressada por esses dias, por conta do trabalho... Além disso, estou com aquela insônia de épocas de provas, acredita... Tenho tentado mentalizar o que irei escrever em meu próximo post, mas estou sem uma idéia concreta ainda. Enfim, tenho que me libertar deste estresse. Depois te conto com mais detalhes por e-mail.

Mais um filme da triologia! Este é o último, não é? Comecei a pensar quando li a sua resenha que o autor do filme quis nos passar uma mensagem diferente de fraternidade. As pessoas estão acostumadas a ouvir que "dando é que se recebe" e denominam isto de fraternidade. Não é bem assim... Talvez nem sempre quando fazemos o bem recebemos o mesmo em troca e pude perceber isto neste filme. Com Winnicott podemos perceber mais a fundo como brota a fraternidade em cada ser humano... Provém do desenvolvimento infantil de cada um de nós. Desta forma, se seremos recíprocos ou não a fraternidade, podemos encontrar uma explicação nesta fase. Esta "nova possibilidade de criação" foi praticada por Valentine devido ao seu potencial inovador e criativo desenvolvidos na infância, ainda quando bebê. Pode me corrigir, caso eu esteja equivocada!

Excepcional resenha, assim como todas as outras! Logo irei responde o seu e-mail e logo irei atualizar o meu blog. Ah, uma dúvida cruel: "e tenho roupa para passar... para amanhã ver a cara do mundo! tudo de bom, não é?", você vai viajar ou viajou?? Ou eu entendi errado mesmo? Rsrs...

Tudo de bom para você e até mais ver!

Beijo grande,
Évelyn

Daniel disse...

O vermelho é a cor da fraternidade, é um ótimo título para diversos afazeres. Parabéns por seu trabalho miraculoso por aqui, realmente este sentimento nos dias atuais, tem sumido. Cada vez mais, as pessoas não ligam com situações que nada tem a ver consigo mesmas e mal sabem que as ilusões e os sonhos todos estão ligados em uma unicidade milenar, em um todo indissolúvel, não é caro amigo? Fique bem, e que seu blog perpetue nas estrelas!

Dan

Evanir disse...

Querido sus postagens são lindas
poucos são os blogs que ousam
nesse tipo de postagem.
Para escrever tem que ter uma alma lindo como você.
Linda semana seguindo você beijos no coração ,Evanir.

alan raspante disse...

Excelente texto. Adoro a trilogia das cores e sempre que assistia esse filme, eu não captava diretamente a mensagem. Eu entendia sua proposta, mas ainda faltava algo. Era um filme vazio perto dos outros dois. O texto me mostrou um outro ponto de vista, mais plausível e que mefez entender melhor o filme.

Bacana!

Abs.

Emmanuela disse...

Um dos melhores textos que já li sobre a belíssima fraternidade de Kieslowski.