15.7.12

Um ensaio neurótico

No Cine Freud de hoje os teus sonhos poderão se tornar realidade... para o bem ou para o mal. Se os pensamentos positivos podem alterar a ordem o mundo, partiremos deste pressuposto para a defesa da tese de que os pensamentos de morte também produzem seus efeitos. Para este fim encontra-se em pauta um ser bastante analítico, produtor de associações relacionadas ao trauma. Fazer discurso sobre suas reminiscências fora, contudo, o seu equívoco, afinal “tudo o que foi dito poderá ser utilizado contra ele”. Este maléfico propósito somente encontra subsídio por tratar-se das criações de Luis Buñuel, aquele que elenca pessoas, fatos e circunstâncias para criticar ou destruir pressupostos socialmente aceitos. De suposto lugar de sujeito da razão, o ser em questão perdeu-se em suas próprias tentativas de dizer tudo.

Deste modo, o experimento de hoje nada mais é do que uma tentativa de colocar em ato o discurso do horror e, para tanto, nossa estrela, Archibaldo de La Cruz | Ernesto Alonso | dará provas de sua suposta super-potência. É certo que em Ensaio de um crime | Ensayo de un crimen – 1955 | há palco para o negativo da tragédia, transformando seres falantes em pessoas que acreditam em sua capacidade de tudo-poder-fazer.


A direção desta análise tem como ponto de partida as recordações de Archibaldo. O artesão e respeitado homem na sociedade fora, um dia, uma criança com tendências destrutivas e pensamentos de morte, como tantas outras. Na mesma ocasião em que ganhara uma caixinha de música, sua preceptora narrava-lhe o conto sobre uma caixa que pertenceu a um rei. Pela história, sabe-se que este tinha muitos inimigos e que queria livrar-se dos mesmos, para tanto um gênio deu poder à caixa para que cada vez que funcionasse, morresse um de seus inimigos. Após contar-lhe esta fábula, a mulher dirigiu-se à janela para observar os tiroteios. E os pensamentos de Archibaldo o inquietaram: “poderia eu também dispor da vida das pessoas? Queria fazer a caixa funcionar com a intenção inteiramente consciente de fazer a prova”. Enquanto encantava-se com a música produzida pela caixa a preceptora foi baleada, estendendo-se morta frente a ele. A sequência destes eventos produziu no pequeno ser o sentimento de que os nossos sonhos podem tornar-se reais, seja para o bem... ou para o pior.


Foi assim que em sua infância Archibaldo livrou-se de uma autoridade indesejável. A lembrança do trauma, contudo, ao invés de provocar-lhe horror, evocava-lhe fascínio. Temos como resultado, portanto, um homem crédulo à ideia de que com a força do pensamento é possível alterar o curso da humanidade. A morte da preceptora causou-lhe também um sentimento mórbido de prazer, de sentir-se poderoso. Ao contar sobre estas recordações infantis a uma freira | Chabela Durán |, Archibaldo anunciava o discurso do horror àquela mulher, e para confirmar a potência de seus próprios intentos, ele decidiu assassiná-la, indagando-lhe: “para você, morrer deve ser um deleite porque significa a bem-aventurança eterna. Sim ou não?”. A escolha de um canivete foi o indicativo necessário que fez a freira calar-se e correr: ao dirigir-se a um elevador aberto, determinou-se o final de sua história.


São estes os dois principais eventos do currículo deste figurado serial killer que após a morte da freira apresentou-se a polícia como responsável pelo ocorrido. Archibaldo dava provas de seu saber e desejava ser reconhecido como o autor daquele crime. O seu discurso ao outro justifica esta concepção, pois dizia: “fez bem em me chamar, por que sei tudo. Eu a assassinei fria e deliberadamente. E acrescento que não foi à primeira vítima”. O encontro com um ser falante é tido como condição necessária para que Archibaldo se inscrevesse como aquele capaz de calar o outro. Levanta-se assim a questão: para ele a dimensão do pensar e do fazer eram indiferenciáveis? Tem-se por hipótese de que na crença em sua onipotência de pensamento, Archibaldo não delirava. Ele buscava, de outro modo, ser reconhecido como aquele que tudo podia realizar. Esta posição autorizava-lhe anular um dito de verdade sobre a condição de limite de seu próprio desejo.


