7.6.13

la moustache

O bigode está em toda a parte: em roupas, acessórios, anúncios publicitários, e não somente no rosto de alguns homens, mas na cabeça das pessoas. É moda? Hoje teremos a oportunidade de constatar que o bigode não é energia elétrica, mas pode vir a faltar. A correlação pode parecer bastante ilógica e absolutamente sem graça alguma, mas a bem da verdade estamos diante de um território sem grandes postes sinalizadores. Pergunto-me o que passava pela mente das fias Jérôme Beaujour e Emmanuel Carrère quanto elaboraram esta intrépida história. Ah, estes franceses! Provavelmente não sabiam que em terras brasileiras saberíamos ver o filme tanto do lado certo quanto do avesso e por consequência incluí-lo entre um louvável trabalho contemporâneo de fundamento analítico. É interessante ressaltar que um sujeito se tornará irreconhecível e de algum modo teremos que chegar a uma decisão se o condenado era ele ou todos os demais. Você não tem nada a perder se continuar esta leitura, mas ele poderia perder e ganhar muito caso raspasse o bigode. Logo, devem ter notado que nesta análise tudo gira em torno deste fatídico ornamento, e o título original do filme necessariamente é homônimo: o bigode | La moustache – 2005 |.


O momento de fazer a barba é quase sagrado, pode trazer dores de cabeça e outras complicações adversas caso não se faça com a devida atenção, e acrescento que não se deve tomar decisões importantes em tais ocasiões. Marc | Vincent Lindon | desconsiderava estes meus pressupostos vãos e por este motivo ele se olhava enquanto maquinava uma ideia talvez absurda: devo ou não retirar o bigode? Claro que todos conhecem a expressão “não mexa no que está quieto” e foi em menosprezo a mesma que todo o terror teve o seu início. Pois bem, ele resolve consultar a opinião de sua esposa Agnés | Emmanuelle Devos | antes de decidir. Ele faz o outro falar e ainda que não pareça, pela resposta é possível perceber que fora dada a necessária importância à pergunta feita: “não faço ideia, não te conheço sem ele”. O que ela anuncia saber é que o bigode o fazia conhecido como esposo... E por que não como homem? Desde já se deve ressaltar a significação atribuída a este ornamento. Há uma correlação entre o bigode e a masculinidade e, primordialmente, a virilidade de um homem. Associa-se também o bigode ao apetite sexual. 


Como é dedutível, Marc, sem grandes questionamentos, utiliza uma tesoura para cortar os fios maiores e em seguida com um aparelho de barbear comum – desses com duas lâminas talvez – ele raspa os cabelos faciais que formavam o extinto bigode. Após a conclusão do ato ele limpa o local e joga fora os fios sem saber que estava desvencilhando-se de provas. Quem seria o primeiro a elogiá-lo? É inevitável não realizar uma correlação entre o interesse abrupto de Marc em querer ser notado como um homem de “cara limpa” com o desejo de mulheres em ouvir comentários e elogios quando mudam o penteado ou corte de cabelo. É curioso observar como os cabelos do corpo se entrelaçam com simbólico, anyway. Ele brinca de esconder e se mostrar para Agnès que o olhava sem entender o que se passava. Como muitíssimo bem diriam os espanhóis: “no pasa nada”. Exatamente: nada se passava! Agnès não demonstrara reação alguma, seja de espanto, surpresa ou qualquer outra. Ela não tinha problemas perceptivos, e caso os tivesse alguns amigos conhecidos também o teriam, pois eles foram jantar na casa de um casal de amigos e os mesmos não apresentaram reação alguma a este fato. 


É lógico que Marc aguardava alguma reação, ainda que fosse um comentário mínimo sobre a ausência de seu bigode. Não ocorrera. Uma oposição estava colocada: ser notado versus passar despercebido. Esta segunda condição se relacionava com a ausência de um lugar, com o vazio, de maneira que uma das consequências iniciais foi a não elaboração de Marc, ele não conseguia produzir um entendimento coerente ao fato de que pessoas comuns, sem qualquer prejuízo na retina, não podiam identificar uma notória diferença em seu rosto, que para ele seria como um elefante no meio da sala. Outro efeito observado foi o mau humor. Já não havia mais atmosfera para conversas e entretenimento, e enquanto retornavam para casa, Marc – como se não pudesse mais suportar este real – declara à Agnès: “não diga que não percebeu. Não é difícil dizer. Só não deveria ter que dizê-lo. Meu bigode. Sente falta de alguma coisa?”. Ele pressiona os dedos da esposa sobre a região do buço como numa tentativa frenética de mostrá-la que algo esteve ali, mas que não está mais. “Raspei meu bigode”, ela não entende, se irrita e fim da história. Só que não. 


