9.10.11

Sedução: você perdeu!

Está previsto para hoje a enunciação de catástrofes. Sabemos que acontecimentos funestos não possuem um discurso padronizado, tornando-se muitas vezes manchetes dos noticiários ou até mesmo motivo de sátira. O que é possível afirmar, com toda certeza, é que tais fatos existem e podem ser classificados em pequenas ou grandes tragédias. E nós – enquanto pessoas complexas que somos – podemos ser impactados por eles, ou simplesmente vir-a-ser indiferentes aos tais. Diante da catástrofe de hoje eu imagino que você não será neutro, e suponho que será possível questionar se, de fato, a maldade está somente nos olhos de quem a vê. O diretor Abel Ferrara nos dá indícios de que monstruosidades fazem parte do cotidiano e podem ser camufladas sob uma roupagem de fragilidade e até mesmo em uma fantasia de freira. O que veremos a seguir é a ausência da comédia, o seu negativo, que será pouco cautelosamente apresentado em Sedução e Vingança | Ms. 45 – 1981 |.


Um título de certo modo nonsense, mas simples, no entanto. Uma arma de calibre 45 que será utilizada nas mãos de uma excêntrica mulher. Ao ser vista pelas ruas é possível que Thana | Zoë Tamerlis | fosse tida por muitos como uma autista relativamente bem adaptada. Ela trabalhava junto a outras jovens como auxiliar em uma confecção e uma de suas características principais era a ausência de fala. No entanto, Thana não era muda, mas por razões a princípio desconhecidas ela não se expressava verbalmente, embora compreendesse o mundo a sua volta e soubesse muito bem como se fazer entendida. O seu universo, deste modo, era particular: Thana vivia solitariamente em um apartamento e utilizava de pequenos recados escritos para comunicar-se com outros, quando necessário. 


Seria Thana uma doce e querida jovem? Sabemos que nada faltará a ela: medos, pesadelos, tremores, espantos, horrores generalizados, etc. Ao retornar para casa após um dia de trabalho ela foi surpreendida por um homem que após ameaçá-la com uma arma, a conduziu para um estreito corredor inabitado com o intento de violentá-la. Thana foi estuprada nesta ocasião, sendo colocada na condição de objeto de um misterioso homem que prometeu retornar. O horror deste acontecimento foi acompanhado de uma situação igualmente ameaçadora: naquele mesmo dia o seu apartamento havia sido assaltado e o agente deste crime a aguardava. Ela foi não somente surpreendida por este homem como também violentada, sem a mínima possibilidade de assimilar a emergência destes acontecimentos. No entanto, neste segundo ato Thana não foi apenas objeto nas mãos de um outro, pois ainda que impossibilitada de manifestar qualquer reação de alarme, ela reagiu à afronta e foi capaz de atingir o agressor, para posteriormente, atacá-lo com um ferro de passar roupa. Nesta situação, ela matou aquele homem e imediatamente planejou o que seria feito com o seu corpo. 

Atemorizada diante da concretização deste ato, Thana dirigiu o corpo daquele homem a uma banheira, mantendo-o às escondidas para em um segundo momento, cortá-lo, embrulhá-lo em sacos plásticos a fim de deixá-los pela cidade. Nesta prática era fundamental que a identidade de Thana permanecesse oculta e que os vestígios do crime fossem exterminados. Chamaremos esta tática de procedimento, cientes de que algo muito semelhante foi feito pela jovem Carol Ledoux, no filme Repulsion, do Polanski, o clássico de 1965. Lembram-se?  


A banheira foi esvaziada e os pedaços daquele homem, aos poucos, desapareceram do apartamento de Thana. No entanto, algo permaneceu: o trauma era evidente e o horror decorrente daquelas imagens e sensações experienciadas. Após matar aquele homem, Thana apropriou-se de sua arma e se implicou em uma efervescente tarefa de assassinar outros homens. Ela não seria seletiva, mas minimamente prudente para não ser descoberta. Cada oportunidade deveria ser utilizada e com sua expressão aparentemente catatônica, ela foi capaz de envolver diferentes homens e matá-los, dispondo de mínimas táticas sedutoras. Parece-nos que Thana simplesmente reproduzia o ato do qual foi vítima numa busca metonímica de encontrar alguma significação para aquele crime. 


