12.9.11

não-ficção ao meio-dia

Parece tentador nos acostumarmos com as mesmas histórias infantis e suas teorias. Meninos que amam a mãe, odeiam o pai e querem livrar-se dele; bebês que sentem-se gratificados com o seio e acreditam ser este mesmo objeto; e por fim, crianças que sonham sem limites e são capazes de inventar situações e personagens que nunca foram pensados. De tanto ser falado a respeito destas questões, parece que nada mais causa-nos espanto ou emoção. As teorias sofrerão modificações, é inevitável, e as histórias no entanto subsistem, porém o verdadeiro sentimento infantil relacionado a elas pode ter se esvaído com o tempo. Hipóteses são hipóteses. No cinema, entretanto, este sentimento pode ser re-experimentado, afinal dizem que todos levam consigo a criança que um dia foi. As estrelas de hoje serão crianças, lógico, que viverão seus próprios sonhos em uma idílica cidade apresentada pelo diretor Robert Mulligan em “O sol é para todos” | To kill a mockingbird – 1962 |. 


É típico dar o nome de povoado para referir-se a uma pequena cidade nos anos 60. Macon era o lugar em que viviam os irmãos Jem | Phillip Alford | e Scout | Mary Badham | de 10 e seis anos de idade, respectivamente. Eles eram filhos de um advogado chamado Atticus Finch | Gregory Pech | e viviam um cotidiano habitual de uma cidade interiorana. Em um primeiro momento, não são necessariamente os fatos que nos atraem, mas sim os objetos que representavam estes eventos. Explico-me. Jem guardava consigo uma caixa na qual havia diferentes brinquedos, peças, acessórios. Era algo semelhante a um velho estojo de ferramentas ou uma caixa lúdica de psicoterapia. Encontravam-se ali moedas de diferentes valores, giz de cera, apito, bolas de gude, bonecos, uma corrente. É válido ressaltar que objeto algum era guardado por acaso, pelo contrário: cada um deles representava momentos vividos por Jem, e consequentemente, tinham uma singular história. O abrir desta caixa convida-nos a conhecer este mundo e as memórias subjacentes a cada objeto. 


Aquelas recordações remetiam ao verão de 1932 em que as mulheres se abanavam antes do meio dia, e à noite, após sobreviverem às altas temperaturas climáticas, elas de tanto usarem talco tornavam-se parecidas com bolos de maçã cobertos de creme. Para Scout, as 24 horas do dia pareciam extensas, no entanto, as pessoas não tinham pressa. Rotineiramente, seu pai Atticus despedia-se pela manhã e retornava no início de cada noite, após longas horas trabalhadas em um tribunal. Peculiaridades da vida dos vizinhos e as histórias que estes contavam pareciam interessantes a Jem e Scout, que entre suas brincadeiras, estavam sempre implicados em querer saber mais, indagando sobre questões aparentemente complexas da vida. 


As duas crianças questionavam-se sobre um solitário vizinho que vivia preso em uma misteriosa casa. Eles admitiam a possibilidade deste ser um homem altamente perigoso, de modo que parecia arriscado aproximar-se do jardim daquela residência. Atticus, enquanto figura paterna e referencial daquele casal de filhos, também era alvo das especulações das crianças. Jem, acomodado em sua casa na árvore mostrava-se contrariado e dizia que não sairia dali, pois seu pai não lhe deixava ter uma espingarda e quando jogava futebol com ele, nunca queria ficar na defesa – “Para tudo diz que está muito velho”. As indagações de Scout eram de outra ordem. No momento em que ela e seu pai reuniam-se antes de dormir para ler, ela questionava-lhe sobre a “herança da família” – o relógio de bolso de Atticus que seria deixado para Jem – dizendo-lhe: “E eu... o que vai me dar?” O que Jem e Scout ainda não sabiam é que aqueles anos vividos em Macon dariam-lhe a experiência de se descobrirem enquanto sujeitos, de criarem hipóteses sobre os fundamentos do mundo e as destituírem, para que novas possibilidades fossem elevadas.


