24.2.13

o secreto que faz-falar

A produção de significados nada mais é que um efeito de linguagem, que nos permite transformar signos em possibilidades de entendimento. O cinema enquanto cadeia discursiva viabiliza a produção de sentidos ao fazer com que histórias subjetivas sejam interpretadas conforme o olhar e a sensibilidade de cada sujeito. Seguindo esta ideia, indefere o fato das histórias serem verídicas ou não, pois a sucessão de imagens e o discurso referente a elas fazem com que a narrativa ganhe o status de realidade. A interpretação, portanto, somente pode ser perversa, tendo em vista que o olhar e o julgamento atravessam as tentativas em se produzir significado a partir da fala. Somos perversos no sentido banal do termo cada vez que nos arriscamos a produzir entendimento sobre o sofrimento do outro. Entretanto esta ação dá-nos a possibilidade de assimilar o sentido que as vivências tem ao próprio sujeito. É com estes pressupostos em vista que será produzido um discurso sobre o filme A vida secreta das palavras | The life secret of words – 2005 |.  


O título desta obra é analítico por sua própria construção. A partir da concepção de sujeito para a psicanálise, o qual é marcado pelo Inconsciente e pela linguagem, é possível pensar que ele detém um saber não-todo sobre si. Portanto, o que há de secreto neste ser falante é da ordem das palavras a serem expressas sobre seu desejo. Assim, sabe-se que a diretora Isabel Coixet anuncia a existência de duas coisas: silêncio e palavras. Como ilustração da impossibilidade em seduzir-se por coisas além destas apresenta-se o cotidiano de Hanna | Sarah Polley |, marcado primordialmente pelo silêncio e poucas palavras. Em sua rotina se observava uma relação rígida com os objetos. Ela caminhava diariamente de sua casa ao trabalho e sua alimentação resumia-se ao consumo de arroz, chicken nuggets e maçãs. A previsibilidade e estereotipia, portanto, caracterizavam a relação que ela mantinha consigo e com o mundo.

A obrigatoriedade em tirar férias após quatro anos de trabalho fora ocasião para que algo se modificasse. Enquanto apreendia detalhes de uma conversa em um restaurante, Hanna apresentou-se a um homem como apta a trabalhar como enfermeira. Deste modo, ela foi conduzida a um povoado costeiro próximo a uma plataforma de petróleo. Neste local foi-lhe dada à incumbência de encarregar-se dos cuidados de Josef | Tim Robbins |, o qual sofrera queimaduras e encontrava-se temporariamente cego. A iniciativa de Hanna em assumir uma posição de cuidadora estava pautada na suposição de uma capacidade para oferecer aquilo que ao outro faltava. Ela, portanto, assumiria a função de ver por Josef, de fazer-lhe leito.


Pela relação entre Josef e Hanna pode-se pensar em um possível encontro entre pessoas com feridas externa e internamente. O corpo e a produção discursiva anunciavam uma necessidade por cuidados. Em contato com a nova enfermeira, Josef indicava por sua fala um desejo em querer saber sobre ela. Em contraposição, Hanna utilizava-se de seu silêncio como resposta a demanda. A ele, contudo, o significante “enfermeira” era insuficiente para descrevê-la, de modo que alguma palavra deveria ser colocada em seu lugar. Fora designada por “Cora – irmã dos desamparados” esta mulher que se responsabilizava em prestar serviços de hospitalidade. Deve-se ressaltar que o endereçamento de Hanna a Josef era mediado, em um primeiro momento, por uma fala vazia se pensada em termos analíticos. Ao falar com ele, Hanna não se colocava subjetivamente no discurso, não havia intencionalidade em fazer laço com este outro falante. Observa-se a partir de escolhas de Hanna que a sua relação com a oralidade pode ser traduzida mediante um baixo interesse por palavras e alimentos.


 Os primeiros indícios de uma fala cheia podem ser apreendidos quando Hanna colocou-se subjetivamente no discurso ao afirmar: “sou surda”. Assim, por meio de um aparelho de audição, ela estabelecia os períodos em que estaria disponível à escuta. Pela mediação deste instrumento era-lhe possível, portanto, controlar o mundo externo. Com o passar dos dias, o significante “enfermeira” ou “Cora” tornaram-se insuficientes para dar nome àquela colocada na relação com um outro falante. Pode-se considerar que a limitação ótica de Josef não o impedira de enxergar a existência de sofrimento na jovem e supor-lhe sujeito. Assim, a sua posição em relação a ela fora favorecedora em evocar o discurso do outro. Neste contexto, as palavras eram expressas como tentativas de simbolizar afetos e experiências vividas. Hanna deu-se assim a ser conhecida e apreendida por aquele que podia vê-la, de fato, ao escutá-la com entendimento e atenção.

