19.3.12

A boneca não existe

A análise de hoje é especialmente destinada àqueles que apesar dos infortúnios do planeta, acreditam que sapos podem virar príncipes. Existe esperança para os que sonham, apesar de tudo. Desta vez, o desafio foi tentar coisas que ninguém antes tentou, um projeto mirabolante e de pouca coerência lógica aos mais entendidos. Esta demanda foi assumida pelo diretor Michael Gottlieb a fim de que sentimentos infantis pudessem ser redescobertos frente ao perigo que envolve a relação com o impossível. A estrela principal será um ser inanimado, o qual somente os sonhadores poderão enxergá-lo. Nesta circunstância será permitido que os artistas se apaixonem por suas criações, que poderão ter as mais variadas formas, de monumentos egípcios à bonecas articuladas, seres excêntricos, portanto, que serão incutidos na linguagem humana expressa em Manequim | Mannequin – 1987 |.  


Se por um lado os anos de juventude são tidos como a época de maior liberdade da vida, são neles que experenciamos infortúnios de naturezas mais distintas. É o momento de descobrir as possibilidades do mundo, de arriscá-las e fazer comédia frente aos maiores cataclismos já imaginados. Para o jovem Jonathan Switcher | Andrew McCarthy | não havia trabalho ruim, o terrível era, por outro lado, subsistir em algum deles. Ele queria ser criativo quando o que de fato importava aos empregadores era a produção como reflexo da crua realidade time is money. Quando nada parece dar certo... quando as desventuras são maiores que as satisfações o jeito é conversar com seres inanimados. Foi esta a iniciativa de Jonathan após ser admitido como auxiliar em uma loja centenária fadada ao fracasso. “Gosto de coisas criativas” – mas o que ele não poderia supor é que a sua elevada capacidade para devaneios o colocaria frente ao inimaginável. 


Ao observar atentamente uma manequim, ele sentia-se encantado com a beleza e perfeição daquele objeto, a este respeito dizia-lhe que “todo artista se apaixona por sua criação, mas você parece tão especial”. E no princípio era a linguagem, e dela se fez todas as coisas: ao falar a obra materializou-se em realidade, a manequim recebeu vida, ganhando a forma de uma voluptuosa mulher. A desrazão foi a primordial causa que o próprio artista atribuiu aquilo que seus olhos podiam ver. A incongruência relacionava-se, assim, ao encontro com o impossível, com aquilo que não poderia ser racionalmente explicado. Contudo, o maior estranhamento de Jonathan se deu ao constatar que a “boneca” falava, sua articulação não se limitava aos movimentos corpóreos e atingia o nível da excelência discursiva. 


Os devaneios do jovem Jonathan, a partir de então, eram insuficientes para dar conta de explicar quem era esta mulher. Ela mesma, por seu próprio dom, esforçou-se em apresentar-se: “Veja, eu nasci em 2514 A. C. em Edfu, Egito. Farei 4.501 anos no próximo Abril” – de uma vida em um sarcófago para a uma vitrine luminosa, na qual o olhar do outro daria a confirmação de que aquela obra era original. Enquanto uma múmia é representada em sua ausência de movimentos, por uma vida previsível e sem elaboração psíquica, esta boneca real possuía maior articulação motora e discursiva, apta para transmitir ao outro o seu encanto e seduzi-lo. Emmy | Kim Kattrall | seria aquela que propiciaria a Jonathan a oportunidade de sentir-se agente de criação, em uma atmosfera cotidiana em que absolutas convicções tornariam-se passíveis de questionamentos.


