28.4.13

super em dente

No Cine Freud de hoje você poderá romper com todo e qualquer limite criado por seres humanos. “O que sou?” “de onde vim?” e “para onde vou?” são mais que questões filosóficas de resposta não aparente. A presente aventura é interplanetária e poderá ser pensada a partir de um tempo muito remoto a investigações de causas analíticas. Lógico que não se escolheria qualquer mocinho para esta história. Ele foi planejado numa época em que a tecnologia já era explorada, mas cujos meios de comunicação não eram tão modernos e insuficientes como nos dias atuais. Sempre buscou-se fazer uma história sobre um homem acima dos demais homens. Ele pode voar e ainda que você não seja suscetível a ficções vale conferir o que é possível compreender sobre esta criação humana, o Super Homem | Superman – 1978 |.


Na agitação vivida pelas pessoas e com os tempos de crise é comum alguns dizerem que estão prestes a explodir. Certo dia uma galáxia explodiu para que ele pudesse existir na Terra. Kal-El com alguns meses de vida foi enviado ao nosso planeta (sim, este que de algum modo nos pertence) por decisão de seu pai, Jol-EL | Marlom Brando |, antes que a explosão de Krypton fosse consumada. Nesta história, em oposição a semelhante fato bíblico, o grande pai não se desfez do filho por amor àqueles que o receberiam, mas sim por amor ao próprio filho. Desde bebê, ele parecia humano, mas o era não-todo. Ele era o Prometido? Não estava clara a sua missão na Terra. De acordo com as palavras de seu pai, “ele não será um deles. Sua estrutura molecular o fará forte. Ele será estranho, diferente. Ele será rápido, praticamente invulnerável, isolado, sozinho”. E acrescentou algo curioso: “vai me levar dentro de você por todos os dias de sua vida, e sua vida será vista através da minha. O filho se tornará o pai e o pai se tornará o filho”

Claro que esta fusão ocorreria apenas no plano simbólico mesmo, pois Jol-El e Kal-El existiriam em atmosferas distintas. Todavia, o que é possível constatar desde então é que uma transmissão paterna se estabelecera com êxito: o bebê não todo humano percorrera um longo caminho durante uma viagem intergalaxial e chegara a um lugar que, por razões óbvias ou não, não é necessariamente fácil de se morar, em que é custoso ser quem se almeja ser. O bebê estava pronto, constituído como um real fora-da-lei, acima do natural.

Dentre tantos lugares possíveis para a aterrissagem, lá estava ele, uma criança promissora numa cidade interiorana em United States. Ao ser adotado como filho por um casal, ele recebeu o significante da família e fora chamado por Clark Kent. Ora, a criança foi inclusa em uma linguagem humana. Conforme começou a falar as primeiras palavras aprendidas, o bebê-todo-poderoso inaugura um cenário de contradição: ele foi mergulhado num plano simbólico, no qual há um limite na fala e não se é possível dizer tudo. Para viver como humano seria preciso falar, entretanto, sua constituição estava para além disso... E o motivo dele estar na Terra é algo impossível de ser todo-dito.

Antes mesmo de Clark Kent | Christopher Reeve | assumir um lugar no âmbito social é notório que ele já estava mergulhado em uma rede de linguagem por duas razões principais: esta fora formada nos anos de sua infância e juventude enquanto vivera com o casal que lhe concedeu um lugar simbólico na família, e também por sua constituição como, supostamente, o último habitante de Krypton ainda vivo – ele era desde então um ser falado. Jol-El foi responsável por uma transmissão paterna, por incutir seu filho em uma lei, ainda que não em uma lei humana de preceitos civilizatórios como conhecemos. Enquanto função lhe foi transmitida a autoridade deste pai, de maneira que ambos (pai e filho) estavam fundidos. Dentre os demais poderes fora-lhe concedido por sua constituição o dom da imortalidade e um coração humano para sua vivência entre seres mortais e, como bem sabemos, faltantes.


As próximas especulações poderiam ser tão infinitas que levariam dias para se obter alguma conclusão plausível sobre quem era este homem crescido em meios humanos. Há controvérsias e vários pontos de vista podem ser admitidos, inclusive este: Clark não era metade humano, metade um super homem – mas sim um único ser adaptado às questões da vida humana e capaz de sentir afetos similares aos de pessoas com uma existência limítrofe e rica. Clark trabalhava como membro de uma equipe jornalística em um setor cuja velocidade de processamento dos funcionários era absolutamente elevada. Eles se comunicavam com muita velocidade. Ademais, Clark tinha uma datilografia muito peculiar. Um de seus desafios era fazer-se mais um no ambiente corporativo. Humildade, contudo, não lhe faltava. É notório também uma dificuldade para a comunicação, para se incutir como pessoa na linguagem humana, pois a agitação deste “mundo de palavras” revelava a condição de loucura generalizada entre aqueles que compartilhavam desta mesma rede de significados. Em outras palavras, Clark vivia em um mundo turbulento em que as pessoas corriam para serem salvas dos infortúnios de viverem juntas e para ganharem a vida. A aparente ingenuidade, a cordialidade com que tratava a todos e seu jeito atrapalhado de agir eram características marcantes da personalidade dele. Clark tinha grandes poderes, mas alguns ainda não havia descoberto. A fim de poder conhecê-los e usá-los para o bem é que ele estava entre pessoas. Como não se lembrar da paixão de Clark por Lois Lane | Margot Kidder | e dela por Superman? Neste universo os desencontros são admissíveis, e Clark se encantava com aquela que desejava cada vez mais estar próxima dele enquanto herói, mas que rotineiramente, o via como um atrapalhado e cordial colega de equipe.