Agnès não o compreende, e ele quer ser entendido. Já não se tratava mais de obter um elogio pela nova aparência, mas sim conseguir compreender o motivo que fizera as pessoas não notarem a ausência de bigode. A princípio, Marc formula que se tratava de algo combinado entre a esposa e o casal, como nestas pegadinhas feitas em lugares urbanos (péssimo exemplo). Naquela mesma noite, a fim de apaziguar a circunstância ele diz a esposa: “eu raspei, mas posso deixar crescer de novo”. Em resposta, como se fora dito uma tamanha barbaridade, ela afirma: “você sabe que nunca teve um bigode!”. Como assim ele nunca teve? Talvez alguns já estejam pensando: “que palhaçada de briga de casal é esta? Tudo por conta de um bigode?”. Ao término da discussão, ele localiza um álbum de fotos de quando estiveram em Bali, na Indonésia. Pois bem, ali estavam os registros de que ele tivera um bigode. Com o intuito de não prosseguir com as discussões, Marc opta por guardar esta prova. 


Na manhã seguinte vê-se a imagem de um grande olho, muito similar ao de Marion, em Psicose, conforme comentei em uma ocasião. Este close faz alusão àquilo que está dado a ver. O bigode é um elemento de grande destaque em um rosto, no entanto, tudo o que se mostra também pode ser notado por sua ausência. Em outras palavras, se algo de destaque se evidencia, ele também pode ser facilmente identificado na condição de falta. Trata-se neste presente caso do entendimento de que se a pessoa tem algo, este “algo” a faz alguma coisa. Marc fora, portanto, um “bigodudo” e já não era mais. Perdoem-me a cacofonia, não fui eu que criei a expressão. Assim, ele deixara de ser e não formulara a princípio a possibilidade de que havia um status inferior nesta condição nova em que se encontrava. Ele queria apenas um reconhecimento que pode até mesmo ser entendido como uma legitimação do outro de que ele não delirava. 


Imaginem todos que no ambiente de trabalho o cenário foi o mesmo. Não houve pessoa alguma que notou este “algo” que esteve lá e ali não mais se encontrava. Em síntese: as pessoas próximas percebiam tudo, mas não reconheciam que Marc deixou de ter um ornamento, elas não identificavam o bigode ausente e ABSOLUTAMENTE não estavam interessadas nisso. Assim, é evidente que indignação e fúria são apenas dois itens iniciais da lista de afetos adversos que nosso principal personagem sentia.


Por que pessoa alguma era capaz de sentir falta do bigode? Por que ele precisava tanto de uma confirmação? Seria para dar provas a si mesmo de que não estava louco, que não delirava? Não somente. Por mais bizarro que pareça-nos, o bigode representava o falo, o significante da falta, aquilo que se é suposto ter. Ainda que não acessível à consciência de Marc, o bigode consistia em uma representação para o seu sexo. Enquanto estava presente ele afirmava e se afirmava como homem, ou seja, ele se reconhecia como sujeito identificado em uma posição de virilidade. O olhar do outro tivera esta função de validar um lugar para o sujeito em relação ao sexo. A problemática se extrai destes mesmos pressupostos. O bigode, assim como o pênis, não são garantias de que se é viril e quão menos de que se tem o falo – aquilo que é suposto ser o que completa o desejo do outro. O bigode de Marc não fazia falta ao olhar de outras pessoas, pois a estas ter ou não tê-lo não era pré-condição para a afirmação de um sexo. O único a se organizar pelo próprio bigode – ou seja, pela crença de ser fálico – era o próprio tolo do significante: o usuário. Marc quis fazer prova de sua virilidade e descobriu, pois foi levado a crer, nunca ter tido algo que fosse a garantia de ser um homem viril. 


Pode-se considerar que o roteiro do filme consiste em uma sutil metáfora para ilustrar a compreensão de que o pênis não se restringe àquilo que é existente nos homens e falta em mulheres. Para além do imaginário, entende-se que nas relações afetivas está em jogo o que se supõe encontrar no outro. Por esta razão, os elementos bigode e pênis deixam de ser exclusivamente uma garantia de virilidade para se tornarem nada mais do que objetos que podem vir a ser perdidos. No filme também é retratado que o interesse de Agnès estava para além de Marc enquanto homem. Raspar o bigode foi um equívoco? Como se trata de uma sátira às ilusões imaginárias masculinas, entende-se que o bigode orientava Marc em uma posição de virilidade, ou seja, o bigode era-lhe como uma extensão de seu pênis e de seu sexo, ao cortá-lo ele se deparou com o silêncio do outro, sentindo-se desorganizado, pois estava sem sexo e como costumam dizer, “sem chão”, isto é, sem referência. 


Marc se tornou um eunuco aos olhos de sua mulher. Há uma cena aparentemente ingênua em que ela assiste a um jogo de futebol e se irrita demais com o catastrófico desempenho dos jogadores. Ela anuncia: “ai esta, acabou. Um desastre. Estou desapontada. Muito desapontada. Homens que odeiam futebol são tão chatos”. Ora, este discurso consistia na declaração de uma condição de falência, ela revelava como se sentia em relação ao seu marido castrado. A situação estava perdida? Após tentativas de provar sua “virilidade” Marc volta a fumar e chega a vasculhar o lixo para encontrar os fios de cabelo de seu antigo bigode. Ele encontra alguns e apresenta-os a esposa supondo que ela o entenderia. Ele quer provar que já o teve, quer que ela o legitime e volte a desejá-lo. O cigarro como um suposto apaziguador de uma intensa frustração faz alusão a uma histórica e maldosa correlação em que se diz que o mesmo é um substituto do pênis. 