Diante desta barbárie podemos pensar que a vingança seja o principal tema em pauta, mas para tanto teríamos que responder a complicadas questões: à quem ela dirigia-se? Ela fazia demanda em relação a quais pessoas? Os objetos que Thana destruía eram praticamente indefinidos e tinham unicamente um critério: eram seres do sexo masculino. O horror diante do fato traumático não pôde ser expresso por meio da linguagem, ela não era capaz de falar sobre aqueles dois eventos, e para tanto, encontrou uma outra via de simbolizar uma experiência. Enquanto estrutura, minha hipótese é que trata-se de um caso de histeria. Thana ainda que “muda” – aquela que não emitia som – nos dá indícios de que encontrava-se no simbólico, no campo da linguagem e que possuía uma relação com a lei. Após a realização de alguns daqueles assassinatos, ela mostrou-se aterrorizada pela concretização de um desejo de vingança, sentindo enjoo, em uma das ocasiões, e sentindo-se constantemente aterrorizada pela possibilidade de ser punida. O medo da autoridade revelava-se de modo paradoxal: temor diante de autoridades externas e das ações tirânicas de seu próprio supereu. Ao matar aqueles homens, ela enunciava a sua soberania diante de um outro – outro masculino – no entanto, o constante extermínio não anulava o verdadeiro desejo de Thana em relação a suas vítimas. 

Ao matá-los, ela possivelmente buscava uma significação para sua própria falta-a-ser em constantes tentativas de ser identificada com o masculino suposto detentor do falo, objeto ao qual ela se considerava faltante. A fantasia de heroína era vivida por Thana em seu anseio de militar pelo ter, acreditando tornar-se assim, imaginariamente fálica. O negativo da comédia, neste contexto, portanto, é a objetificação do outro. É o discurso catastrófico capaz de evocar diferentes modulações de espanto. No decorrer de toda metonímia do desejo de Thana constatamos a existência de diferentes outros, todos reduzidos à condição de objetos por uma suposta detentora imaginária do poder.     

Fiquem bem! super abraços,

Renato Oliveira

12 comentários:

M. disse...

Renato,

Eu sempre amo vir aqui e ler estas resenhas super bem-feitas, inteligentes e originais. Ninguém no espaço web faz algo parecido: este seu selo exclusivo é mais que bacana. Pretendo assistir a este filme. Parece ótimo! Abraço e ótima semana!

renatocinema disse...

Super texto.

Esse filme me parece mais que obrigatório, imperdível.

Évelyn Smith disse...

Olá querido e caríssimo Renato! Saudades sem fim de ti!!! ;-)

Obrigada pelos comentários em meu blog, o seu carinho me conforta muito e me dá forças pra viver o meu caos completo. Este mês fiz uma "dobradinha", resolvi colocar aquela foto vasta, que simboliza o meu agora, e logo abaixo dela um verso que escrevi recentemente. Fora aquela postagem do "bobo da corte"... Eu fui longe, mas acho que acabei conseguindo fazer uma correlação coerente de entendimento. Já fiz uma outra postagem, programei pra postar no dia 10 de Outubro, às 01h50 da manhã. Depois você vai entender o porque...

Também estou naquela correria... Na verdade estava, as provas terminaram na sexta, graças a Deus! Bom, eu aina vou ter uma outra prova no dia 17, mas vai ser bem mais fácil do que foram essas que fiz nesta semana. Uma semana de provas é "Freud", o cansaço nos toma conta por completo. Te conto mais por e-mail. Eu li a sua resposta tem um tempinho, mas esperei acabar essa época de provas e trabalhos pra poder te responder com calma.