O encontro com aquilo que era racionalmente intraduzível em palavras foi a ocasião para a descoberta de um mundo imaginativo existente nas dependências daquela centenária loja. Emmy e Jonathan encarregaram-se de transformar a vitrine num espetáculo e fazer com que a realidade das cores, das roupas e do brilho tocassem os olhos e as emoções daqueles que não seriam indiferentes à esta criação. O resultado era nitidamente visto no olhar de todos que deslumbravam-se com esta nova atração, provocando a admiração de alguns e a desrazão de outros: à alguns funcionários da loja parecia descabido conceber que um tão jovem rapaz era o criador daquelas vitrines, que diariamente eram atualizadas. Se à eles fosse dito que Jonathan a elaborava conjuntamente à sua criação tão pouco adiantaria. As vitrines foram elogiadas com grande admiração pela quase centenária proprietária da loja, Ms. Claire Timkin | Estelle Getty | que destinou à Jonathan a função de criador visual, dizendo-lhe: “não duvide de você mesmo. Apenas crie”. A vitrine era montada diariamente pelas madrugadas tornando-se a grande atração das manhãs entre aqueles que aproximavam-se ansiosos para deslumbrar o encanto das manequins.


É esperado que o brincar com uma boneca real não trouxera ao jovem apenas resultados satisfatórios. Sua promoção foi seguida de catastróficas confusões envolvendo aqueles que disputavam a concorrência com a centenária loja. Havia um enigma em questão que fizera um comércio outrora desabitado tornar-se economicamente bem sucedido. Se por um lado a criação de Jonathan revelava uma mulher inimaginável ao saber humano e científico, por outro ela precisaria permanecer oculta aos olhos de qualquer outra pessoa, portanto aos demais, ela adquirira a forma de “múmia”, transformando-se quantas vezes fossem precisas em uma manequim de pouca articulação, como um retorno à seu lugar-comum. 


Foi necessário tão somente que Jonathan falasse com ela para que Emmy tornasse real, transformando a veracidade das luzes, do som e das roupas em uma materialização do impossível. Neste contexto, qual a diferença fundamental e nítida entre a boneca real e a boneca inventada? A capacidade de produção discursiva. E se pode falar, pode nomear coisas, tornando-se assim ser falante e, consequentemente, desejante. Temos portanto, a complexificação do que seria um conto de fadas protagonizado por um agente masculino. Emmy foi criada via discurso do outro, materializou-se, passando a ocupar o lugar de resposta a demanda de um jovem. Contudo, um ingênuo menino, que não tinha ciência de que ao brincar de boneca assumindo uma posição propriamente masculina ele seria incutido nos mistérios que envolvem a relação com um outro feminino da linguagem.


Ao julgar tudo saber sobre sua criação, Jonathan buscaria, evidentemente, controlá-la, bloqueando aos demais o acesso ao entendimento desta relação. Entretanto, a condição de tudo-saber sobre ela era puramente imaginária. Jonathan criou a boneca, fez discurso e ela falou, entretanto ao conhecer a resplandescência de uma mulher, ele nada sabia quanto ao mutismo relativo à descoberta do sexo feminino. É certo que ele admirava sua criação. Seus afetos para com Emmy revelavam uma condição de exaltação, reverência e magnificiência. Contudo, a mulher reverenciada era igualmente temida: Jonathan não tinha acesso ao campo do desejo deste outro falante. O desconhecimento era evocativo de um temor. Primeiramente, o medo daquilo que era da ordem do Real, ou seja, do que não falava, não possuía simbolização para, posteriormente, temer aquilo de que nada sabia. O medo deste outro ser que situava-se num campo outro que não o masculino pode ser pensado a partir do enigma evocativo quanto ao que é o sexo feminino, o qual, em alusão as elaborações de Lacan, não possui um significante que dê conta de representá-lo no Inconsciente.


A negação do horror e temor frente à ausência de representação do sexo feminino era expressa mediante a elaboração de uma “boneca perfeita”, e assim vê-la brilhar seria uma saída temporariamente satisfatória ao medo de encontrar-se com o real do sexo do outro, com o silêncio e a angústia subjacente ao real da castração. Sabe-se que enquanto às mulheres é destinado o desafio da descoberta de si mesmas por um processo de criação, ao homem prevalece a incógnita quanto ao entendimento do que é o sexo feminino e, consequentemente, à maneira como se estrutura o desejo de uma mulher.

