30.10.11

Impulsividade ou maestria?

Eu confesso a vocês que culpa e inocência são palavras chaves para a análise de hoje. São adjetivos paradoxais, sabemos disto, e ao mesmo tempo inspiraram muitíssimos filmes de gênero noir, nos anos 40 e 50. Ao falar em cinema noir é inevitável não se remeter à histórias sobre crime, acusações e chantagens. A princípio, gostaria de esclarecer que ele é inocente: este é o pressuposto principal que dará enredo a todo o conflito que o super Hitchcock – o grande Mestre – nos apresenta em “A tortura do silêncio” | I Confess – 1953 |. Conheceremos um injustiçado e nos envolveremos com a história deste homem que nada sabia sobre o seu suposto crime e sua propensão para amar. O silêncio será torturante e uma moderável agonia estará presente por todo o tempo. É nesta atmosfera relativamente fúnebre que adentraremos para conhecer um homem que saiu para roubar e, no entanto, realizou um assassinato. 


As primeiras cenas do filme acompanham o caminhar do mr. Otto Keller | O. E. Hasse | um funcionário de uma igreja que nesta ocasião, vestido como um padre dirigia-se à residência do Mr. Villette | Ovila Légaré |. A seguir vemos o corpo deste homem estirado ao chão para depois acompanharmos os passos do mr. Keller pelas ruas escuras em direção ao santuário: após assassinar aquele homem, ele foi à procura do padre com o intento de confessar o crime. A descrição do assassinato foi ouvida pelo padre Michael Logan | Montgomery Clift | que, em concordância com os preceitos religiosos, prometeu-lhe não revelar este segredo às autoridades daquela cidade. Parece-nos evidente que a escolha de uma “fantasia de padre” não foi ao acaso e já podemos maleficamente supor que os padres locais tornariam-se os principais suspeitos pela autoria do crime. Foi exatamente o que aconteceu. Mas a acusação principal recaiu aos poucos sobre o Pe. Logan – o detentor da verdade sobre o caso – mas que não poderia, sob circunstância alguma, revelá-la. 


Os padres tornaram-se suspeitos de assassinato após o depoimento de duas meninas que alegaram ter visto um padre próximo à residência do mr. Villette em torno do horário em que o crime ocorreu. No entanto, os indícios que apontavam Pe. Logan como um possível culpado foram sendo listados aos poucos, os quais não surgiram do nada e não se restringiam a meras suposições da equipe de investigação. A suspeita de envolvimento no caso teve seu início após Logan ter sido visto junto a Ruth Grandfort | Anne Braxter | em frente à casa da vítima, na manhã seguinte. Aqueles investigadores a princípio não sabiam que Logan e Ruth compartilharam, em momentos passados, de um laço sentimental. Talvez, em circunstâncias favoráveis, eles haveriam se casado, e assim sendo, Logan não teria se dedicado à vocação religiosa e nem seria, neste exato contexto, alvo de acusação criminal. 


Os pequenos momentos em que Logan e Ruth se encontraram foram atentamente observados por detetives e instigaram ainda mais as investigações quanto ao possível envolvimento do padre na morte de mr. Villette. As evidências se tornaram ainda maiores quando Ruth apresentou seus argumentos em defesa do Pe. Logan, alegando que no horário do crime eles encontravam-se juntos. Na tentativa em salvá-lo, ela criou uma rede de hipóteses e interrogações na mente daqueles detetives. O que você disser poderá ser usado contra ti – um certo clichê, mas que retrata muitíssimo bem o que aconteceu. Ruth não foi compreendida do modo como esperava, ao comunicar-se ela revelou fatos que foram usados contra suas próprias convicções. Os efeitos do discurso de Ruth acompanhado das suspeitas daquelas autoridades elegeram o Pe. Logan como o principal e possível autor do assassinato e o conduziram a um tribunal que analisaria a procedência dos fatos. 