Em distinção a condição de Josef, o ferimento de Hanna não era explícito aos demais habitantes daquela plataforma. Estes se orientavam apenas pelo silêncio daquela jovem para nela supor um sujeito enfermo. Deve-se ressaltar que apenas o campo das palavras permitiria o acesso a feridas internas e a produção de significados. Ao colocar-se subjetivamente para o cuidado de um outro, Hanna deu indicativos de sua necessidade de ser cuidada. E se para Josef a via de cuidado fora as medidas exercidas sobre o seu corpo, para ela o cuidado relacionava-se com a possibilidade de ser ouvida em seu sofrimento. A vida secreta das palavras pode ser pensada a partir da possibilidade em dar condições para o discurso do outro. A escuta enquanto ferramenta de causa analítica é, portanto, uma forma de cuidado


A indagação – “como se convive com o passado?” – fora uma das questões suscitadas nos encontros entre Hanna e Josef. Sobre a tarefa de conviver com as memórias evocativas de angústia, Hanna descobriu que por meio da fala que faz sofrer era-lhe possível expressar-se na realidade de seus afetos. Ao supor um sujeito em Josef ela pode perceber que a limitação visual no outro não o bloqueava em seu propósito de exercer cuidado. Ela nos dá provas de que para abordar afetos intrínsecos a condição humana não é preciso grandes fórmulas, mas somente silêncio e palavras. A experiência de escuta, portanto, mostrara-lhe uma menor necessidade em controlar o mundo externo. 


No encontro com um outro supostamente cego e falante ela pôde encontrar-se com suas próprias marcas internas. Ao romper com o silencio em ocasiões e suportá-lo em outras, eles encontraram uma maneira significativa a seus propósitos para criação de um novo laço. Assim, a partir de uma relação de escuta eles descobriram possíveis saídas criativas a situações e memórias devastadoras. Não criaram, contudo, uma ideologia nova ou fórmula da felicidade, mas descobriram um meio de atravessar a própria pele e fazer-se existir quando nada mais parecia ter propósito.

Abraços a todos,

Renato Oliveira

10 comentários:

Milex disse...

Heloisa Moraes disse...

Bela resenha/critíca.
O filme parece bom :) fiquei curiosa.

renatocinema disse...

PQP:

Amei: "O cinema enquanto cadeia discursiva viabiliza a produção de sentidos ao fazer com que histórias subjetivas sejam interpretadas conforme o olhar e a sensibilidade de cada sujeito."

Penso exatamente isso.

Evandro L. Mezadri disse...

Instigou a assistir.

Suas críticas são muito bem construídas e direcionadas.

Grande abraço, sucesso e grato pela visita!

Iza disse...

Não conheço esse filme. Mas parece ter uma visão bem interessante. Vou indicar para minha mãe, ela fã de filmes do tipo. Adorei sua crítica/ texto. Abraços <3

Heloisa Moraes disse...

Ahhh, dei uma curtida no cine :)

Francy´s Oliva disse...

parece ser um filme interessante...Somente uma pequena observação para mim o silencio fala muito mais do que palavras não acha caríssimo.
beijos

Mar_D disse...

ok. coloquei teu texto no meu tumblr. o link ta aí.

esse filme me tocou muito, e cada detalhe nele, cada palavra parece que é estudada, tem um significado profundo e intrigante, cheio de poder. os personagens da sarah polley e do tim robbins foram muito bem construidos, inclusive o relacionamento posterior entre eles. é um filme muito digno e subjetivo, para além de interpretalçoes gerais e contações de histórias. ele toca porque é pessoal, não tem como não ser. e o teu texto foi muito claro e interessante. parabéns.

Gilberto Carlos disse...

Olá, Renato. Recebi o selo Programa de incentivo à leitura e o concedo a você. Vá lá no Gilberto Cinema e confira. Abraços.

Évelyn Smith disse...

Olá, Caríssimo! Saudades!!!

Achei lindíssimo esse filme e a sua resenha nos fez entender o sofrimento no qual os personagens se encontram.

A surdez de Hanna é real ou simbólica?

Bom, um cego que conseguiu ouvir uma surda... e esta se fez ouvida por um cego. Isso é fantástico! Podemos perceber o quanto a escuta proporciona satisfação e nos faz existir neste mundo tão caótico, onde o "estar sempre sozinho" reina em nossos dias.

Meus dias estão tão conturbados... porém quando encontramos o nosso caminho até as dificuldades se tornam prazerosas! Me lembrei do texto da Xuxa agora... rsrs. Te conto por e-mail depois.

Tudo de bom pra ti! ;-)

Beijão