15.12.12

"L" de Lolita ou libertina?

Discutir sobre conflitos entre mãe e filha adolescente pode parecer um retorno aos mesmos paradigmas de sempre: revivescência do Édipo, período de rebeldia ou simplesmente “uma fase que passa”. Pode-se pensar que as tentativas em ilustrar esta questão atravessaram os mais diferentes meios científicos, literários, entre outros. Contudo, algo permanece. Não há fórmula que dê conta de esgotar completamente a questão, e mesmo nos dias atuais, observa-se ainda que os dissabores deste período precisam ser suportados. Em alusão a estas ideias o diretor Stanley Kubrick concede-nos uma aproximação a um âmago familiar a fim de que temas aparentemente comuns possam receber novos contornos. Afinal, existem amores que não podem ser possíveis: esta proposição pode ser tida como fundamento principal a ser pensada a partir de amores e tragédias suscitados no filme Lolita | Lolita – 1962 |.


Na ausência do homem totalmente íntegro houve ocasião para a incursão de um outro na residência de uma mãe e sua filha adolescente. Ao assumir o papel de corretora de imóveis, a viúva Charlotte Haze | Shelley Winters | apresentava ao recém-chegado professor Humbert Humbert | James Mason | todas as vantagens possíveis e imagináveis em alugar o quarto que lhe era oferecido. Qual foi o fato decisivo para a escolha? A decisão de Humbert fora certamente estabelecida após constatar que naquela mesma casa residia a jovem Lolita | Sue Lyon |. Ainda que a confusão em seus pensamentos não o permitisse elaborar um discurso conciso, ao que tudo indica a existência daquela jovem provocara-lhe um sentimento que escapava de seu próprio intento de explicação.


A estadia de Humbert fora marcada, em um primeiro momento, pela satisfação de uma pulsão escopofílica. O prazer em ver era seguido de um desejo de saber mais ainda sobre a jovem Lolita. Assim, para que seus pensamentos e afetos em direção a ela pudessem ser organizados ele passou a fazer registros escritos sobre suas percepções. Enquanto seu interesse destinava-se a jovem, era preciso negociar a demanda de atenção da mãe. Esta, aos poucos, resolveu dar indícios de suas próprias intenções. 


A relação entre Charlotte e Lolita era marcada por constantes desentendimentos quanto ao lugar que cada uma ocupava naquela dinâmica. Charlotte a todo custo procurava assumir uma função de autoridade e, se necessário, ser mãe e pai ao mesmo tempo. A incursão do prof. Humbert intensificara este conflito, pois enquanto os olhares do mesmo eram direcionados à Lolita, os afetos da mãe incidiam sobre aquele que poderia ocupar o lugar vazio deixado por seu falecido esposo. Esta não confluência de propósitos contribuiu para que Charlotte identificasse a filha como possível foco de interesses tanto de Humbert como de outros homens. Pode-se pensar que na relação com a filha, Charlotte elaborava o seu próprio luto. Ela revivia o sentimento de perda tanto do esposo quanto, primordialmente, de sua própria juventude. Lolita, portanto, era a testificação no real de que as características físicas de sua jovialidade já não eram mais notórias. Assim, para Charlotte, o seu processo de criar-se enquanto mulher deveria encontrar novas vias, contudo, a dificuldade suscitada por este impasse fazia com que ela retomasse o lugar de autoridade materna.


Como possível solução a este conflito, Charlotte decidiu afastar aquela que bloqueava o acesso ao seu objeto de desejo. Lolita assume, portanto, uma posição central nesta relação triangular ao sustentar por meio do silêncio e submissão ao desejo da mãe o lugar enigmático de uma mulher. A fusão entre menina e mulher representada em Lolita despertava o interesse de Humbert em querer aproximar-se dela. Com estes pressupostos em mente pode-se considerar que os intentos de Charlotte propagaram-se em efeitos não imaginados por ela. Ao enviar Lolita a um colégio interno para garotas, ela decidiu-se por declarar seus verdadeiros afetos por Humbert, e destinou-lhe uma carta em que o convida a assumir um lugar no desejo dela e ocupar uma posição naquela família. Enquanto ria da própria convocação, a Humbert parecia-lhe muito mais tratar-se de um convite para tornar-se pai do que esposo propriamente dito. E quais benefícios ele poderia usufruir na condição de pai? A possibilidade em estar próximo a Lolita fez com que ele aceitasse a proposta. 