Parece-nos praticamente evidente que Logan não precisava passar por isto. Afinal, ele sabia muito bem que o verdadeiro responsável pelo crime era o mr. Otto Keller – o qual mostrava-se indiferente a todas estas ocorrências. Ele não se considerava culpado, pois afirmava que não pretendia matar, mas somente roubar uma certa quantia para dar uma vida mais digna a sua esposa. É curioso como as concepções de cunho moralista estão presentes neste roteiro. Logan poderia anunciar o agente do crime, no entanto, não faria. O encontro com o discurso do criminoso revelou um saber da ordem da impossibilidade em ser reproduzido. Logan ouviu e, de acordo com a instituição da Lei, não poderia anunciar, pois um pacto simbólico estava previamente selado entre ele, enquanto autoridade e sacerdote, e aquele membro da comunidade. Esta aliança, em muitas circunstâncias, pode ser pautada na confiança de que há um Outro depositário de um saber absoluto, tido como verdade confessável, mas merecedora de punição. O silêncio de Logan diante do outro refletia sua submissão à ordem religiosa e sua castidade. No entanto, haveria um limite, uma suportabilidade? Até que extremo ele seria capaz de tolerar a agonia do silêncio para não burlar uma ordem estabelecida? Diante deste escândalo, Deus o perdoaria?


É possível considerar que o Pe. Logan encontrava-se a serviço de dois senhores: do supereu (agente moralista introjetado) e da realidade externa. Para conciliar a demanda destes dois “mestres” ele admitia o silêncio colocando-se em uma condição de não-saber. A proibição era bastante perspícua: “você não pode revelar, durante o tempo em que for padre”. A lealdade de Pe. Logan mostrava-se soberana a seu próprio querer, enquanto sujeito. Ele seria torturado pelo seu próprio silêncio e pelo desejo em burlar a lei a qual tornou-se cativo. Embora todo este conflito seja decorrente de um escândalo social, não é necessário que crimes ocorram para que o sujeito seja dividido na agonizante tarefa em ter que atender a diversos senhores. Freud (1923) institui oficialmente a existência de um aparelho psíquico no qual o ego, enquanto instância central da personalidade deve conciliar exigências de diferentes agentes: id, supereu e a realidade externa. Os desejos primitivos e de ordem inconsciente anseiam satisfação, mas que, no convívio civilizatório, terão que ser modulados conforme a instituição da própria Lei, que é externa ao sujeito – autoridades sociais, líderes religiosos – e também interna – Supereu, agente tirânico, obsceno e opressor. O autor observa que quanto mais um homem controla sua agressividade para com o exterior, mais agressivo ele torna-se em seu ideal de ego. O sentimento de culpa pode ser decorrente da incapacidade do ego em atender as exigências pulsionais do id sem infligir as normas do Supereu e da realidade externa.


Sabemos que o sujeito é cativo à discursos sociais que apresentam-se, muitas vezes, como um saber absoluto e irrevogável, que incide apresentando modelos idealizados e normas de conduta a serem seguidas. Diante deste outro, cabe ao sujeito à contínua e árdua tarefa de operacionalizar o seu desejo em relação ao mundo. A verdade confessável de mr. Keller teve desdobramentos que, a princípio, pareciam inimagináveis. Observamos que Logan, enquanto autoridade eclesiástica foi desafiado pela suposição de seu dom, sua vocação, sendo torturado por seu silêncio e por uma demanda de amor que o fazia maquinar seus próprios impulsos. 

Até a próxima, queridos!
Passar bem.

Renato Oliveira

20 comentários:

Psicanálise, Criminalidade e Depressão disse...

e o impulso de morte, esse algo destrutivo em nós e que está além do prncípio do prazer. O impulso de morte é para Lacan esse externo que nos ameaça e aterroriza.

Cynthia disse...

Olá Renato, esse filme mostra a sombra, como temos que aprender a lidar com a nossas não é mesmo? Obrigada por visitar meu blog, gostei muito do que escreveu, abraço Cynthia.

renatocinema disse...

Texto magistral.

Não assisti a obra. O que farei essa semana.

O impulso é o problema do ser "humano".

abraços

Évelyn Smith disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Évelyn Smith disse...

