20.12.13

um toque de hilaridade

As pessoas dizem que o casamento é uma instituição sagrada. E o sentido de estarmos aqui para nada mais é senão questionar as opiniões públicas pautadas em noções comuns. Sim, a presente ocasião é oportuna para a abordagem de sentimentos, aqueles terrificantes, somente. Estamos em família no filme Cousins (1989), pois o diretor Joel Schumacher faz um retorno a esse núcleo central que parece uma cartola de surpresas agridoces sempre quando seus membros escolhem o caminho da “falação”. 


Sabem aquelas reuniões em que as pessoas, depois de tempos sem se verem, colocam os updates em dia e sempre geram polêmicas desnecessárias, questionamentos adversos de quem casou e não casou e a piada do “pavê ou pacumê?!” Sim, o contexto era basicamente este. Embora seja desanimador esse retrato prévio, certamente se produziu um filme muito significativo para abordar os sentimentos consequentes da decisão de se unir a alguém. Ora, nossos quatro estimáveis sujeitos de pesquisa de hoje elaboravam exatamente este afeto, e como saber o que é estar em união senão a partir do medo de perder o objeto?


Os casais Larry | Ted Danson | e Tish | Sean Young | bem como Tom | William Petersen | e Maria | Isabella Rossellini | compareceram ao casamento de um tio idoso e hilário. O programa, como de costume, foi uma cerimônia religiosa seguida de festa. As pessoas estavam eufóricas, tanto que ao observar a cena você se pergunta (suponho) acerca da razão de um casamento evocar tanta adrenalina em um público! Será que estavam, na realidade, felizes pelo casal, ou por poderem usufruir da ocasião para satisfazerem seus próprios interesses egoicos, especialmente os de natureza oral? Pensem que o casamento enquanto celebração é, na maior parte das vezes, dividido em cerimônia e festa, a primeira associada ao religioso e, portanto, a diferentes figuras do sagrado, e o segundo pode ser diretamente relativo ao profano.


Ora, a este respeito, justifico-me: primeiro abençoa-se o ato matrimonial e se decreta que “somente a morte poderá separá-los”. Geralmente não se fala sobre ciúme, traição e perda da libido neste momento. Agora, durante a festa são suscitadas tanto as paixões quanto os prazeres propriamente carnais, inclusive, a voracidade. Existe coisa mais avassaladora do que a emergência destes dois elementos? São datas em que se fala muito e come-se em demasia e já não parece mais oportuno às pessoas ouvir um discurso de mais de cinco minutos.


Larry tentou falar em público e teve dificuldade em obter a atenção dos presentes. Ele queria falar de afetos, quando na verdade na festa havia espaço para o tesão e a fome, tão somente. Pois bem, reuniram-se, portanto, parentes, conhecidos e semiconhecidos, pessoas insuportáveis: 100, 50 e 75 por cento, respectivamente. E no meio da festa, após trocas de olhares, Tom e Tish afastaram-se dos demais, “sumiram” da visão dos convidados. Depois deste panorama nada otimista sobre as relações familiares em casamentos, é evidente que você já entendeu a sucessão dos fatos. Eles se conheceram neste dia, transaram, e em seguida retornaram às suas posições familiares. Porém devo acrescentar que mais inesperado que isso foi o encontro dos que não foram: Larry e Maria, que começaram a compartilhar doses do que eram eles mesmos enquanto aguardavam os cônjuges. 


“Você confia em mim?” + presentes nos dias seguintes = perfeita fórmula do “traidor”. Essa palavra tem mesmo uma denotação pesada, mas o fato é que com Tom podemos apreender o protótipo do comportamento de um homem que trai. Conversas frequentes e atípicas sobre fidelidade e entregar presentes inesperados a esposa são quase que uma assinatura do laudo do crime. Sem contar, que todos sabemos, via as evidências, de que homens tem menos talento para disfarçar delitos do que mulheres. Mas você não precisa concordar com as estatísticas. Sim, Tom traiu a esposa e o conceito de fidelidade emerge no filme a partir do oposto, a noção do que é não ser fiel. Esta concepção é reafirmada na cena em que ele vai atrás de outras mulheres com quem se relacionava sexualmente a fim de demarcar um fim de relação, porque sim, ele intentava continuar sendo infiel, mas apenas com Tish enquanto objeto.

Esta declaração expressa nos atos de Tom tem uma estereotipia antiga, óbvia e neurótica. Pode-se presumir desde então a existência de culpa inconsciente em Tom, de modo que ao dar presentes e aproximar-se dos filhos ele buscava reparar um dano consciente feito a um objeto, no caso, a esposa. Mesmo não tendo a confirmação se Maria sabia do fato, a solução inicialmente encontrada foi essa. Um adendo: Tish, de outro modo, era muito mais sutil, e sua conduta revelava possivelmente maior oxigenação encefálica. Ela perguntou a Larry: “você mataria um dragão por mim?” Ele respondeu: “um dragão bebê”. Talvez ela quisesse saber as extensões desse suposto amor e as dimensões do território atual em que encontrava seu casamento. 