Por fim, temos diante de nós um sujeito que acreditava ser possuinte daquilo que é capaz de ser a resposta e completude ao desejo do outro. Foi preciso perder para descobrir nunca tê-lo tido. Sua crença e os seus cabelos faciais foram para o ralo e sim, empregaremos a expressão literalmente. “Você realmente acredita que tinha um bigode?” Tudo o que existe pode ser perdido. O bigode foi o elemento central para se ilustrar a ocasião em um relacionamento afetivo em que se faz a mais significativa descoberta: “temo que os suspiros terminem com gosto de feijão”.

Felicidades!

Renato Oliveira

7 comentários:

Evandro L. Mezadri disse...

Que louco, esse vou fazer questão de assistir, não uso apenas o bigode, uso barba, porém tenho meus "rituais" para com ela.
Grande abraço, sucesso e grato pela visita!

Francy´s Oliva disse...

É Renato pelo visto não é só as mulheres que tem neuroses com cabelos. Bela explanação sobre La Moustache.
tenha um lindo final de semana caríssimo.
bjs

Iza disse...

Olha que filme bem interessante , hein?! Não assisti, mas sei lá, me chamou a atenção. Gostei muito do seu post, adoro o jeito em que escreves. Muito bom! Mas por que ele perderia sua masculinidade por causa de um simples bigode? Era apenas um bigode... um moustache. Bem, indicarei o filme para minha mãe e tentarei assistir também.Depois te falo o que achei.
Abraços.

Renato Hemesath disse...

Oi Iza,

respondendo a tua pergunta, na verdade ele não perderia a masculinidade por não ter um bigode. No entanto, a masculinidade está atrelada a algum signo, algo que represente a dimensão do que é o masculino. Este signo no psiquismo é o pênis, mas no filme é ilustrado por meio do bigode, que na verdade também é um símbolo de poder associado ao desejo sexual.

A sátira do roteiro do filme é exatamente a loucura do neurótico (no caso, Marc) por não obter das pessoas uma resposta de que ele um dia teve um bigode. Elas não notaram a diferença e a vida dele tornou-se um caos após ter raspado o bigode. Por isso que suponho que a perda de um signo representou-lhe muito mais que isso... Como se fosse-lhe a perda de algo que o representava enquanto homem. Para ele (e há muitos) ser homem está na dimensão do ter algo, do se fazer completo ao olhar de algum outro.

Por fim, o filme é a atualização da crença/fantasia do menino neurótico que teme perder o pênis seja por castigo ou porque descobriu a existência de seres que não o tem.

Assista sim, é ótimo!!! ❤

Évelyn Smith disse...

Caríssimo! Saudades de ler as suas resenhas do CF.

Realmente este filme tocou num assunto muito interessante... eu nunca havia pensado a respeito, em relação do bigode representar a virilidade de um homem. Bom, o bigode pode substituir várias outras coisas e, diga-se de passagem, são somente coisas do nosso imaginário.

Mas podemos viver sem os nossos "bigodes"? Às vezes precisamos tanto de um símbolo pra nos afirmar em nossa sexualidade, quando, na verdade, não precisamos de nada disso pra nos afirmar... enfim, neuroses!

Tudo de bom pra você!

Beijão

Eduardo Guerra disse...

Após essa "loucura" com o bigode, Marc começa a delirar (ou não) sobre muitas outras coisas, como a morte de seu pai, a existência de um ex-marido de sua mulher, entre outras coisas.. em seguida ainda foge para Hong Kong e lá fica viajando de barco todo dia, como se estivesse procurando por algo ali. Um dia sua mulher aparece como se eles estivesse de férias e ele aceita sem contestar a sua atual realidade. Qual é a relação disso com o "moustache" e esse problema com masculinidade? Obrigado

Renato Hemesath disse...

Oi Eduardo! É bastante intrigante os fatos que se seguem da metade para o final do filme. Não sei o que eles significam e nem se tem um sentido cronológico, no entanto suponho que as questões postas se associam com ideia de falta e falta como o sentido de que algo se perdeu.

Chama a minha atenção o fato de que o "delírio" de Marc é o retrato de um homem caminhando sem sentido, as cenas parecem ilógicas, desorganizadas e só se tornam menos absurdas para ele no reencontro com a esposa (após acordar e aparecer com uma camisa vermelha) ocasião em que seu bigode volta a aparecer, como se sempre houvesse estado lá. A minha associação é a mesma: bigode enquanto imagem representante do falo, aquilo que organiza o masculino em sua relação com o mundo. A falta daquilo que organiza des-organiza tudo. Não parece que com o bigode sua necessidade de contestação é menor ou nula?

Ausência de um bigode >> busca por tentar re-encontrá-lo >> ostentar o bigode >> sentir-se estruturado na sexuação >> ser homem.

Abraços =)