Este cenário criado por Buñuel pode ser utilizado como metáfora para o entendimento de algumas noções sobre a ótica de um neurótico obsessivo. Para tanto pode-se retomar a quase lendária formulação de Freud: “a neurose é o negativo da perversão”. Concebe-se assim que por meio da fantasia neurótica o sujeito deseja assumir uma posição propriamente perversa. Enquanto ao perverso não há outra lei senão a si próprio, o obsessivo é aquele que em sua crença no significante é submetido à lei colocada como limite ao seu desejo. A descoberta freudiana sobre a “onipotência de pensamento” revela que o sujeito acredita e teme o poder de seus pensamentos em alterar a realidade externa. Sendo assim, as reações de Archibaldo indicam um desejo em realizar uma fantasia perversa, na qual seria-lhe possível burlar a lei e desvencilhar-se do sentimento de culpa consequente da realização de um crime.


A sensação de super-potência da personagem revela o lugar do sujeito em uma posição propriamente narcísica. Esta condição de Archibaldo pode ser melhor compreendida em termos de uma nostalgia do ser. Nesta formulação, o ser é empregado propositalmente como verbo, ou seja, em sua fantasia ele é aquele que pode colocar-se como suplência ao desejo do outro. Em extensão a esta ideia, compreende-se que o desejo de morte nada mais é que o desejo em evocar um estado de silenciamento. Sua identificação com a figura de um serial killer indica a permanência do desejo em tornar-se superior a lei paterna. Assim, supõe-se que a interdição da lei não fora suficiente para des-acreditá-lo de um dia ter sido suplência ao desejo materno. A este respeito dizia sentir-se ligado à sua mãe por recordações. No encontro com outros objetos ele procurara dar provas de sua onipotência, elegendo preferencialmente sujeitos do sexo feminino para este fim. Em relação a uma mulher, dizia: “que mulher interessante! Eu a assassinaria com muito prazer”.


Este desejo obsessivo sustenta-se, muitas vezes, mediante uma ambivalência entre querer burlar a lei e assumi-la como regulagem a seu próprio desejo. Assim Archibaldo reconhecia: “às vezes quero ser um santo. Outras vejo que posso ser um grande criminoso”. Para ele, portanto, os sonhos podiam tornar-se realidade e na ausência de provas sobre a perversão de seus atos, colocava-se no discurso como aquele que fazia calar o outro. Ele desejava, sobretudo, a confirmação de um ser falante sobre seu poder em anular a fala do outro. O discurso sobre o crime fora a solução encontrada para dar provas de sua potência e, no entanto, fora seu maior equívoco. Afinal, o Simbólico não diz tudo, há um limite. E na busca por palavras que dessem conta de explicitar o crime, Archibaldo deparou-se com esta insuficiência. Pode-se assim considerar que sua intenção inteiramente consciente de fazer a prova o retirara da posição de agente, tornando-o como mais um dentre aqueles que querem produzir discursos.

Com os melhores votos,

Renato Oliveira

18 comentários:

renatocinema disse...

Meu amigo.......sincero:

você me deu aula de texto, de cinema e de pulsação cinematográfica.


Adorei seu texto.

Abraços

M. disse...

Luis Buñuel como sempre magistral. E seu texto como sempre inteligentíssimo e formidável. Contigo aprendemos o que está mais além da trama. Abraço.

Adecio Moreira Jr. disse...

Buñuel é o cara certo, e que - por vezez - só é lembrado pelo filme errado.

Mais uma bela análise.

Poses e Neuroses

^^

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um belo filme.

O Falcão Maltês

Francy´s Oliva disse...

ainda bem que são apenas palavras, pois imagina se fosse verdade a força do pensamente acredito que tudo estaria um perfeito caus.Gostei das suas observações. E a parte do homem-maquina e o quanto cada um fica vulneravel quando percebe que faz bem a outro e incomoda com esta ação.
Bjs.

Sergio Martins disse...

Adoro Buñuel; obrigado pela dica e pelo carinho de sempre! Viva à sétima arte!!! Abç.