Vamos agora para o outro casal. Qual era a dúvida de Maria? A fidelidade de seu esposo. Claro que ela suspeitou, e essa incógnita a fez procurar Larry para lançar luz nessas alamedas da mente. A emotividade feminina e masculina diante de uma questão delicada é brilhantemente expressa na cena em que ela, numa feira, não conseguia formular a pergunta, pois isso era seguido de ansiedade e angústia. Ela precisou dar algum indício da questão que desejava saber para que Larry a verbalizasse: “Se acho que o seu marido e minha mulher dormiram juntos? Eu não sei. Só eles sabem”. Ela menciona que ele parecia não estar preocupado e ele argumenta ao dizer que “sexo não é grande coisa”. Após a afirmação de Maria de que algo aconteceu, Larry se expressa nos seguintes dizeres: “Eu acredito na liberdade de escolha de cada um. Tish precisa crescer para ser sua própria pessoa. O que os outros fazem é problema deles. Você está livre para escolher. Isso é ótimo! Mal nos conhecemos e já estamos nos desentendendo”.

Enquanto ela elabora sua dúvida mediante uma posição cautelosa, porém ativa de investigação, ele apoia-se muito mais na riqueza do diálogo e no tom inconclusivo de seu próprio saber. Esse contexto fomenta uma questão que não pode ser deixada de lado: a fidelidade está ou não associada com a noção de posse de objeto? Imagine se em casamentos, o sacerdote dissesse: “toma, isso é seu e isso é dela. Um é do outro. Façam o que acharem melhor disso, mas não se destruam!”. 


Não encontramos na literatura psicanalítica clássica discussões aprofundadas sobre fidelidade no matrimônio, mas se aborda, com grande maestria, sobre amor, culpa e ciúme. As atitudes reparatórias de Tom pautavam-se em um embate de forças do superego com o ego, gerando culpa inconsciente ou pré-consciente. Muitas vezes é temível entrar em contato com a ansiedade decorrente da constatação de que um objeto foi destruído porque se usou contra ele tendências destrutivas ou sádicas. Olha, essa palavra não poderia ser colocada em local melhor, porque o cenário que foi formado e sobre o qual farei meus comentários baseia-se exatamente nisso: um jogo sádico de casais – Larry e Maria – que juntaram suas incertezas para brincar com a imaginação de seus amantes.

Tudo começou após a morte do tio recém-casado, a qual alude ao tema central do filme, a saber, a presença da morte da confiança após uma suposta traição. A brincadeira não consistia em “jogar com a mesma moeda”, mas sim em fazer uso de um recurso primitivo, porém causador de efeitos: o ciúme. Inicialmente, enquanto passeavam, viram chapéus a venda e Maria interessou-se por eles. Observe o intento dos dois: – “Aquele chapéu ficaria lindo em você!” – “Tom odeia que eu use chapéus”“Então vou comprá-lo para você!”“Não! (...) Mas a cara que o Tom faria... O que a sua esposa odeia que você use?”“Cuecas samba canção, ela não acha sensual”. Sim, eles compraram ambos objetos e souberam como usá-los para atrair a atenção dos cônjuges.


Devo esclarecer que eles não se comportavam de maneira infantil, pelo contrário: com diálogos, empatia e amizade, eles foram capazes de suscitar em Tom e Tish uma incógnita acerca do que os fazia se darem tão bem. Aos demais, estava presente a dúvida se sexo fazia ou não parte da relação entre eles. Portanto, em um primeiro momento, o jogo de casais pautou-se na seguinte pergunta: “o que eles sabem sobre nós?”.

Nas horas em que Maria e Larry passavam juntos havia ocasião para que cada um se colocasse nesse convívio de acordo com suas próprias motivações internas. Eram períodos de declarações afetivas e poesia. Devo esclarecer que eles faziam uso moderado de acting out, ou seja, emitiam comportamentos de atuação para evocar alguma reação no outro. Os cônjuges e outros familiares ficavam intrigados com essa situação produzida. O ciúme de Tish e Tom era consequente da cumplicidade e do respeito presente no convívio de Larry e Maria enquanto elos afetivos. Não é bonito? Mas tem uma coisa mais. Não era apenas ciúme o que eles sentiam da dupla Larry e Maria, mas também inveja. Sim, inveja no ciúme. Qual a diferença?