O interesse daquelas crianças diante do enigma sobre o misterioso vizinho leva-nos a pensar sobre um desejo inconsciente de saber muito peculiar àquele momento da vida no qual o funcionamento das coisas não é tido como óbvio. A curiosidade e o querer-investigar podem ser pensados a partir de uma identificação com o pai – um advogado que buscava respostas plausíveis para questões difíceis – mas também como um movimento pulsional próprio da fase fálica, na qual os papéis sociais e os fenômenos do mundo tendem a ser explorados pela curiosa criança, implicada em sua busca pelo saber. Com o passar dos dias, Atticus foi escolhido para a defesa de Tom Robinson | Brock Peters | um homem negro acusado de estuprar uma jovem mulher. As notícias em torno da audiência que seria realizada serviam de ocasião para muitíssimos comentários entre os moradores daquele povoado. O escândalo decorrente deste acontecimento envolvia não somente o moralismo daqueles habitantes, mas também as concepções étnicas introjetadas. No entanto, eles não sabiam que este fato os levaria ao encontro com um mal estar e com a possibilidade de repensarem sobre questões próprias a justiça e igualdade.


Ainda que teorias e suposições não sejam estáticas, é possível, a título de hipótese, considerar que as experiências de Jem e Scout naqueles anos podem ser analisadas a partir do material lúdico relativo a estes eventos. Deste modo, é necessário considerar a existência daquela caixa que continha significativos objetos guardados, os quais não eram somente peças colecionáveis de Jem, mas representavam absolutamente o seu mundo interno, constituído a partir da introjeção dos primeiros objetos bons. As identificações primitivas da criança a permitem experenciar a ambivalência de seus próprios afetos, pois o mesmo seio que lhe é afetuoso e capaz de supri-la, pode também ser terrificante, despertando-lhe o desejo de destrui-lo. É importante que neste período ela seja capaz de amar e odiar a própria figura parental, pois o reconhecimento da existência de seus impulsos hostis tende a favorecer o processo de integração e a capacidade para reconhecer um objeto total e se relacionar com ele.


Sabemos, evidentemente, que as memórias relativas a estas lembranças de gratificação primitiva serão esquecidas, no entanto, o sentimento que subjaz a elas poderá ser re-experimentado, seja por fotografias, sons ou pela própria capacidade de identificação com personagens, as quais deixam de ser meramente fictícias quando diante delas nos permitimos viver os mesmos sonhos, fazer perguntas similares e nos envolvermos em seus enigmáticos questionamentos. O sol é certamente para todos, não se trata de hipótese, mas pode-se considerar que a capacidade para sonhar é reservada àqueles que de algum modo desejam relacionar-se com a espontaneidade e ilusão da criança que um dia foram. 

Abraços fraternais,

Renato Oliveira

14 comentários:

Cleber Eldridge disse...

Eai tranquilo? Um excelente livro, não poderia render menos que um excelente filme, certo? Certo, é um FILMAÇO com tudo o que temos direito, um climax sensacional, personagens além do carismático, tudo muito muito bom!

Harper Lee ;****

O Impenetrável disse...

e eu me pergunto como não pude ter encontrado esse espaço antes? simplesmente uma maravilha aqui, super inspirador.

grande abraço.

renatocinema disse...

Com minha férias "forçadas" estou tirando algumas pendências da minha lista.

Esse é um filme que irei tirar.

Valeu pelo lembrete.

Abraços

Cynthia disse...

Olá Renato, meu caro colega blogueiro de oposição ao meu signo solar. Então Geminiano, esse finalzinho do seu texto ficou demais: O sol é certamente para todos, não se trata de hipótese, mas pode-se considerar que a capacidade para sonhar é reservada àqueles que de algum modo desejam relacionar-se com a espontaneidade e ilusão da criança que um dia foram.
Abraço Cy.