Querido e caríssimo Renato!

Muito obrigada pelos comentários em meu blog, cada um deles com o toque de especialidade que pertence somente a você. Fico muito feliz por você entender de fato a minha mensagem nos textos que exponho no meu blog. Antigamente eu tinha a impressão de que ninguém entendia as minhas "doideiras", mas agora percebo que consigo ser mais clara, aos poucos tento externalizar a interações de meu Eu-poético.

Estou naqueles tempos de quarentena da faculdade. Já terminei as primeiras provas e os primeiros trabalhos. Consegui ótimas notas em tudo, graças a Deus. Agora estou começando a fazer os trabalhos finais e lendo os textos das aulas, pois foi muita "sorte" minha ter ido bem nas primeiras provas. Confesso que eu não estudei praticamente nada e nem li todos os textos das matérias, fui pras provas praticamente só pelas aulas e pelo conhecimento que eu já tinha adquirido ao longo do curso. Não fiz nenhuma revisão e não li/reli nenhum texto. Eu estava enfrentando uma posição depressiva muito estranha nos últimos tempos... Algo muito forte e já havia comentando contigo tempos atrás. Enfim, estou vivendo bons tempos agora, tudo por causa de uma novidade que logo irei te contar... Pois é! Tem a ver com os meus novos rumos e planos profissionais. Agora sim terei a possibilidade de me dedicar realmente pra Minha Psicologia (narcisismo aflorado). Depois te conto tudo.

Mais uma resenha excepcional, querido! E ainda conseguiu mexer com o meu "calcanhar de Aquiles", digo, com o meu SuperEgo. Tem alguma diferença do SuperEgo de Freud para o SuperEu de Lacan?

Esta dicotomia vivida pelo Pe. Logan é bem vivido por nós também, em nossas realidades. O SuperEgo oprimindo-o, a realidade externa religiosa bombardeando-o, e... Eis a omissão para apaziguar a situação. Desta forma surge a culpa, pois não somos capazes de agradar de fato as duas dicotomias situacionais e nem muito menos agradar a nossas estruturas psíquicas; apenas encontramos um meio e viver com a nossa angústia. O Ego "grita" pelo Id e é manipulado pelo SuperEgo, resultando na seguinte conclusão teórica que você escreveu: "O sentimento de culpa pode ser decorrente da incapacidade do ego em atender as exigências pulsionais do id sem infligir as normas do Supereu e da realidade externa."

Assim que puder me mande notícias! Estou com muitas saudades de ti! E, acredita... Eu vejo o vídeo que você fez pra mim todos os dias... ;-)

Tudo de bom pra você! Adoro-te!

Beijão,
Évelyn

OBS.: Estou ouvindo uma rádio na internet que é de BH. Tem um programa que passam músicas de filmes, "Cinema Songs", e agora está tocando aquela música linda do Nat King Cole, "L-O-V-E" (e que você me mandou uma outra vez por e-mail). Sempre lembro de você quando escuto este programa! Depois eu te passo o link da rádio.

Tati disse...

Hitchcock e sua incrível habilidade em colocar na telona os conflitos mais intensos do sujeito. Esse filme ainda não vi, mas está na minha lista. Excelente texto como sempre Renato ;)
Beijos
Tati

Francy´s Oliva disse...

Sem palavras sobre Hitchcock(gênio do suspense).
Mas cá entre nós a maioria das pessoas nunca tem intenção de matar, erra, amar, querer, e bla bla bla isto geralmente acontece "como um simples toque de mágica" e geralmente todos somos inocentes quando isto acontece kkk, sabe por que não esperávamos que isto fosse acontecer justamente conosco (é ilário não acha?)
Bjs, gostei do texto e ainda não assisti este filme.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Muito bom o seu texto, Renato. Conseguiu traduzir o conflito central do filme.

O Falcão Maltês

Cristiano Contreiras disse...