Em linhas gerais, o ciúme ocorre em uma relação tríplice, está associado à noção de posse de um objeto. Assim, um terceiro objeto surge e é sentido como mau, como capaz de tomar para si o ser eleito e amado. Há também a elaboração de fantasias em torno desse objeto hostil. O ciúme tem início na vida mental quando os objetos são reconhecidos como seres totais – “cada um é um”, essa é a noção. A inveja, de outro modo, é muito mais primitiva, pois é sentida por objetos parciais. Observem que na fúria de Tom havia uma inveja em estado latente do pênis de Larry – não somente o órgão em si – mas aquilo que ele era suposto ter enquanto objeto de excelência e gratificador que despertou a atenção e o interesse de Maria. De modo similar, o poder de sedução feminina era o principal atributo identificado em Maria por Tish e tornou-se gerador de inveja.

É preciso ressaltar que Larry e Maria também experimentavam ansiedades enquanto jogavam. Afinal, a suposição de traição que lhes serviu como ocasião para o jogo era sentida com angústia, ainda que moderada. Eles riam da própria condição e faziam uso do lúdico, e essa possivelmente era uma ação defensiva do ego ao sentimento pré-consciente de ter sido traído. Em uma traição (não apenas as conjugais) descobre-se que o objeto estimado não é uma fonte inesgotável de amor, bondade e gratificações. Ele pode também ser mau, destrutivo e agressor. 


Com um encontro espontaneamente forjado em um restaurante, deu-se início a segunda etapa do jogo de casais – “testes de reação alheia”. Larry e Maria extraiam, com humor, uma determinada satisfação sádica ao perceberem que Tom e Tish acreditavam terem sido pagos com a mesma moeda

Culpa, ciúme e amor, para enfatizar. Era suposto haver sentimentos penosos de culpa em Tom e Tish, e foi com o intento de brincar com o jogo do ciúme que seus cônjuges criaram um cenário para a emergência de questões reais acerca do amor. É realmente difícil falar de amor como uma “substância pura”, mas como não se lembrar das palavras de Freud de que uma pessoa se sente muito segura quando sabe que é amada? Com a brincadeira de nossos protagonistas, essa segurança não somente foi abalada, mas retirada de cena, dando lugar ao ciúme e ao temor de retaliação. Ainda assim, será que existia amor nessas relações? A infidelidade é o resultado de um amor passado que não se articula mais no presente? 

Um dia uma pessoa estava na plataforma de uma estação de trem. Ela viu do outro lado o seu ser amado. Em instantes ele também a viu. Seu impulso foi correr para encontrá-lo. Apressou-se, desceu e subiu escadas, atravessou o fluxo de pessoas, até que chegou do outro lado e se deparou com o nada. Não havia ninguém ali. O ser amado havia feito o mesmo percurso que ela, e, encontrava-se, agora, na plataforma oposta a que ela estava, aguardando-a. Nesse momento ela se sentiu realmente amada.

Renato Oliveira

6 comentários:

renatocinema disse...

Ted Danson......rapaz nem lembrava dele. kkk

Mas, meu medo por obras do diretor é maior que minha curiosidade. kkk
abs

Iza disse...

Adorei o texto! Eu não assisti o filme, mas, pareceu que no final eles, Tom e Tish só queriam "testar" seus companheiros. Hummm, Isabella Rossellini no elenco, interessante...
Beijos e boas festas! <3
*Se bem que eu acho que até o final do ano, a gente se vê por aí né?

Evandro L. Mezadri disse...

Muito interessante a sinopse, vou buscar assistir, o assunto é muito presente em nosso dia a dia.
Grande abraço, sucesso e grato pela visita!

Évelyn Smith disse...

Caríssimo,

Este filme retrata muito do que acontece nos relacionamentos amorosos ou pseudo-amorosos. Cá pra nós, hoje em dia existem muito mais pseudo-amor entre os casais.

O amor nos encoraja a seguir adiante... principalmente quando nos sentimos amado por alguém. Até aí concordo com o Freud. Mas... indo mais à fundo, como se sentir realmente amado? O ciúme e a infidelidade podem ocorrer por conta desta pergunta... o ciúme pela falta de auto-segurança e a infidelidade por conta do pseudo-amor. Já ouviu aquela história, eu amo o fulano e ele é pra casar, mas preciso ter mais experiências. Taí o pseudo-amor... na verdade a busca é tão grande por um único amor que o indivíduo não dá conta de ter um único relacionamento. Ou é o amor próprio é tão grande que não dá conta de compartilhar com apena um, tem que ser compartilhado com vários e vários?!

Enfim, me empolguei... rsrs.

Tudo de bom pra ti!

Beijão.

Gilberto Carlos disse...

Gosto muito de Um toque de infidelidade e de todo o seu elenco (o auge de Isabella Rossellini). Lembro de quando era criança e via a propaganda dele na globo, dizendo que ia ser exibido no corujão de madrugada. Vários anos depois é que consegui gravá-lo.

Abraços.

M. disse...

Renato, depois de ler seu texto tive enorme vontade de assistir este filme! Mais um para minha lista!!! Você como sempre arrasando em suas análises sobre filmes. Um grande abraço.