Anônimo disse...

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Renato,

Ah esse filme deve ser lindo! Gostaria muito de assisti-lo. Uma verdadeira lição de vida. Um abraço e ótima semana.

Anônimo disse...

Oi Renato... Adorei ! Valeu... Um abraço e felicidade para você!!! Luciana Piva

Évelyn Smith disse...

Olá querido e caríssimo Renato! Como estás? Saudades de ti! ;-)

Sei que a nossa Vidinha está um tanto quanto "agitada". Mas, como você mesmo me disse, logo iremos realizar os nosso sonhos e assim espero que concretizando este sonho, iniciemos o processo de fazer-algo-que-relamente-gostamos. Daí poderemos encaixar o tempo conforme o nosso mando, e tenho dito! Rsrs...

Mais uma resenha excepcional, querido! Você é demais! E o que me alegra é que estou conseguindo entender cada vez mais a sua escrita psicanalítca. É, estou aprendendo...

A fase infantil é realmente surpreendendte. Como temos a capacidade de projetar e introjetar, não? Ainda, isto fica conosco durante toda a nossa história de Vida. Re-experimentamos a todo o tempo!

Na resenha, houve a introjeção daqueles objetos por Jem, como foi muito bem colocado por você. A dualidade do "bom" e "mau" bombardeiam o mundo infantil. Quando ocorre o processo de identificação, acredito que começa a maturação do nosso desenvolvimento psíquico, pois somos capazes de integrar o que antes era dual. E isso somente depois do terrível Complexo de Édipo... Acabei de crer que é a pior fase que o ser humano pode enfrentar, ainda bem que a nossa cs não nos lembra disso e que o ics não sabe falar por ele mesmo...

Querido, já atualizei o meu blog. Depois entra lá de novo, quando tiver um tempinho. Amei o seu último comentário no meu blog, você me dá forças pra VIVER!!! E obrigada também pelas mensagens de celular!

Tudo de bom pro meu amigo, adoro-te imensamente!

Beijão,
Évelyn

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Belo texto, renato. Lembro da emoção que senti ao ver O SOL É PARA TODOS. E a abertura é sensacional..
Acabei de linkar o seu blog.
Abraços,

O Falcão Maltês

Francy´s Oliva disse...

Não sei quanto a você, mas, já percebeu que há momentos que também temos "caixas ou envelopes ou um lugar onde guardamos, coisas,objetos, fotografias e nos fazem relembrar alguma coisa do passado e que sempre temos alguém, ou vizinho que ao invés de cuidarmos da nossa vida olhamos para vida ele e mudamos o nosso foco para não olharmos para a nossa própria realidade? Extranho não acha? Ou totalmente normal? Vai saber!? Eu não sei.
bjs, tenha um lindo final de semana.

Valéria Sorohan disse...

Renato,

Mais um lindo filme que vc descreve de forma maravilhosa aguçando nossa curiosidade. É sempre muito bom mesmo passar por aqui e ficar sabendo das novidades.

Um beijooO*

Daniel disse...

Realmente meu caro Renato, o sol é para todos, fico pensando no garotinho guardando os objetos em sua caixinha. Quem nunca fez isso não é mesmo? eu mesmo tenho algumas lembranças que pareço que não abro mão por nada, como algumas bolinhas de gude, alguns geloucos da promoção da coca, alguns tazos. São todas lembranças de minha infância, que quero mostrar para alguém algum dia. E minha mãe insiste que eu os jogue fora rsrs. Um abraço,

Dan

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Peck sempre dizia que esse era o seu filme favorito.

O Falcão Maltês

Dil Santos disse...

Oi Renato, tudo bem?
Menino, voltei, rsrs
Eu não sou muito fã de filmes assim tão antigos, mas esse parece ser bem interessante, rs.
Se cuida menino.
Abraços