24.1.12

feminino ou masculino: quem pode entrar?

A sessão terror de hoje novamente dispensa monstros, vampiros e animais que falam. Uma equipe especializada encarregou-se de encontrar algo que realmente fosse capaz de causar assombro em qualquer população. Se por um lado alguns animais e criações fictícias foram feitos para entreter, por outro sabemos que este material encontrado a princípio não produz entusiasmo, podendo conduzir algumas pessoas a um momentâneo abatimento em suas devidas almas. Na cerimônia que aqui será descrita moralistas não são bem vindos porque o horror talk show nada mais é que linguagem e o material encontrado é conhecido por aquilo que existe em algum lugar da mente, mas que por razões que em breve serão esclarecidas não deve ser dito. A título de esclarecimento destaco que o não-dito pode ser representável, exatamente aí que entra a mente do diretor Joseph Losey que nos conduz aos amores e horrores agridoces em Cerimônia Secreta | Secret Ceremony – 1968 |.


O cinema pode ser entendido como uma das tentativas mais nobres de desvelar o secreto humanamente impossível de ser expresso por vias diretas, como a fala. A confusão, o insano e a inversão fazem parte da proposta. Assim, é possível termos filhas e mães trocadas que repentinamente descobrem-se enquanto sentido do desejo da outra. Em uma acepção semelhante a esta ocorreu o encontro entre Cenci | Mia Farrow | e Leonora | Elisabeth Taylor | como uma obra do acaso. Ao vê-la, Cenci aproximou-se edificada pela constatação de que aquela era sua mãe que há meses havia saído de casa. Trata-se de um engano aparente, pois Leonora não era a mãe de Cenci. No entanto, a semelhança entre as duas mulheres era notável, o que não inviabiliza a suposição de que Cenci delirava. A jovem não era psicótica, mas esquizofrenogística, por quê não? O delírio da filha será aos poucos mostrado, o qual é de ordem primitiva pautado na idéia imaginária de que a mãe pode dar à uma filha aquilo que ela não tem.


Cenci seguira Leonora até uma igreja na qual uma cerimônia de batismo era realizada. O ambiente em questão era representativo de uma Ordem Sagrada simbolizando por meio do batizado a possibilidade de remissão de quaisquer impurezas, para uma vida sem culpas. Ao observar a cena e a expressão estarrecida de Cenci, Leonora remeteu-se à cerimônia de enterro de sua filha Judith Frances Grabowski que faleceu aos 10 anos de idade deixando-lhe a missão de algo a fazer com o sentimento de culpa por não ter sido uma boa mãe. Para lidar com este sentimento, ela transportou-se do Sagrado ao profano indo para a arrojada residência de Cenci enquanto a persona da boa mãe que um dia retorna ao lar.


A filha dá à mulher o lugar de mãe, tendo em vista que somos aquilo que o outro nos autoriza ser. Para desvendar o enigma delirante de Cenci e, principalmente, a fim de lidar com o seu próprio sentimento de culpa, Leonora assentiu a estadia naquela casa. Neste papel, uma de suas primeiras ações foi fazer o outro falar: Leonora tudo queria saber sobre o mistério que envolvia a família de Cenci, e uma das primordiais questões envolvia a compreensão quanto ao lugar que o pai ocupava naquela família. Ela ficou surpresa ao constatar que não havia um pai em questão, o marido encontrava-se riscado na fotografia de casamento, demarcando a exclusão imaginária do lugar paterno. Simbolicamente, por outro lado, ele existia fazendo-se presente no discurso de Cenci como aquele que fora colocado para fora de casa pela própria mãe, a qual em resposta ao ciúme sentido não admitia que o esposo tocasse o corpo da filha. Posteriormente, a mãe de Cenci havia estabelecido um segundo relacionamento.


Os devaneios e relatos de Cenci eram observados por Leonora que, ao assumir a posição de espiã, sentia-se entorpecida com as cenas que a jovem representava solitariamente. Cenci buscava uma significação para sua própria falta-a-ser no mundo. Ela atuava em uma cena de envolvimento sexual entre pai e filha, mostrando-se ao mesmo tempo envolta e consumada. Sua demanda a este outro era paradoxal: você pode ter-me, e não pode. À esta representação seguiram-se outras atitudes provocativas de Cenci com o intento de testar os limites da irritabilidade de Leonora. A ambivalência presente na dimensão fantasiosa também se mostrava na relação da jovem com a mãe, a qual era amada e retaliada, ao mesmo tempo. Com o passar dos dias, contudo, Leonora identificou-se mais ainda com o lugar de mãe assumido, considerando-se capacitada para proteger a filha dos perigos que envolviam a incursão de um masculino real.


Nesta casa habitada exclusivamente por mulheres os maiores temores e horrores poderiam ganhar estatuto de realizados. Os relatos e fantasias de Cenci sobre as investidas de seu padrasto causaram em Leonora um horror tamanho que suas ações denotavam um interesse em proteger a filha deste “agente nocivo”. De convidada de honra ela passou a ser a amedrontada vigia encarregada de resguardar o mais puro bem da família: a virgindade de Cenci. Neste contexto, a principal herança familiar não diz respeito ao dinheiro, mas à pureza sexual. Os propósitos de manter este bem intacto seriam vulnerabilizados pela chegada de Albert | Robert Mitchum |, o padrasto, aquele que como uma serpente provocadora circulava em torno da casa para captar sua presa. Assim, o temor de Leonora pode ser traduzido na seguinte consideração: “o masculino não pode entrar”. Como uma usurpadora e ao mesmo tempo mulher de boa fé caberia à ela impedir a incursão deste outro que poderia causar-lhes as maiores devastações, desmascarando, inclusive, o seu lugar de mãe. 