Ahh, que bom! Pelo visto alguém vai se lembrar do dia 10... Fico feliz demais da conta, querido! =D

Nossa... Amei este filme! Deve ser por causa dos meus estudos sobre a Melanie Klein neste semestre, só me lembrei dos escritos dela quando estava lendo a sua resenha... Daquele "mar de sangue" que ela faz com as palavras.

A sua resenha ficou muito rica, excepcional! Você conseguiu extrair informações importantíssimas, que passariam despercebidas. Traumas vividos geram em cenas traumáticas que perpetuam pro resto de nossas Vidas. O que foi vivido pela personagem Thana é bem comum de vermos por aí, ainda mais nos nossos estudos. Quanta vezes nos pegamos fazendo coisas inexplicáveis? Se formas analisar, vem de traumas de nossa infância ou até mesmo devido à fatos drásticos que passamos. Este último pode ser remetido ao caso da personagem.

Achei interessante o que você colocou, sobre a estrutura psíquica da personagem. Consegui captar o que você quis dizer, sobre a histeria de Thana, neste parte: "Após a realização de alguns daqueles assassinatos, ela mostrou-se aterrorizada pela concretização de um desejo de vingança, sentindo enjoo, em uma das ocasiões, e sentindo-se constantemente aterrorizada pela possibilidade de ser punida". São características próprias, acredito que você está com a mais plena razão!

Querido, é isso! Muito obrigada por você existir em Minha Vida, agradeço muito por seu afeto e por se dedicar a minha pessoa. Saiba que a recíproca é sempre a mesma! =)

Tudo de bom pra você!

Beijão,
Évelyn

Cynthia disse...

Olá Renato, eu agradeço por visitar meu blog. Seu blog também é muito legal, coloca detalhes que muitas vezes nos passa despercebido nos filmes. Nada mal para um Geminiano, a comunicação e sua característica principal. Abraço Cynthia.

Valéria Sorohan disse...

Tentarei ver. Vc nos atiça com seus textos.

BeijooO*

ROSANA VENTURA disse...

MEUUUUUUUUUUUUUUUU...quero ver este filme AGORA!!!!!
Tem jeito não REnato, quando quero uma dica para um bom filme, aqui é passagem obrigatória...vou ver!
bjossssssssss

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Saudade dos primeiros Abel Ferrara...

O Falcão Maltês

Rodrigo Mendes disse...

Eu vi já faz um tempo a obra de Ferrara, não completa. Lembro de ter gostado de "Vício Frenético", o melhor ano cinematográfico do ator Harvey Keitel. Sua resenha me deixou salivando. Preciso assistir este.

Forte abraço!

Sergio Martins disse...

Sou amantede bons filmes e por isso adorei teu blog; parabéns!!!

Tenha uma semana maravilhosa!
Obrigado!

alan raspante disse...

não conhecia o filme. impossível não querer ver após ler teu texto.

preciso ver o quanto antes!

Karla Hack dos Santos disse...

Sobre o post:

Eu sempre gostei do trabalho de Abel Ferrara, ele é ótimo em "explicar" o lado obscuro dos mais variados seres...
Confesso que este filme em específico eu não assisti, mas fiz questão de ler sua análise e acompanhar a partir daí.
Dá para entender esta busca por um "poder", ainda que imaginário/temporário de Thana. Eventos extremos, repercussões extremas.


Sobre o comentário lá no meu blog:

Muito obrigada!
Gosto muito do William Castle, mas é claro tenho um certo encanto pelos filmes de baixo orçamento.. A criatividade parece fluir melhor!

Olha, se você não viu nenhum deles, aconselharia Retrato de Um Assassino e Gêmeos, Mórbida Semelhança. Acho eles mais substanciais.

Estou add seu blog entre os Essenciais lá no meu.

;D

Vanessa Sagossi disse...

Olá.
Gostei da resenha e de certa forma fiquei curiosa para conferir este filme.

Att,
Vanessa Sagossi
comentandoofilme.blogspot.com