Tati disse...

Renato, mandei um e-mail com o nome da peça! Muito boa sorte com a monografia. Com o perdão do palavrão, Buñuel é foda!!
Beijos
Tati

Gilberto Carlos disse...

Muito boa a sua ideia de fazer sua monografia sobre o filme Tristana de Luis Buñuel. No artigo da minha pós graduação falei sobre o sucesso de público que a pornochanchada tinha.

M. disse...

Parabéns Renato, por mais essa vitória, seu título de Psicólogo! E um excelente psicólogo! Abraço.

Évelyn Smith disse...

Caríssimo! \o/

Que história fascinante! Por um momento pensei que, de fato, o Archibaldo fosse um serial killer... Comecei até a lembrar das teorias do meu TCC e tudo. Mas jamais iria imaginar que não passa da onipotência de um neurótico obsessivo. Confesso que eu também tenho o poder de transformar a minha realidade com os meus pensamentos... Haha! Pelo menos tenho consciência que são apenas devaneios profundos.

Amigo, veja se o meu raciocínio está coerente... A recordação de Archibaldo sobre a sua mãe não pode tornar-se real e que talvez seja proveniente de um Complexo Edípico mal resolvido. Então acredito que Archibaldo quer matar tais recordações. A prática do "matar" é realizada com mulheres, ou seja, ele transfere a sua fixação materna em quaisquer mulehres e ainda consegue matar o sofrimento que a sua mãe possa ter lhe causado. Enfim... Me veio isso em mente, penso que pode ter um pouco de lógica (ou não). =P

Caríssimo, a faculdade está pegando fogo! Nossa, é tanta coisa que passaram apenas nesta primeira semana de aula! Com a minha iniciação científica apertou ainda mais...

Vou responder o seu e-mail logo. E vou ler suas outras resenhas acima.

Saudades!

Beijos e abraços,
"Claríssima" ;-)

Évelyn Smith disse...

Caríssimo, a sua monografia vai além daquilo já visto. Continue descubrindo caminhos "não pensados" (como diria você mesmo).

Sinceramente eu não sei o nome da música, mas ainda bem que você já conseguiu descobrir! Tenho um CD de músicas clássicas que gravei de uma colega há mais de 5 anos e entre elas também possui esta música, porém como é gravação não tenho a cartilha com os nomes das produções musicais. É bem a cara do Chopin mesmo... =)

Beijão

Évelyn Smith disse...

Caríssimo, acho que os meus três comentários das diferentes postagens vão ficar seguidos numa mesma caixa de comentários. Agora que percebi... Haha!

Bom, ontem vi o filme O Enigma das Cartas e recomendo. Me lembrei dele ao ler o seu texto sobre o filme que mencionou, Menos que Nada.

Já salvei o link do filme, vou vê-lo assim que possível. Muito interessante o enredo... Me interesso muito por essa área da saúde mental, como você sabe. Ainda mais a sua prática no contexto social é o que mais me atrai.

E, sim... Reconstruir o novo é a nossa luta pela na psicose. Porém amo-a a cada dia!

Beijão, meu grande amigo! ;-)

M. disse...

WOW!!! Valeu! Vou ver sim, obrigada pelo link. Fico no aguardo deste próximo post recheado de estudo. Abraço!

Sergio Martins disse...

Bom dia, Renato! Como é bom passar aqui e ler seus textos e sugestões; ainda mais quando se tratam do mestre Buñuel! Tenha uma ótima semana; abç!!!

http://ailhadoze.blogspot.pt/ disse...

Não sei mesmo qual a musica que Tristana toca, Renato, mas fico muito contente por ter voltado aos Blogs e ter reencontrado o seu Blog em boa forma! Um abraço!

a ilha do zé disse...

Não sei mesmo qual a musica que Tristana toca, Renato, mas fico muito contente por ter retornado aos Blogs e o ter reencontrado em boa forma! Abraço!


Mulher Vã disse...

O filme me tocou profundamente e a música também.
"No hospital temos todo o tempo do mundo..."
Grande verdade.

Adoro suas resenhas.

Beijo

David C. disse...

Quiero volver a ver Tristana.
Saludos
David