À alguns pode parecer que Jonathan e Emmy complementavam-se, que eram sentido do desejo do outro, uma criação à semelhança de seu artista. Há indícios, entretanto, que levá-nos à compreensão de que não há complementariedade. O desejo torna-se real porque uma falta foi inscrita no sujeito em relação ao outro. A manutenção do desejo entre duas pessoas pressupõe a permanência da falta, em outros termos, a falta não pode faltar.

À Jonathan certamente permaneceria o desafio de fazer com que a boneca se mantivesse falante, e que ao falar, dissesse-lhe mais, dando-lhe indicativos quanto a em quê lugar ou objeto situava-se o seu desejo. Nesta dinâmica, o brincar de casinha seria transfigurado para um jogo de labirinto, e contar com a sorte nos dados não seria suficiente. Vemos, portanto, que nos anos de juventude brincar com bonecas reais pode ser uma tarefa altamente desafiadora. Na certeza de ser aquele que institui lugares e as regras do jogo é possível o encontro com o engano, e absolutamente, com a falicidade. É provável que à isto alguns comentariam: tudo porque ela começou a falar. São estes, portanto, perigos cotidianos, a respeito dos quais até mesmo os mais prevenidos e seguros de si podem deixar-se levar.

Renato Oliveira

13 comentários:

renatocinema disse...

O filme A Garota Ideal é uma bela fábula, a meu ver, sobre o desejo do príncipe e do sapo.

Cynthia (Astroterapia Junguiana) disse...

Fantástico a colocação sobre Lacan. Acho que esse filme dá uma colocação sobre o entendimento do Animus com a Anima. A importância do Outro.
Parabéns sempre boa sua análise.
Cynthia

Karla Hack dos Santos disse...

Eu gosto da forma como seus posts me fazem rever filmes sob uma nova ótica!

;D

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Teve uma época em que fui fã do Andrew McCarthy, um John Cusack que não deu certo.

O Falcão Maltês

Francy´s disse...

bom,quem disse que brincar de boneca não é interessante rs. basta ter criatividade.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, Renato, estou preparando um post sobre os meus blogs favoritos. Peço que preencha os seguintes dados:


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O Falcão Maltês

Évelyn Smith disse...

Olá caríssimo!
Excepcional esta resenha! Realmente a nossa fantasia nos leva a criar diversas possibilidades confortáveis. Cabe a nós saber distinguir o que é possível concretizar da fantasia em nossa realidade, se não... Enfim, cabem aos nossos indivíduos de ics aberto a dizerem.
Tudo de bom pra você!
Beijão =)

Maicom disse...

Seus comentários e dicas são tão necessários...

Abração.

Sergio Martins disse...

Gosto muito de suas sugestões e análises da sétima arte! Um maravilhoso Abril e uma doce Páscoa pra ti! Obrigado pelo carinho!

Sergio Martins disse...

Adoro suas sugestões e análises a respeito da sétima arte! Um maravilhoso Abril e uma doce Páscoa pra ti! Obrigado pelo carinho!

Gilberto Carlos disse...

Bela resenha! Adoro o filme MANEQUIM, que foi exibido dezenas de vezes na Sessão da Tarde, na época em que Andrew McCarthy ainda era uma promessa, infelizmente não concretizada.

Alan Raspante disse...

Revi esse filme por esses dias mesmo e nem imaginava que acharia uma crítica tão absurda (no bom sentido, claro!) como esta. Você destrinchou o filme de forma única. Acho até que nem o roteirista do mesmo poderia imaginar que houvesse tanta coisa para se discutir assim, rs

O filme é, na verdade, um bom entretenimento como era pra ser. É bom e tem uma ideia bacana...

Excelente texto!
Abs.

M. disse...

Outro filme que preciso assistir urgente. Excelente texto!