Ausente na própria casa, mas presente nos pensamentos de Humbert, Lolita era aquela que fazia sentido ao fato do professor permanecer na residência. No entanto, a constância neste “estado de coisas” alterou-se com a descoberta de Charlotte das anotações de Humbert, as quais elevavam Lolita ao título de jovem encantadora e desejável. Assim, a fúria da mãe não encontrara um modo de simbolização via campo das palavras, de maneira que a solução pensada fora dar fim à tragédia de sua existência. Entre outras possíveis razões, Charlotte suicidou por não admitir que a filha fosse mais desejável que ela mesma. 


A exclusão real da mãe, entretanto, não facilitara o acesso de Humbert ao desejo da filha. Ainda que a relação deixasse de ser triangular, ele encontrava-se submetido a um bloqueio ainda maior que inviabilizaria seus intentos em direção a Lolita. Neste segundo momento (após a morte de Charlotte), observa-se sua oscilação entre o desejo de assumir junto à garota o lugar de pai ou de esposo. Acima dos valores morais do prof. Humbert encontrava-se uma lei universal que fazia efeito sobre ele e modulava as (im)possibilidades de avançar em direção a seu objeto de desejo. A proibição do incesto tem entre outros efeitos evocar angústia no sujeito frente ao limite, isto é, àquilo que não pode ser realizável sem culpa. Esta dentre outras proibições demarcam a condição para que o sujeito possa viver civilizatoriamente.


Sendo assim, sabe-se que o estar em civilização implica renúncia a paixões e a necessidade de adiamento em relação ao próprio desejo. As proibições que incidiam sobre Humbert refletem a realidade de que existem amores que não podem ser possíveis. Deste modo, na impossibilidade em assumir a função de esposo, Humbert esforçava-se em tentar inscrever sua função de autoridade sobre Lolita. Ele esforçava-se por dar provas de sua potência para exercer cuidado ao ser aquele que traria a ela um sentido existencial. O seu fracasso em atingir estes objetivos indica um possível entendimento racional da jovem em elaborar estas questões relativas ao afeto e ao doar-se ao outro. Compreende-se que como uma tentativa repetitiva em subir três degraus e descer dois, Humbert buscava cavar um lugar onde nada havia para ser guardado. Ao apresentar-se à jovem como aquele que pode ser pai ou esposo ele dava provas de sua capacidade, enquanto a Lolita interessava a descoberta de um outro à quem algo faltava. Alguém que ao consentir sua falta-a-ser no mundo poderia destinar um lugar a ela. E sendo assim tem-se, portanto, o cenário de uma não confluência de saberes e propósitos. E neste conto de amores que se desencontram, deve-se admitir a possibilidade de erros e de pessoas que erram as flechas quando decidem tornarem-se cupidos de si mesmas.

Afetuosamente,

Renato Oliveira

7 comentários:

renatocinema disse...

Bela semana para você escolher Lolita para uma reflexão.

Terminei Os Maias e se em seu texto você inicia falando sobre conflito entre mãe e filha, na obra de Eça de Queiroz o debate ocorre entre gerações: o novo e o velho.

Amo o estilo de Kubrick e sua força dramática para nos conquistar.

Se Humbert, como você mesmo diz luta para demonstrar autoridade sobre Lolita, digo o mesmo sobre seu texto........Falou com autoridade de quem conhece o assunto citado.


abraços

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Caríssimo, o blog O FALCÃO MALTÊS está aniversariando e entrando de férias. Obrigado pela parceria. Desejo um Natal harmonioso e um Ano Novo cheio de energia.
Cumprimentos cinéfilos,

O Falcão Maltês

M. disse...

Eu simplesmente amei tudo o que você escreveu. Esta versão da Lolita é inesquecível! Quero aproveitar para te desejar um FELIZ NATAL e um 2013 de belos sonhos realizados! Abraços.

Gilberto Carlos disse...

L de libertina, mas sabe que eu não vejo tanto motivo por aquele estardalhaço todo do protagonista. Acho a Sue Lyon tão sem gracinha. Abraços.

francy´s disse...

Carissimo acredito que mesmo fora dos filmes sempre há contradições entre mãe e filha.
Mas o que me traz por aqui é desejar boas festas e muita inspiração para ti.
Feliz Natal e que possamos estar juntos no próximo ano.
beijos.

Évelyn Smith disse...

Caríssimo!

Que resenha sensacional, retrata a mais fiel obra em relação ao complexo edípico.

Toda garota amaria o desfecho desta história... ou não. Não é nada confortável ter o seu objeto de amor numa função autoritária. Nesta história Humbert não é o pai de Lolita e somente o seu objeto de amor.

Enfim, o complexo edípico é sempre trágico... rsrs.

Tudo de bom pra você!

Beijão

francy´s disse...

Nada como mandar tudo para a lavanderia rs. Adorei sua pagina no face.
bjs :) boa semana