15.9.12

Se ela dança, eu danço

Não é de hoje que se costuma dizer que os detalhes fazem a diferença. Deve-se ter em vista também que sob algumas circunstâncias é preciso sensibilidade para observar o efeito de detalhes absolutamente sutis. O humor de Pierre Salvadori fora propositalmente útil na direção de um filme que faz pessoas assumirem diferentes papéis em questão de instantes. Esta habilidade torna-se necessária quando um ser apaixona-se pela pessoa errada e passa a dar provas de sua suficiência para tanto. É sobre encontros que independem de planejamento humano que será abordado a seguir, por meio do filme Amar... não tem preço | Hors de Prix – 2006 |.


O título deste filme e sua tradução para as terras tupiniquins dão indícios dos principais tópicos presentes no roteiro. Pois se não há preço estimado às atividades sentimentais, pode-se ter uma única conclusão: hors de prix (caro). Esta tese primordial será ilustrada por meio do encontro de Jean | Gab Elmaleh | e Irène | Audrey Tautou |, ocasião em que o barman fora reconhecido como cliente. Pode-se considerar que encontrar-se nas poltronas e não por detrás dos balcões, como costumeiramente, fez com que Jean fosse identificado por Irène como mais um frequentador do bar de hotel. Ele que estava destinado a servir reconheceu-se como aquele que poderia ser resposta a demanda de um outro. Assim, ao desejo dela “eu daria qualquer coisa por um coquetel e um pouco de música”, Jean assumiu o lugar-fantasma de barman. Nesta ocasião ele dava provas de seu saber e poder e provocava fascínio em Irène – “sempre fico impressionada com pessoas que sabem fazer alguma coisa”.


Deve-se desde então elucidar que o interesse primordial de Irène não recaía sobre a habilidade em criar coquetéis ou montagem de camas, parecia-lhe mais atraente o consumo das mais sofisticadas grifes de calçados, vestidos e afins. É certo que Jean não se encontrava no lugar ideal para responder a possíveis demandas desta mulher. Em um primeiro momento, contudo, coube a ele a tarefa de fazer semblante de poder, retirando a gravata que o identificava como funcionário para a manutenção da crença de Irène.


Observa-se que a fórmula “me apaixonei pelo sujeito errado” ganhara diferentes leituras com o passar das décadas. Neste contexto, Irène seria a mulher errada caso Jean não estivesse apto a sustentá-la em seu desejo de ter. Na ausência de alternativas foi a ele que Irène recorreu quando sentiu-se ameaçada em sua posição. Para lidar com a falta mostrava-se preciso eleger um outro ser falante sob efeito de encantamento. O dinheiro, portanto, era colocado como condição para o acesso ao campo do desejo de Irène. Assim, sua metonímia entre possíveis candidatos seria mantida até o encontro com aquele que daria sustentação a um perfeito casamento.


Conforme imaginável não fora preciso muitas aventuras para que a atuação de Jean deixasse de cumprir o seu propósito. Com a descoberta de que ele assumia no hotel a condição de funcionário deu-se início a uma temporada em criar um semblante novo para perseguir os intentos de Irène. Em outras palavras, Jean não desistiria de ser o “sujeito errado”, e para tanto, decidiu dar provas de sua potência ao conceder a Irène os mesmos caprichos que ela experimentara com outros homens.


Este novo semblante de Jean consistia em uma mascarada com o intuito de fazer-lugar nos desígnios de uma mulher. Ele buscara dar testemunho de sua engenhosidade ao percorrer quaisquer caminhos fossem possíveis para que ela fosse satisfeita. Esta mesma proposição pode ser traduzida nos termos: ele queria fazer calar o outro. Ao responder a suposta demanda de Irène, ele buscava tamponar a possibilidade de outro sujeito ser apresentado no discurso dela como desejável ou, mais suficiente. Pois bem, a lógica deste ser falante, contudo, fracassara ao deparar-se com um limite no real, pois quanto mais ele dava-lhe, a ela mais ainda faltava-lhe. É possível pensar que por momentos Jean sonhara viver como aquele que assumiria a condição de falo absoluto, de modo que unicamente ao lado dele nada faltaria a Irène. Neste objetivo faltou-lhe apenas e, principalmente, o discernimento em perguntar-se quanto a real demanda desta mulher.