Como é suposto que todos saibam, as situações de desastre eram as ocasiões para que Clark se retirasse de cena e se transformasse em Superman. Ele salvaria cidadãos de infortúnios jamais pensados, poderia reverter a sorte dos mesmos ao dar-lhes a oportunidade de continuarem suas vidas. Ele era extraordinário não somente pelo o que era capaz de fazer, mas por ser a personificação real de um homem perfeito, do autêntico cidadão de bem que sociedade alguma foi capaz de formar até os presentes dias. Neste momento cabe ressaltar que Clark Kent / Superman eram esplêndidos por representarem o eu ideal ainda não visto em pessoa humana. 


Ora, por considerarmos que o sujeito é habitado por determinações inconscientes e paixões que lhe são desconhecidas é compreensível que não exista sequer um homem com a perfeição deste ser. Coletivamente criamos um eu ideal para jamais atingi-lo, para usá-lo como a representação daquilo que não se pode ter e nem mesmo querer-ser sem que se vivenciem grandes e significativos conflitos. É possível supor uma razão para a criação deste homem: ele foi elaborado por um ser falante para dar conta no simbólico de algo impossível de ser materializado – um ser atravessado pela linguagem e pela castração simbólica, mas que possui domínio sobre ela e sobre os eventos do mundo. Tratou-se, portanto, de uma tentativa bem sucedida de criar alguém que rompesse com os limites da falência humana, alguém para ser contemplado como aquele para o qual não há barreira para o seu poder de realizar o que supõe que lhe compete fazer, aquele que resolveria os problemas da humanidade. Não há dúvida de que neste filme suscitam-se questões de ordem filosófica, pois como Clark era a personificação de um homem perfeito e tinha a missão de resolver os problemas civis produzidos pelo próprio homem, é questionável se por ventura não é este modelo de homem que esteja errado. Pois bem, por observarmos no sujeito contemporâneo uma maior tendência em destruir do que em produzir coisas criativamente, inclusive, as condições de sua sobrevivência, esta maior tendência a destruição pode ser um efeito deste protótipo humano. Não é por menos que Freud dedicou parte de sua produção técnica para discutir o conceito de pulsão de morte. De todo modo, é certo que Clark lutava contra as consequências desta tendência humana de retorno ao estado inanimado. 


Neste momento é cabível acrescentar uma observação: uma verdadeira, intrigante e possível contradição a estas noções apresentadas é a constatação de que Clark obedecia as regras civis como um cidadão comum. O propósito era realmente este, pois na história fica evidente que sua missão entre homens somente seria realizada em um lugar caótico, no qual as pessoas estão envolvidas em conflitos produzidos pela própria necessidade de se comunicarem e de se fazerem entendidas. Ele submetia o seu repertório de dons ao enquadre humano e a moral cívica. O seu poder para voar, para percorrer distâncias em velocidades inumanas e sua força surreal atribuíam-lhe quase que uma onipotência, e claro que com toda esta bem aventurança ele tornou-se manchete dos principais jornais bem como objeto do desejo de saber de todos aqueles que ouviam a seu respeito. Quem era ele? 


Ainda que a questão permaneça inconclusa é notório que o Superman foi criado por representantes desta mesma humanidade que precisa ser salva e que se encontra em uma condição de falência. Com efeito, as pessoas deparam-se todos os dias com um limite para realizar o que desejam e para alcançar uma condição de completude na relação com o outro. A resplandecência de um cidadão perfeito e não-falto era vista nele, ou seja, ele somente foi criado porque o sujeito reconheceu em algum momento que não se pode ser todo – há um limite na linguagem e no próprio período de vida humana. Tendo em vista que o cidadão comum não é capaz de resolver os grandes desafios ou problemas criados por ele mesmo – morte, crime, trapaça, violência, etc – elencou-se alguém para fazer justiça. Além disso, não é devido censurar esta tentativa de elaborar, ainda que a custas de uma ilusão, o homem que é o desafio do século.

Have a great week,

Renato Oliveira

6 comentários:

Iza disse...

Sabe que não assisti essa versão ainda? Vi apenas a nova, Superman - O Retorno e confesso que achei meio chatinha. É Superman não faz meu estilo - prefiro o Batman, com o Christian Bale *.* Adorei a postagem e a sua análise. Beijos e bom feriado ae <3

Gilberto Carlos disse...

Adoro os filmes do Superman, mas Christian Bale com certeza é o melhor Superman que já existiu. Abraços.

Evandro L. Mezadri disse...

Ótimo post. Superman embalou minha adolescência. Muito legal essa volta ao passado.
Grande abraço e sucesso!

Cynthia Zaz Psi disse...

Dizem que ainda é o super herói preferido dos americanos. Talvez mais ainda depois da crise de 2008. Eu gosto mais de Batman talvez porque tenho lá meu lado Escorpião aguçado, mas a versão primeira do Superman é inesquecível. Gostava muito do Libriano Christopher e do Ariano Marlon Brando. Sempre bom passar por aqui e ver blogs como o seu. Sucesso. Cynthia

Évelyn Smith disse...

Caríssimo!

Eis a função do super-homem em nossa sociedade. Acredito que todos nós somos em parte "super-homem"... ao menos em nosso ics temos a liberdade de sermos o que quisermos.

Agora, tomar cs disso é algo complicado. Realmente é isso que você escreveu: "ele foi elaborado por um ser falante para dar conta no simbólico de algo impossível de ser materializado".

Mesmo assim me considero uma super-mulher, mesmo não dando conta das minhas trocentas obesessões... rsrs.

Logo nos falamos por e-mail!

Saudades!!!

Beijão

Bússola do Terror disse...

Acho que esse filme é mesmo a versão mais famosa da história do herói, né?