Um filme subestimado este, uma pena, pois traça um retrato perfeito de um homem à beira do caos interno...refletindo seus princípios, atos e até é um belo retrato amoroso. Belo trabalho de Clift. Direção, fotografia e roteiro primorosos. Seu texto é intenso, analisa bem e percorre os questionamentos principais deste marco de Hitchcock, meu filme favorito dele! Parabéns!

Abraço

Ps. Uma pena ter me retirado da lista de suas indicações aqui. Até.

Karla Hack dos Santos disse...

O filme realmente é um tratado sobre este conflito interno, sobre uma tortura imposta pelo próprio agente... O silêncio que ele entendeu como forma valorativa suprema de sua vocação religiosa.
Sua análise não poderia ser mais feliz! Uma película que merecia mais atenção do que a dada pelo público em geral.

Ótima pedida!

;D

Emmanuela disse...

Odoro textos que instigam!
Nunca assisti a este filme de Hitchcock, confesso que fiquei muito curiosa após a maravilhosa leitura!

Gilberto Carlos disse...

Gostei muito de A tortura do silêncio. É muito complicada a situação do padre que não pode revelar o segredo de confissão. Não sei o que eu faria. Talvez contaria tudo para a polícia...

Karla Hack dos Santos disse...

Não sei o motivo, mas não estou conseguindo comentar no seu texto acima... 2 anos de blog é um feito e tanto.. ainda mais se o espaço prima pela originalidade pessoal.

Parabéns!!!
E que muitos mais filmes sejam comentados por você!

;D

Cynthia disse...

Olá só passei para dar uma olhada no blog, abraço CYnthia.

Valéria Sorohan disse...

Parabéns! E que você continue com suas críticas por muito, muito tempo para nosso deleite.

BeijooO*

Évelyn Smith disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Évelyn Smith disse...

Caríssimo e querido Renato,

É como imenso orgulho que parabenizo a você por esses 2 anos de produções criativas e intelectuais! Você é um Ser atuante, com imenso potencial, belo em todos os sentidos, especial em tudo aquilo que faz. Bom, eu ficaria aqui dias e dias descrevendo as suas qualidades. Tenho certeza que elas ajudaram e muito a sua perseverança magnífica de continuar com o seu sonho, que se transformou neste excepcional blog. Mas, na verdade, a sua essência íntegra que faz com que tudo aquilo que almeja dê certo!

Acredito que este blog nem seja um blog, é muito mais do que isso... É um âmbito de aprendizado, cultura, de forças inovadoras, de sonhos que podem sim se tornar realidade através de suas palavras racionais e sentimentais ao mesmo tempo...

O seu dom de escrever (ou este seu Fenômeno Transicional que carrega) passa sobre barreiras do pensar e faz com que percebemos a magia dos cinemas e uma forma que nos encanta ainda mais... Pois tudo que envolve a Psicologia, principalmente a Psicanálise, faz com que nós (os eternos apaixonados) tenhamos ainda mais fissura e prazer por aquilo que escolhemos nos empenhar pro resto de nossas Vidas.

Querido, logo irei responder o seu e-mail! E já atualizei o meu blog, desta vez fiz um texto carregado de raiva, mas que tudo se acalma no final... Nem sei como consegui arrumar tanta inspiração, acredito que as sitauções desagradáveis nos encoraja a enxergar o mundo de outra forma e, sim, de uma forma positiva doravante.

Entonces... É isso.

Mais um vez, sinto um imenso orgulho de fazer parte desta sua jornada! Você merece tudo de bom em dobro, em triplo, em infinidades!!!

Adoro-te! ;-)

Beijão,
Évelyn

M. disse...

Renato,

Só quero mais uma vez dar os parabéns por este espaço tão lindo, cativante, sensível e inteligente que é o Cine Freud. Sem dúvida, o mais inovador dos blogs sobre cinema. Abraço e bom fim de semana!

Sergio Martins disse...

Hitchcock é mágico! Viva a arte quenos põe em confronto com nosso Eu! Adorei a dica, muito obrigado!

Maicom disse...

Estupendo!
Autoconhecimento, chama-se. Uma tarefa árdua e não menos nobre.

Abração, querido.