Percebam uma correlação entre as expressões utilizadas: “casa habitada por mulheres”, “agente nocivo”, “pureza sexual” e “o masculino não pode entrar”. A questão latente de Leonora ia além da identificação com o lugar de protetora. Ao temer o masculino que não podia entrar ela na realidade sentia-se apavorada com a possibilidade de que aquele que representa o masculino no inconsciente – o pênis ereto – entrasse, causando-lhe os mais diversos dissabores: a perda da virgindade da jovem, gravidez e um prazer absolutamente mais elevado àquele que ela encontrara com outros homens. Sua atitude de amor para com Cenci não excluía um sentimento de inveja frente à possibilidade de realização sexual da “filha”, e tendo em vista o desprazer consequente deste sentimento, ele se revelava na consciência como um desejo de proteger, cuidar e promover abrigo. Cenci foi colocada como substituta à filha perdida de Leonora, a qual tornou-se aos poucos repudiada, tendo em vista que era aquela que bloqueava o acesso ao pai, e consequentemente, ao desejo de Cenci.


Nesta cerimônia aqui comentada introduziu-se o verdadeiro horror que infligia a alma abatida de Leonora, a saber, o seu desejo pelo outro masculino, por paradoxalmente entregar-se à ele e defender-se deste mal. A figura do Sagrado representada pelo ritual na igreja e pelas confissões de Leonora refletem uma possível saída para uma vida sem culpa, tentativa desenfreadamente buscada por ela à sua culpa de não ter sido uma boa e satisfatória mãe. Para encarar a realidade deste fato, contudo, ela teve que lidar com a inversão do sagrado, o profano, revelado por meio de sua introdução àquela casa exclusivamente habitada por mulheres, em que a morte, a culpa e o desejo sexual eram iminentes.

Cordialmente,

Renato Oliveira

11 comentários:

Alan Raspante disse...

Já conhecia o filme, mas não imaginava que a história era tão interessante assim. Adoro Elizabeth Taylor.

Verei, com certeza!

Karla Hack dos Santos disse...

Adoro as suas análises...
Eu com meus olhos de leiga deixo escapar representações interessantíssimas... A busca por rendenção sempre vem velada de muita dor e fuga da realidade, assim como a castração, pelo menos é a impressão que tenho.

Não vi este filme, mas, já coloquei na lista dos próximos que assistirei!

Sucesso!

;D

Camila Leite disse...

Olá, adorei conhecer seu blog e de cara, bato de frente com um post e tanto! Elizabeth Taylor... Uma mulher de peso para o cinema. Brilhante.
Ainda não vi o filme, mas com certeza foi parar na lista dos que "necessito assistir"
Abraços!
Camila Leite

@sonhospontinhos
www.sonhosentrepontinhos.com

Igor Gouveia disse...

Oi tudo bom? Então, é a minha primeira visita aqui no seu e poxa, estou adorando! Estou seguindo e voltarei mais vezes!

Também tenho um blog, passa por lá? Te deixo o link dele:
http://25conto.blogspot.com/

Abraços!

Suzane Weck disse...

Excelente teu blog.Adoro cinema e estarei seguindo.Grande abraço.

M. disse...

Grande análise Renato! Tudo o que você escreveu me impressionou bastante. Esse filme com a deusa Liz Taylor ainda não vi. Mais um para meu caderninho de filmes que quero ver!

Tenhas um dia lindo e produtivo. Abraços.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um filme muito forte... As atrizes estão ótimas.

O Falcão Maltês

Astroterapia Junguiana disse...

Renato, obrigada por passar e deixar suas palavras analíticas em meu blog, fico muito feliz. Esse post de Taylor que era uma pisciana e Mia que era uma aquariana ficou bem nítido o processo do FEMININO. Muitas vezes a ajuda dos outros perante o problema dos outros não quer dizer (ajuda) e sim o pedido que essa pessoa faz para ser ajudada. As pessoas tem dificuldade de pensar sobre isso, então temos as madre de calcutá por aí. Somente a psicanálise nos traz para a consciência. Parabéns vc tem um inconsciente admirável. Abraço de sua amiga blogueira Cynthia

• Ӗwerton Ľenildo. disse...

OMG! Nem conhecia esse filme, agora quero ver hehehe :D
Me chamou bastante atenção as feições dos atores. O elenco me parece ser forte ;)
Mas só assistindo realmente para saber hahaha
Valeu a dica, lindo post rapaz!
Sucesso SEMPRE viu? No que precisar estou aqui ;D Abração.


Ewerton Lenildo – Academia de Leitura
papeldeumlivro.blogspot.com
@Papeldeumlivro

Sergio Martins disse...

Obrigado pelas boas sugestões de filmes por de sua irresistível escrita! Vou procurar esse filme, pois além de amar a Elisabeth Taylor, gosto muito desse gênero. Viva à sétima arte!

Évelyn Smith disse...

Olá Caríssimo Renato! Como estás?

Se não me engano, já li outras resenhas por aqui dentro deste mesmo contexto: a sastisfação dos desejos e prazeres maternais através da figura de seus filhos ou através de outra figuras que (re)signifiquem os seus filhos.

Ontem fui ao cinema e vi "Precisamos Falar Sobre Kevin". Você já deve ter ouvido falar (ou já teve ter visto). O contexto desta sua resenha também me lembrou este filme... Depois podemos conversar sobre.

Saudades! Tudo de bom pra você!

Beijão =)