O que desejava Irène? Temos, portanto, uma indagação sem resposta aparente. Contudo sob uma primeira análise pode-se pensar quanto ao que ela queria transmitir a Jean por meio de sua desenfreada petição. Ao demandar-lhe “dá-me mais”, Irène solicitava-lhe que a ela não fosse dado àquilo que o seu discurso anunciava. O primordial truque indicava o desejo por algo além do manifesto, e que somente poderia ser apreendido quando Jean se retirasse de uma condição de sustentáculo a todo e qualquer desejo. E foi assim que com o objetivo delimitar um fim a mascarada de Jean, ela esgotou o saldo bancário dele, e disse-lhe: “você não pode continuar fazendo isso”. Para ela o semblante do outro era insustentável, e caso ele quisesse cavar um lugar no desejo dela seria preciso encontrar outras vias, que não as mesmas já ensaiadas por outros homens.


É possível inferir que Irène precisava de alguém para identificar-se. Em sua busca por candidatos supostamente capazes de tamponar-lhe a falta, ela encontrava-se com sua incapacidade de transformar um encontro em um casamento, o qual permitiria-lhe “ser livre até o final da vida”. Conforme Jean esforçava-se em dar provas de seu poder ele confirmava o lugar-limite do qual ela não conseguira transpor com homem algum. Assim, para além da demanda de Irène havia o pedido por uma identificação, por algo que a representasse enquanto uma mulher no desejo de um outro. O erro de Jean pode ser pensado em termos de uma conduta tipicamente jovem e imatura. O grande equívoco de atender a demanda de Irène fora efeito de sua identificação com o lugar e função de garçom. Em francês o significante garçon é utilizado para representar um jovem ou menino. Jean reproduzira com Irène um comportamento de serveur comum em sua relação com clientes. No entanto, os efeitos desta postura impediram-lhe de tornar-se um eu ideal a uma mulher. Para alterar o curso das coisas seria-lhe preciso arriscar-se por outras vias, fazendo com que um euro pudesse ter validade superior a dez segundos. Sobre todas as coisas, hors de prix.

Felicidades,

Renato Oliveira

10 comentários:

M. disse...

O que é se apaixonar não é mesmo? Talvez algo mais complexo que o próprio amor, a mente humana às vezes cria suas próprias ilusões e ... este filme me resultou interessantíssimo. Sua análise como sempre vai mais além da obra cinematográfica e seriamente trata do psicológico daquelas personagens. É mais uma vez mais um filme que devo assistir. Abraço e ótima semana!

renatocinema disse...

Amigo, sou fã de Tautou.
Um filme dela que amo e quase ninguém conhece é Bem Me Quer, Mal Me quer...imperdível.


Abraços

Gilberto Carlos disse...

Gosto muito de Audrey Tautou. Este deve ser um filme adorável como ela.

Évelyn disse...

Olá Caríssimo! Como estás?

Realmente, não dá pra servir de objeto durante uma relação amorosa. Jean seria eternamente um garçom disposto a servir Irène e ela, ao contrário, queria simplesmente se encontrar como um sexo oposto num homem.

Pior que esse tipo de relação é mais comum do que se imagina... Um ou outro está à serviço dentro da relação, não atuando no processo identificatório que existe no conhecimento à dois.

Ah... Lembrei de algo que me contou no nossa conversa no Tietê quando li esta resenha. Te conto por e-mail (se eu não lembrar de contar me cobre!).

Nossa, Caríssimo... Estou numa correria sem fim. Pelo menos é uma correria reforçadora (haha). Voltei a malhar, acredita... Estou muito feliz!

Tudo de bom pra você! Saudades!!!

Beijão

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Tautou é muito carismática.


O Falcão Maltês

Garotos Modernos ▲ disse...

Olá, adorei seu blog muito moderno e original, mas vim te fazer um convite, da uma passada lá no garotos modernos e se gostar pode segui-lo que logo farei o mesmo beijos...

francy´s disse...

o que lhe digo é meus sinceros parabéns ao novo psicologo e para esta pessoa apaixonada por novidades e projetos.
beijos bela semana para ti.

Évelyn disse...

Mais um ano de produções maravilhosas... parabéns Caríssimo, pela evolução magnífica do CF!!! \o/
Beijão

M. disse...

Parabéns querido Renato! Seu blog é para mim e muitos amantes da sétima arte uma referência. Abraços.

Anônimo disse...

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